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10/07/2014

perfil de Ana Saragoça

[texto de Carla M. Soares]


Diria que uma massa de cabelo ruivo, ruivo a sério, nada dessas cores deslavadas de meio termo, quase esconde um olhar tímido. Cara de boneca, gestos de boneca, autenticidade na “massa do sangue”.  Alentejano, pois claro, que ainda se lhe nota na língua.

Não sei nada sobre a vida da Ana. Fiquei de lhe tirar o retrato, e para lhe tirar o retrato se calhar devia ter-me encontrado com ela outra vez. Feito perguntas, como jornalista a sério, munida de gravador. Ou ao menos papel e lápis. Mas não quis. Porque quis este retrato a partir da mulher que encontrei duas vezes apenas – a mulher, a autora, o que quiserem. Fogo no cabelo, recato no gesto, e pelo meio a imaginação.

Da primeira vez que nos encontrámos éramos muitos. Sete, para ser mais precisa. Havia cabelos louros, castanhos, uns brancos à mistura, até uma careca. Mas ruivos, assim fogosos, só os dela. Riso aberto, mas eu, tímida, adivinhei-lhe a timidez. Uma certa maneira de virar-se para dentro que os que se viram para dentro adivinham uns nos outros. Posso estar errada mas não quero, porque o que escondemos é muitas vezes o melhor. Na Ana, adivinho, adivinhei antes de ter lido a sua  pequena pérola, um dentro muito maior que um fora. Mulher de força a enfrentar tempestades, que são muitas vezes tempestades o que os dias têm para oferecer. Tempestades, bonanças, novas tempestades.

fotografia de Mário Pires
A segunda vez foi na Feira do Livro, eu em sessão de autógrafos, coisa desgraçada, ela de visita, com as duas crias – o mais velho a cara da mãe, sem os cabelos ruivos, a mais nova a menina linda que queremos todos. Eu tenho uma, mas maior. Os dois a simpatia da mãe.  Foi toca e foge, ficou a vontade de mais tempo de conversa.


É alentejana, sim, de gema, e depois de alentejana foi actriz, e ser actriz ajudou-a a apanhar os nossos tiques. Nossos, portugueses, humanos. Aprendeu com quem tinha para ensinar, outros escritores, dos bons, outras escritas. Depois de ser actriz, depois de aprender, depois de ter a sua voz, escreveu este Todos os Dias São Meus, é preciso ler, é preciso lê-lo, e depois desse Quando Fores Mãe Vais Ver. Entre os dois, diz, descobriu que ser escritora era importante. Que ser escritora lhe dava prazer. Quase físico, quase sexual. É escritora, sim senhor, digo eu, que sou leitora.

17/06/2014

o alentejanismo mágico

[Ana Saragoça e a leitura de «O Intrínseco de Manolo»]

“E de repente surgiu a azinheira, logo uma azinheira cuja silhueta nunca houvera afinal visto com olhos de gente, e nela estava uma carta pregada, e nela estava a algazarra da fúria e da mansidão, da cobardia dos ignorantes, e na sua sombra queria Manolo descansar, mas agitado era seu sono e sentiu apenas uma lágrima a acordá-lo; sentiu-se perdido e vivo como nunca antes experimentara e ouvia agora, vagamente mas ouvia, chamar seu nome ao longe, muito longe, e perdido estranhava o lugar, tão perdido quanto sonho quis que tudo fosse, até que olhou para a porta e ouviu:
- Porque choras, homem?”
O Intrínseco de Manolo (pág. 36)


Alentejana dos quatro costados, logo me saltou à vista que o Alentejo de Manolo não era o Alentejo que conhecemos nós, os de lá, nem os que aprenderam a conhecê-lo através da muita literatura neo-realista. Neste retalhinho à beira-mar plantado, o Alentejo é o sonho dos citadinos, com as suas planícies imensas e o silêncio tão difícil de encontrar alhures. 

Mas quer parecer-me que o João Rebocho Pais nunca pretendeu retratar um Alentejo real, nem gentes reais. Precisava de um cenário onde expandir uma galeria de excêntricas personagens, primando quase todas, de um modo ou de outro, por possuírem uma sexualidade descabelada, fosse pela bizarria ou pela dimensão dos apetites ou por ambas, que isto de comer e coçar tudo vai de começar. E tenho para mim que Cousa Vã foi parar ao Alentejo, porque só lá se podia encontrar a âncora que impede toda aquela nave de loucos de disparar galáxia fora em cavalgadas desbragadas, hilariantes e não raro comoventes a ponto de ainda poderem perturbar o sossego das estrelas. Essa âncora era a azinheira de Manolo. O seu a bem dizer intrínseco.  

E foi graças a essa azinheira e a toda a trapalhada de gente e de acontecimentos a reboque dela que nasceu o alentejanismo mágico™ de João Rebocho Pais. A planície merece e esta leitora agradece.