29/05/2014

o espaço físico da tradutora

[Ana Saragoça e «Os Olhos de Tirésias»]

"A secretária, o contraplacado liso, cinzento-rotina, a fazer um ângulo recto à posição da janela, a cadeira e eu. Neste espaço de escritório, a janela é o astro-rei à volta do qual gravitam as estantes, as cadeiras, a secretária, canecas de chá, um boião de lápis, calendários. Livros fazem-se esquecidos no pó das prateleiras, há postais, resmas de papel por desembrulhar, papel usado para rascunho, restos de papel azul de vinte e cinco linhas, mais livros e ainda outras pilhas e montes de livros. Alguns são edições nacionais de traduções minhas. É um trabalho fantástico, que me enreda na complexidade de cada uma das línguas, o de traduzir, lidando com a cor e o cheiro das palavras. São bailarinas caprichosas, prima-donas exigentes, ora secas, ora sensuais, e, por vezes, é difícil encontrar aquela que melhor dança em certo contexto e sintaxe."
Os Olhos de Tirésias (pág. 117) 

A tradutora, invisível, no seu espaço sagrado

Uma das condições que estabelecemos ao embarcar na nossa NAU foi a de não cairmos no muito português desporto de cantarmos loas uns aos outros. A outra, que a precedia, era a de nos lermos uns aos outros e de destacarmos de cada livro uma citação sobre a qual quiséssemos ‘trabalhar’ o nosso modo de ler a obra do colega de tripulação. 

Falar sobre Os Olhos de Tirésias sem desvendar algum segredo é impossível, e seria uma injustiça privar o leitor de ir saboreando cada nova surpresa. Para quem, como eu, tem paixão por história, por música e por literatura, o livro é como um bufete que a cada passo revela uma iguaria. 

Escolhi este trecho porque, ao lê-lo, senti que a Cristina Drios, alguém com quem nunca falara até há meses, tinha de algum modo entrado no espaço sagrado da minha área física de trabalho. Mais, que tinha entrado na minha cabeça de tradutora e tinha tocado naquela parte intimíssima de mim que me faz amar o que faço: olhar em redor e sentir-me reconfortada com a companhia de livros e papéis; olhar para as palavras de um original e perder-me na imensa e deleitosa dificuldade de as transpor para português da melhor maneira possível – e há sempre uma maneira melhor, um termo exacto que passou a tarde toda a esquivar-se-me para me assaltar a meio da noite, obrigando-me a acender a luz e a escrevinhá-lo à pressa antes de conquistar o direito de voltar a adormecer. 

E esta é de facto uma das pouquíssimas partes do livro que posso partilhar com quem não o leu sem lhe roubar o prazer da descoberta das pequenas jóias que as suas páginas encerram. Só lhes posso dizer uma coisa: é uma caça ao tesouro que vale bem a pena, portanto leiam.   

2 comentários:

  1. Fiquei com vontade de ler o livro.

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  2. ainda bem Nuno. não se vai arrepender. a Cristina Drios estará na feira do livro no dia 14.

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