25/12/2014

20 confissões proustianas de Raquel Serejo Martins


Foto: Ricardo Figueiredo de Carvalho

A minha ideia de perfeita felicidade:
Prefiro a felicidade imperfeita, defeituosa, quotidiana, que ao fim de cada dia, sem más notícias, não me falte uma chávena de chá e a companhia dos meus gatos no sofá.

O meu maior medo:
A dor física, a certeza da morte, dos outros e da minha (pronome possessivo) morte.
Um medo concreto, ao ponto de… ridícula, pensar… por vezes pensar que vou morrer de medo de morrer.
- Morreu de quê?
- De medo de morrer.
Parece Beckett, não é.

A característica que mais me desagrada em mim:
Tem dias em que parece que gosto de não gostar de mim. Sou, em regra, demasiado exigente tanto comigo como com os outros e, em relação aos outros, não sei se tenho esse direito.

A característica que mais me desagrada nos outros:
A hipocrisia… isto em pequena escala quotidiana e comezinha, perceptível, risível, enfim…
E a sério, a maldade humana, em regra gratuita, não legítima, não defesa. Tantos os acontecimentos que não consigo compreender. Que me deixam sem respirar. Que me afogam sem lágrimas.
Por exemplo, a violência de género.
Por exemplo, o que se passou dia 16 deste Dezembro, em Peshawar, no Paquistão, um grupo de talibãs [o ataque foi reivindicado pelo Movimento dos Talibãs do Paquistão (TTP)], invadiu uma Escola Pública do Exército, 1.100 alunos nas salas de aula, primeiro a explosão, homens-bomba, depois as balas, homens armados, massacrando 141 pessoas, a maioria crianças e adolescentes. Um alvo cirúrgico e simbólico, porque uma escola.
Por exemplo, o Festival Gadhimai, em agradecimento à deusa Hindu que lhe dá o nome, celebrado a cada cinco anos, é o maior sacrifício religioso de animais no mundo. Aconteceu a 28 e 29 de Novembro, em Bariyarpur, no sul do Nepal, fronteira com a Índia, e foram sacrificados milhares de animais. Um artigo do El Mundo chamou-lhe matança brutal. Em 2009, segundo o The Guardian, o festival concentrou mais de um milhão de fiéis e foram mortos 250 mil animais, búfalos, cabras, cordeiros, bezerros, porcos, pombas, animais chacinados com uma violência inenarrável.
Por exemplo, fogo posto, fogo de incêndio.
Por exemplo… não vou dar mais exemplos.

A virtude que me parece mais sobrevalorizada:
A sinceridade.

As ocasiões em que minto:
Quando me remeto ao silêncio. Quando não digo o que penso. Quando não sou sincera.

A minha qualidade preferida num homem:
Sentido de humor. Cada vez mais me parece que esta é a qualidade consequência ou corolário de outras que gosto. Não conheço ninguém com a nobre qualidade de me fazer rir que não seja inteligente, curioso, generoso, bonito. Sendo, de forma homóloga, a qualidade que mais me agrada numa mulher. Porque tudo pode ser feito sobre o barulho do riso.

Quando e onde fui mais feliz:
Eu tinha dezasseis anos e era feliz. Às vezes parece-me que sempre que sou feliz, voo, plano, volto, tenho dezasseis anos e o mesmo grau de espanto e pureza no olhar.

O talento que mais gostaria de ter:
Invejo tantos talentos, mas provavelmente, de certeza, pintar.
Pintar parece-me ter tudo em si, palavras, notas, edifícios, céus, saltos, ventos, barcos.
Também gostava de conseguir musicar alguns poemas, porém tenho ouvidos inúteis para fins melódicos, perfeitos para portas!

Quem ou o quê é o grande amor da minha vida:
Apaixono-me com razoável frequência. Faço um esforço. Como um gato vou à caça. E tem dias que o dia é do caçador e fico, barriga cheia de borboletas e pezinhos com vontade de dançar.

Onde gostaria mais de viver:
Na infância, esse lugar sem chão, na Lisboa de Pessoa, são tantas as vezes em que me parece que não sou deste tempo, excessivamente tecnológico, porém como tal não é possível, qualsiasi piccolo paese nel sud d'Italia sarebbe perfetto, eu um Tabucchi ao contrário.
E se mesmo assim tal não for possível, talvez uma aldeia algarvia ou andaluza.
Enfim, planos futuros de formiga, porque neste momento, não me apetece trocar Lisboa por nada.

O meu bem mais precioso:
Os meus amigos, tenho muitos e bons, uma gaveta cheia. Costumo dizer “deus me conserve o faro para as pessoas”. E como tenho uma família mínima são a minha “famiglia”.

A minha ocupação preferida:
Ponho-me a pensar numa tarde bem passada e o que vem é uma praia, um livro na mão, caminhada e mergulho com amigos, uma sesta numa almofadinha de areia.

A minha característica mais vincada:
Sou difusa, assim que uma troika de características, frontalidade, persistência e preguiça.
Frontalidade, sendo que já fui mais... é uma característica muito apreciada em abstracto, porém, no concreto, faz mazelas.
Quanto à persistência e à preguiça, apesar de contraditórias, parece-me que se compensam sem se anularem, como se a preguiça servisse de balão de oxigénio para renovar a vontade e no entretanto saborear a vida.

O que mais valorizo nos meus amigos:
Exactamente isso, o serem meus amigos, terem a inexplicável qualidade de gostarem de mim, de resto a amizade é um mistério.

Os meus escritores preferidos:
Nas minhas leituras concluo inevitavelmente que há uma óbvia geografia mediterrânica e sul-americana.
Quanto a escritores preferidos, vou destacar apenas as últimas descobertas sem “meter” estrangeiros, o meu trabalho de garimpo à descoberta do ouro, assim, escritores que li no último ano, e que me encantaram Ana Margarida de Carvalho, Alexandra Lucas Coelho, Valério Romão.

O meu herói na ficção:
D. Quixote, talvez porque no fim, quando regressa a casa, percebe que não é um herói, por perceber de forma mais ampla, que não há heróis.

Rob Davis (BD)

Os meus heróis na vida real:
Sou das que acredita que uma só pessoa pode fazer um mundo de diferença.
Pessoas como Chico Mendes. Quem se lembra de Chico Mendes?

A minha maior pena:
Sofro de uns quantos arrependimentos. Não quanto a coisas que fiz, mesmo quando saiu asneira, mas relativamente a coisas que não fiz, e que assim ficaram fora de tempo, ou perdi a vontade, envelhecer deve ser isto.

O meu lema:
Sobretudo, as pessoas.

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