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22/03/2015

MUDAR DE VIDA

[a leitura de Dizem que Sebastião por Ana Saragoça

‘… um remoinho arrastava folhas e papéis pelo chão numa coreografia de esperança voadora: afinal, as coisas inertes não o eram, voavam até, vindas dali e voadas para acolá, como as memórias, como os velhos amigos, os reais e os dos livros, como as despedidas, como os chapéus que continham serpentes; afinal, tudo esperava apenas o momento de redemoinhar.’


Quem me conhece sabe que tenho um ódio de estimação pelos chavões new age: poucas frases me irritam mais do que ‘Tudo acontece por uma razão’, e à pergunta de bolso sobre o meu signo respondo invariavelmente que sou Imperial com ascendente em Tremoço. E nem a minha história de amor mais longa e satisfatória, aquela que tenho com os livros, me faz mudar de ideias, apesar de ser tentador pensar que tudo acontece por uma razão misteriosa quando:

  • uma frase lida num livro nos salva da morte
  • uma personagem literária é tão, mas tão parecida connosco que temos a sensação incómoda de que ou autor plantou microfones na nossa vida interior
  • uma personagem cresce e é feliz mesmo depois de ter cometido a mesmíssima asneira que acabámos de cometer e nos parece irremediável
  • um livro responde a perguntas que nunca nos atrevemos a formular em voz alta

Tudo isto já me aconteceu, e mais do que uma vez. A última foi com Paula, de Isabel Allende. Comprei o livro nos primórdios do século. Comecei por adiar a leitura porque sabia que abordava a morte da filha da autora - eu tinha sido mãe em 1999 e não conseguia sequer pensar em abordar aquele tema. Depois li um um outro livro de Allende em que já não reconheci a autora de A Casa dos Espíritos, mas a repetição de uma fórmula que se tinha esgotado. Há um mês e pouco, tive uma emergência matinal: acabara um livro na noite anterior, estava à pressa para sair de casa e ainda não tinha escolhido a leitura seguinte. (Nota: sair de casa sem um livro é prenúncio certo de catástrofe.) Assim, abri de rompante o armário dos LPL – Livros Por Ler -, peguei num às cegas e saí porta fora. Deu-se o caso de ser Paula, e de retratar ponto por ponto uma situação que eu estava a viver, e de dar voz também a muitas dúvidas minhas em relação à escrita.

Foi verdadeiramente o livro certo no momento certo, mas nada há de místico nisso. Os amantes da leitura têm sempre as antenas ligadas para tudo o que os livros lhes possam dizer. Por isso é natural que encontrem neles tantas respostas que não esperavam. As coisas não estão à nossa espera para acontecer, acontecem e esperam que demos por elas. É precisamente o que acontece ao protagonista deste livro, e aos seus mui auspiciosos encontros com a estatuária lisboeta. Enquanto ele procura naquelas figuras a resposta a uma única pergunta, vai recebendo lições de vida vindas de todos os lados. Não, não é magia, nem misticismo: acontece que Sebastião resolveu apenas abrir os braços, os olhos e os ouvidos ao que o cerca.

É verdade que tudo acontece por uma razão, mas a razão tem de partir sempre de nós, não de um universo vago e indiferente. E a vida muda inevitavelmente para quem decide mesmo mudar de vida.  
    

19/03/2015

Clic

[a leitura de Dizem que Sebastião por Sónia Alcaso]

“A cada mês que passava do previsto ano sabático, a casa de Sebastião ganhava novos contornos. Agora, havia livros espalhados pelo chão, mapas da cidade, horários de teatros, desdobráveis de exposições, anúncios de espectáculos. A ironia de ter desperdiçado grande parte da vida amealhando sem sentido dava lugar à certeza de que alguém escrevia direito por linhas tortas”.
(página 141,  “dizem que sebastião”)


Um clic num momento de vulnerabilidade e um homem, que antes não passava de um monte de ossos a viver da secura de meia dúzia de pílulas vitaminadas, ganhou uma nova engrenagem. Um desaire amoroso e um susto de saúde (podia ser qualquer outra coisa) e Sebastião rendeu-se à evidência... Rendamo-nos também nós!

Por solidariedade com a personagem, ou porque não passamos de comuns mortais, ao lermos este livro, muitas coisas acontecem e, por dentro, passamos a estar inteiramente com Sebastião. Espreitamos-lhes os gestos, acompanhamo-lo nos seus encontros com as estátuas dos escritores, bebemos-lhe os diálogos, solidários com a procura da verdade que ele não sabe onde está, mas que nós percebemos que está ali, espelhada pelas ruas de Lisboa. E, no fim de tantos percursos culturais, ficamos todos – nós e ele -, perante uma melhor compreensão de quem somos.

Quem tem a sorte de conhecer pessoalmente João Rebocho Pais, reconhê-lo-á, decerto, nestas páginas, na paixão pela literatura, no humor com que envolve as palavras e, sobretudo, na atenção que dedica à poesia que existe fora dos poemas.


09/03/2015

O mês de Sebastião

[texto de Carla M. Soares]

João Rebocho Pais, autor de O Intrínseco de Manolo - que já foi livro do mês do NAU - não se ficou por aí. 



Em 2014, enquanto ainda nos deliciavamos com a primeira ronda de livros dos autores NAU, o marujo João avançava pela publicação do seu segundo livro, Dizem que Sebastião. 





Uma viagem pela cidade de Lisboa na companhia de grandes escritores…
Sebastião Breda, vice-presidente de uma multinacional, workaholic e quarentão abastado, percebe um belo dia que a vida lhe tem passado ao lado e decide remediar a solidão convidando uma colega para um jantar romântico. O problema é que a sua bagagem não vai além de estratégias de venda e planos de marketing – e o arraso que leva de Margarida à mesa do restaurante é humilhação bastante para que o seu coração acabe a pregar-lhe um valente susto. O médico recomenda-lhe então um ano de descanso, e Sebastião resolve aproveitá-lo a cultivar-se, fazendo, numa livraria da Baixa, um amigo que lhe dá bons conselhos e sentando-se junto às estátuas dos escritores espalhadas pelas praças e jardins de Lisboa, que, eloquentes à sua maneira, o iluminam sobre os mais diversos assuntos, entre eles, evidentemente, a questão feminina. Um ano depois, não se pode dizer que Sebastião seja o mesmo homem.
Depois do muito aplaudido O Intrínseco de Manolo, João Rebocho Pais regressa à ficção com um romance – divertido, terno e cheio de ironia – sobre a dicotomia entre números e letras e a pobreza intrínseca de algumas pessoas que só aparentemente são bem-sucedidas. Dizem Que Sebastião é uma homenagem aos livros e ao que podemos aprender com eles até sobre nós próprios.


Este mês de Março não vai ser só o mês que acolhe a Primavera na NAU, vai ser o mês do Sebastião. Vamos lê-lo e conhecê-lo, que o atraso, com o mês já quase a meio, não há de dimunuir nem o prazer da leitura, nem a vontade de levá-lo mar afora.


26/11/2014

Carla, Timidez, Ousadia, Rebeldia

João Rebocho Pais, que tarda mas não falha, traça o perfil da timoneira Carla M Soares.


É professora, e talvez por isso transporte para aquilo que escreve a mesma exigência que se impõe nos objectivos dos seus alunos: nunca se dar por satisfeita. Olhamos para a Carla e damos de caras com uma pessoa que aparenta calma. E no entanto, se destaparmos essa capa de serenidade, encontramos certamente aquela Carla que não desiste de uma certa dose de ‘ rebeldia ‘, alimentando a vontade de desbravar caminhos, seja ensinando, seja lendo, seja escrevendo. E por isso abarca todos os géneros e temáticas quando lê, captando talvez os ingredientes que necessita para se manter ao comando do barco que governa. Onde cabem os seus filhos, que a inspiram como pessoa, onde cabem outras mais, muitas mais, que um dia lhe caíram ao colo numa carreira profissional que abraçou quase sem dar por isso e onde descobriu a principal razão para nunca desistir: os alunos.



Não teme um drama, mas não deixa de espreitar uma janelinha que possa trazer-lhe um
final feliz. Não se aventura a escrever poesia, e no entanto deixa-a voar livre e solta, lendo-a e tocando-lhe em lugar de escrita reservada aos mais próximos, um blogue onde acolhe com prazer quem partilhe o gosto pelas palavras.


Sendo professora, e sabendo que em casa de ferreiro espeto de pau, levou tempo demasiado a compreender de si mesma a lição que dá aos outros. ‘ Nunca te conformes, nunca desistas’. Pois se bem o pensou, melhor o fez … ofereceu-nos já dois romances publicados, o terceiro a sair do forno.


Carla .. para quando um salto mais profundo na poesia?

16/11/2014

A certeza das coisas intemporais


[A leitura de ' Alma Rebelde ' por João Rebocho Pais]


  "... Um sobressalto constante, Assim foram os seus primeiros dias. Não que tivesse acontecido alguma coisa, pois os dias correram com uma tranquilidade assustadora. E não, ninguém a tratou mal, longe disso. A inevitável agulhada da humilhação não a trespassou, afinal ninguém a fez sentir-se a intrusa que era ... "


E. BERGER-REVAL - Uma jovem lendo

Quando falei com a Carla, quando abordámos o Alma Rebelde percebi-lhe a vontade de reentrar neste seu livro, reescrevê-lo e trazer-nos a história noutros contornos. Porquê? ... perguntei-lhe.

Quando escrevemos algo, quando regressamos a esse algo que passámos ao papel, encontraremos sempre e inevitavelmente uma luz nova, uma cor, um desenlace ou descrição que melhor retratariam a coisa. Pois Carla, li o Alma Rebelde de enfiada, redescobrindo o prazer juvenil que a leitura desde sempre me trouxe. Fui querendo adivinhar o que viria e fui esbarrando nas minhas certezas, deixei-me levar por uma escrita que de um modo limpo e transparente me levou a um passado que hoje me parece ficção. A todos nós certamente. 

Joana, Brites, Ester... poderia escolher outras mais, trazem-nos a certeza das coisas intemporais, por muita distância que imaginemos delas e de tempos simultaneamente longínquos e actuais. A beleza de uma história reflecte-se no tempo que proporcionamos ao leitor de se agarrar a algo e dele fazer sua vivência e interpretação. Quando essa história nos leva a viajar no tempo, nos traz locais e costumes que pensamos terminados, quando lemos e nos vemos parte da história, espreitando, escutando, desejando, desdenhando e recriminando coisas de personagens, então é porque o autor ou autora nos souberam levar até lá. E a tua 'Alma' levou-nos a todos, adultos e adolescentes, a experimentar a sensação de querermos arranjar espaço dentro de nós para um mundo de gente e personagens que tão bem desenham uma época, um manancial de costumes.

E, no dia em que deixarmos acabar esta perspectiva de escrita e leitura, de nos deixarmos ir de braço dado na aventura, teremos certamente abdicado de uma das fascinantes oportunidades que nos traz a leitura.

29/07/2014

Enrolado aos trambolhões

[João Rebocho Pais e a leitura de «Todos os dias São Meus»]

«No colégio havia uma empregada alentejana. Passava a vida a falar na terra dela. Vila Nova da Baronia. Eu, que não fui nunca de lugar nenhum, invejava aquele pertencer tanto a algum sítio. O nome da vila punha-me logo a ver muralhas numa planície amarela.
Santa Águeda curada por S. Pedro na prisão,
de Giovanni Martinelli
Um dia, depois das férias da Páscoa, ela voltou com fotografias da terra. Muralhas, nem vê-las. Mas não era preciso. Ser daquelas pedras frente à igreja branca; ser daquele largo com laranjeiras, ser daquela estação de caminho-de-ferro tão limpa e florida; e ser daqueles campos, não amarelos, mas verdes, verdes porque 'é a altura das festas de Sant’Águeda, que é quando o campo está mais bonito'; se eu fosse de algum sítio, decidi logo ali aos treze anos, queria ser de Vila Nova da Baronia.
Não perdia uma oportunidade de ouvi-la de contar as trezentas mil histórias da vila. Fiquei a conhecer-lhe todos os vizinhos, a loja onde se aviava, o posto dos correios, os Bailes da Pinha na Sociedade, as festas na Casa do Povo, os funerais, a procissão onde chegara a ser a Verónica, o casamento da irmã com o homem que ela sempre quisera para si, o desfile do Entrudo, coisa séria e de gente grande, para o qual raparigas e rapazes se preparavam primorosamente – lá vai a Isabel de índia, lá vai a Dete de joaninha, depois de horas a fazer bolinhas com um furador em papel de lustro preto e a colá-las nas asas de papel encarnado, o Zagaia de mulher, o António Zé sem dentes e de cajado a fazer de velho.»
Todos os Dias São Meus (pág. 40/41)

Escolhi este pequeno trecho do livro sem nenhuma razão em especial.
E porquê? Porque qualquer bocado do livro que trouxesse para falar seria bom. Esta é a primeira conclusão a que cheguei ao terminar o livro da Ana. Todas as palavras, frases, períodos ou parágrafos estão vestidos a rigor e sem mácula nem sobras. Nada a mais, nada em falta. O enredo faz jus à estrutura que ela utiliza, uma coisa promiscua, em que nos agarra, aos leitores, nos envolve com a gente que ela criou do nada, no alvoroço de uma imaginação tão fértil quanto real, em que nos deixa com a sensação de que não nos iremos sem antes lhes perceber o destino, os tiques, as ‘coisices’ que tanto e tão bem reconhecemos.

Poderia, mas não vou fazê-lo, enquadrá-la no registo de escrita de outro autor que me fascina. Seria no entanto injusto. Ele é ele, a Ana é a Ana. Ou seja, nem o Mário Zambujal é para aqui chamado, nem a Ana é daqui levada. Mas lá que ambos têm aquele condão de nos enrolar aos trambolhões por entre ruas e escadas que subimos e descemos sem sequer desejar respirar, lá isso é verdade. Mas pronto, não vou compará-los.

Por um acaso que me levou a passar uma tarde entre leitores que gostam de conhecer autores, fui arrasado com uma representação da Ana, em que lia alto um pequeno trecho do seu livro. Num qualquer outro lugar com paixão pela escrita, a Ana veria este seu romance levado ao palco. Um monólogo que se tornaria imparável. Consigo facilmente imaginar-lhe um público fascinado. E, porque esse lugar de paixão pela escrita não será certamente este em que vivemos, fico-me pela imaginação e confissão pública.

«Todos os Dias São Meus» deve ser lido, absorvido, repetido.
Sorte a minha que já o fiz, e por isso, apenas por isso, vos aconselho a experimentar.
Procurei o livro nas livrarias, para comprar e oferecer, mas ‘não havia, estava esgotado’. Não esmoreci, falei com a Ana Saragoça e ela tratou de mo pôr ao colo.
Façam-no também.
Não por mim. Não pela Ana. Mas porque é bom.
Muito bom!

30/06/2014

a viagem do timoneiro João Rebocho Pais

Houve de tudo nas leituras dos marujos do Colectivo Nau do livro do mês, «O Intrínseco de Manolo». A Raquel Serejo Martins pediu à Consuelo que a consolasse, a Cristina Drios confessou que gostaria muito de ser uma lágrima Marília, a Ana Saragoça encontrou o "alentejanismo mágico" do livro, a Carla M. Soares andou à volta do que podia Manolo (e podia muito...), o Paulo M. Morais perdeu as estribeiras e mandou o João fornicar-se...

E lá foi o João Rebocho Pais submeter-se a 20 confissões proustianas, escutar o poema da Raquel Serejo Martins intitulado Intrínseco João, e sujeitar-se a que a Sónia Alcaso lhe traçasse o perfil de "homem inteiro, cheio de jogos (e) de palavras".

Um mês cheio, em volta de um só livro. Um não, que enquanto falávamos do primeiro filho literário do João, ele estava a lançar o seu segundo, «Dizem que Sebastião». É de ir lá ver o que nos dizem, então, enquanto agradecemos ao nosso timoneiro a viagem intrínseca por Manolo e companhia.

24/06/2014

Consola-me Consuelo

[Raquel Serejo Martins e a leitura de «O Intrínseco de Manolo»]

O vinho, como a cerveja e tudo o mais por ali, era de boa qualidade, ainda que servido sem grandes alardes de higiene. A clientela era menos de olhar a mariquices dessas e mais de se servir do vasto cardápio de luxúria e javardice; não era, pois, sítio de se ter sol na eira e chuva no nabal, ou há finezas ou imoralidades, e havia muito que Consuelo optara por comércio destas, e a verdade é que em terra assim não se safaria tão bem noutras artes ou negócios.
O Intrínseco de Manolo (Pág. 59)

O que eu gostei neste livro: o intrínseco.
O intrínseco de Manolo, o intrínseco das restantes personagens, o intrínseco de Lugar de Cousa Vã, o intrínseco de Ciudad del Sol.
E este parágrafo serve-me de exemplo perfeito para ilustrar (puxar o lustro!) ao que estou a tentar explicar, sem muito desvendar, serve para constatar a impossibilidade de ter sol na eira e chuva no nabal ou, com mais um passo, ou há finezas ou há imoralidades.
E na procura do intrínseco o autor devasta as personagens até ao osso, para mostrar, desvendar, caso a caso, os defeitos de que são feitas.
Assim, a cada personagem o que lhe é intrínseco, a realidade para lá das aparências, a balança em desequilíbrio entre o bom e o mau, as minudências, o quotidiano, as certezas, as dúvidas, o prazer, o tédio.

Por fim, e sobretudo, o que gostei neste livro, o que me consolou como leitora: o esmero da linguagem.
Fernando Pessoa escreveu: A minha pátria é a língua portuguesa, e pela língua, desde o princípio da leitura, este autor faz-nos, se não alentejanos de nascença, pelo menos residentes desde sempre.

"Retrato de Fernando Pessoa",
de Almada Negreiros

19/06/2014

ser apenas lágrima

[Cristina Drios e a leitura de «O Intrínseco de Manolo»]

“Marília adormece só, como só se recordava gente desde sempre, passam as horas e ninguém lhe nota a falta, e ela a de ninguém também. Escorre-lhe água pela face, são centenas, milhares de gotas as que naquela noite lhe lavam cara e alma, e é quando Marília sente a estranheza do calor de uma lágrima e, perplexa, recorda todos os momentos em que, pulando-lhe o coração, se sentiu alguém e feliz, que entende que nunca ninguém a entenderá. E é nessa lágrima final que se deixa morrer de vez no mundo dos lúcidos e parte na lucidez do mundo dos loucos.” 
O Intrínseco de Manolo (pág. 81)


Marília pouco se dá a nós, leitores, e, no entanto, seria, para mim, personagem de solidão e vazio, como se, feita de ar, flutuasse acima da realidade, da imundice e da pulhice que grassam em Cousa Vã, e nem sequer conseguisse ser beliscada por elas, merecedora de um livro inteiro. “Só, como só se recordava gente desde sempre”: como todas as grandes personagens carrega com dignidade o fardo da condição humana enquanto, ao mesmo tempo, é a antítese de tudo o que há de porco, feio e mau, de terreno, físico e suado, noutras personagens do romance. A lágrima quente que lhe desce pelo rosto já foi chorada por santos, por loucos e por nós, leitores. Todos somos, desse modo, um pouco Marília. Eu muito gostaria de ser apenas lágrima. 

"Summer Interior", de Edward Hopper
“E é aqui que nós paramos e ficamos também, com Marília e o seu mundo cheio de horas completas e momentos vazios, descobrindo, abismados, a magnitude da mediocridade das gentes de fácil julgamento.”

17/06/2014

o alentejanismo mágico

[Ana Saragoça e a leitura de «O Intrínseco de Manolo»]

“E de repente surgiu a azinheira, logo uma azinheira cuja silhueta nunca houvera afinal visto com olhos de gente, e nela estava uma carta pregada, e nela estava a algazarra da fúria e da mansidão, da cobardia dos ignorantes, e na sua sombra queria Manolo descansar, mas agitado era seu sono e sentiu apenas uma lágrima a acordá-lo; sentiu-se perdido e vivo como nunca antes experimentara e ouvia agora, vagamente mas ouvia, chamar seu nome ao longe, muito longe, e perdido estranhava o lugar, tão perdido quanto sonho quis que tudo fosse, até que olhou para a porta e ouviu:
- Porque choras, homem?”
O Intrínseco de Manolo (pág. 36)


Alentejana dos quatro costados, logo me saltou à vista que o Alentejo de Manolo não era o Alentejo que conhecemos nós, os de lá, nem os que aprenderam a conhecê-lo através da muita literatura neo-realista. Neste retalhinho à beira-mar plantado, o Alentejo é o sonho dos citadinos, com as suas planícies imensas e o silêncio tão difícil de encontrar alhures. 

Mas quer parecer-me que o João Rebocho Pais nunca pretendeu retratar um Alentejo real, nem gentes reais. Precisava de um cenário onde expandir uma galeria de excêntricas personagens, primando quase todas, de um modo ou de outro, por possuírem uma sexualidade descabelada, fosse pela bizarria ou pela dimensão dos apetites ou por ambas, que isto de comer e coçar tudo vai de começar. E tenho para mim que Cousa Vã foi parar ao Alentejo, porque só lá se podia encontrar a âncora que impede toda aquela nave de loucos de disparar galáxia fora em cavalgadas desbragadas, hilariantes e não raro comoventes a ponto de ainda poderem perturbar o sossego das estrelas. Essa âncora era a azinheira de Manolo. O seu a bem dizer intrínseco.  

E foi graças a essa azinheira e a toda a trapalhada de gente e de acontecimentos a reboque dela que nasceu o alentejanismo mágico™ de João Rebocho Pais. A planície merece e esta leitora agradece.  

15/06/2014

20 confissões proustianas de João Rebocho Pais

A minha ideia de perfeita felicidade:
Ver os meus Filhos felizes e o Benfica campeão.

A característica que mais me desagrada nos outros:
Demagogia

A pessoa viva que mais admiro:
Elvira

A minha qualidade preferida num homem:
A capacidade de viver uma Amizade

A minha qualidade preferida numa mulher:
A capacidade de entender o Homem

As palavras ou frases que uso em demasia:
' A verdade é que ... '
' Foda-se '...

Quem ou o quê é o grande amor da minha vida:
Miguel e Francisco

a Lisboa do Benfica
imagem: Paulo M. Morais
Quando e onde fui mais feliz:
16 de Novembro de 1994 e 9 de Junho de 2003... em Lisboa

O talento que mais gostaria de ter:
Saber tocar música

O que considero o meu maior feito:
Ter sabido rodear-me de poucos mas Bons Amigos

Onde gostaria mais de viver:
Em Estocolmo, se houvesse por lá Benfica

O meu bem mais precioso:
Os meus Filhos

O que é para mim atingir o fundo:
Necessitar de pisar os outros para saber viver

A minha ocupação preferida:
Ler

A minha característica mais vincada:
Teimoso

O que valorizo mais nos meus amigos:
A disponibilidade nos dias em que ' é preciso estar lá '

Os meus escritores preferidos:
José Saramago, Sandor Marai.

Os meus nomes preferidos:
Miguel; Francisco; Inês

O que mais me desagrada:
Gente mentirosa

O meu lema:
Nunca desistas.

Grafitti sobre José Saramago
imagem: Wikimedia Commons /r2hox

12/06/2014

Pudesse Manolo. E pode.

[Carla M. Soares e a leitura de «O Intrínseco de Manolo»]

Pudesse Manolo, e em Cousa Vã só veria mesa e cama e o corpo maduro da sua Maria, depois que lhe calhou ter dinheiro no bolso e nenhuma preocupação senão (re)descobrir os recessos e suores e prazeres do leito conjugal. Pudesse Tonho, e não haveria chouriço nacional que lhe chegasse para os recém descobertos apetites, enquanto Tina, pudesse ela, de feira em feira testaria com igual prazer cuequinhas e feirantes. Arnaldo, pudesse, fingir-se-ia homem de negócios nos negócios fingidos que conhece, desconhecidos de Marília, perdida em si e nos pássaros que a entendem. Alberto, que em terra de cego tem olho e se fez rei, ou quase, pudesse escaparia da porcaria que, porque pode, Idalina deixa tomá-la de prazer – no corpo e na casa, cama e cozinha em orgásmica imundice. Pudessem eles.

Pois podem, em Cousa Vã, com essa letra e com outra. E muito. Algures no intrínseco de Manolo, Manolo a personagem, há tesão pelo corpo de Maria e pela vida. É de amor a história, sem pejo de reconhecê-lo, traduzida em cavalgadas inesperadas no corpo um do outro e em descobertas que idade e hábito já não faziam suspeitar.

"Não lembrava a última vez que, olhos nos olhos e com verdade e perdição, na intimidade escondida das pessoas que nada devem ou temem, escorregara suor pelo mistério de tremuras que lhe dava aquela mulher. Com cheiros, risos e carnes que em mais nenhum poderia haver, cego de paixão e entrega que escondera ao mundo por temor da retaliação à sua condição de macho maduro. Bigodes, vinho e porrada muitos, merdas amaricadas daquelas é que não, pensava. Ou achava que pensava. Ou pensava-se, ou calhando nem tal. O duche, à laia e imagem da azinheira, sulcava caminho, deixava pistas e desenhava momentos." (p.23)

Outros tesões livro fora são de resolver em camas e fora delas, assunto de carnes e cheiros, de texturas e prazeres, coisas da terra que a quem lê arrancam gargalhadas e fazem franzir o sobrolho, na elegância pícara ou na brejeirice com que por vezes nos apanham de surpresa. Cuidado, vós homens, e não tiverdes cuidado, ainda vos vedes tomados num canto qualquer de uma página por Tina, que “atrás de Zé Colmeia vieram umas dezenas mais de parceiros em trotes selvagens, outros Zés, Manéis, Antónios, Alfredos e por aí fora; é mesmo possível que em tanto nome não haja letra do alfabeto que tivesse escapado à sanha persecutória daquele buraco fulminante.” (pág. 69)  

É das coisas pequenas de aldeia, dos diz-que-disse, dos arremedos de vizinhança, das culpas e dos perdões implícitos de quem pertence, apenas porque é Cousavanense. E é de magia, também, a magia pequena e infinda da terra, de azinheiras que são mulheres na voz e se desdobram no consolo nos momentos negros da alma. “Os primeiros dias, as primeiras semanas, haviam sido um retiro de dar dó. Por mais que se esforçasse a velha árvore, por mais que convocasse os deuses e todos os servos da terra, nada mais conseguira do que esbarrar no silêncio de um homem perdido. Cobria-o com a sua sombra, afagava-o em noites frias. Cantava-lhe coisas junto com o vento, dançava para ele com seus ramos e folhas. E nada. Nada de Manolo.” (pág.162)

Eros e Psique, de Jacques-Louis David
imagem: Wikipedia

10/06/2014

Intrínseco João

[poema de Raquel Serejo Martins, inspirado em «O Intrínseco de Manolo»]

João Rebocho Pais
é dos Olivais,
e parece-me que estou a vê-lo
de fisga na infância atrás de pardais.
Atrás de pardais, atrás de uma bola,
o golo na baliza,
no recreio da escola.

E ser dos Olivais é ser do mundo,
o prédio, a rua, o bairro, a lua ao fundo,
talvez por isso seja o Manolo do seu livro
tão meditabundo,
quando à sombra da sua azinheira,
raízes em lugar de Cousa Vã,
folhas ou pensamentos inquietos
e confidências de pássaros no vai e vem das estações.

Do João os dias também de pássaro,
asas de metal, bico afiado em voo contrapicado,
um comissário de bordo, um ser alado.
Leva saudades do chão e um recado,
não sei se gosta de fado!
Sei que prende as lágrimas aos olhos,
não é piegas e não prende,
quando ouve Cat Stevens,
e eu vou arriscar, sem cantar:
I was a child
Who ran full of laughter
My eyes full of sunshine
My heart full of smiles

Sem dúvidas, sei que gosta de futebol,
se Saramago de chuteiras, um Maradona,
digo, por dizer que são dois monstros de bons.
E no coração o seu Benfica,
dois livros,
dois filhos,
duas mulheres,
da Suécia com amor.

Mas do João, sobretudo o sorriso.
Sólido, redondo, brilhante!
Medalha merecida ao peito,
lugar no pódio,
por me lembrar um menino
que aposto era o capitão da rua.


08/06/2014

perfil de João Rebocho Pais

[texto de Sónia Alcaso; imagens 'gloriosas' cedidas pelo João Rebocho Pais]

João Rebocho Pais é um homem inteiro, cheio de jogos (e) de palavras. Desses, com força para sondar as palavras, as dominar e chutar, certeiramente. Sim, falo da escrita e também desse desporto que move paixões, porque a literatura também pode ser comparada com a seriedade imensa de um jogo de futebol. Um jogo onde cada vitória e derrota do Benfica é vivida de uma maneira intrínseca por João, mas também por cada um dos benfiquistas. Não apenas aquilo que se passa dentro das quatro linhas; mas também a partilha. Parte de um povo em uníssono, a deixar-se unir pelo mesmo sentimento, a mesma crença, a mesma cor, as mesmas alegrias, as mesmas tristezas. Como na literatura. Dois olhos a mais ou a menos fazem toda a diferença. Escreve-se para os outros. Quem sabe, um dia, com os outros?


Duas paixões na vida de João - os livros e o Benfica -, somadas a outras tantas, com as maiores nos filhos, Francisco e Miguel, e as restantes nos prazeres à volta, como a simples contemplação de uma árvore ou uma estátua. É assim, João Rebocho Pais: feito de sorrisos desarmantes e olhos divertidos de quem acabou de pregar uma partida ao mundo. Ou foi o mundo que te pregou uma partida a ti?

O escritor surgiu por acaso; o comissário de bordo também. Mas tanto pega nas malas (mesmo que se tornem pesadas), como nas canetas, que, nos dias que correm, também já não são penas.

Hoje é um escritor com dois livros publicados. O primeiro, "O intrínseco de Manolo", surgiu inesperadamente, por um decisivo e milagroso acaso. O segundo, "Dizem que Sebastião", foi natural, o esperado de uma voz original, cheia de humor, que disfarça a crueza da vida e que se quer ouvir. O caminho é bonito e apetece.

João é um escritor obstinado, leal às amizades e, sobretudo, a si próprio. Um escritor que não cruza os braços, antes pelo contrário, transforma-os rapidamente em asas e leva os seus livros às nuvens. Essas, que estão mesmo a seguir às janelas dos aviões.

Escreve histórias de amor, mas também de solidão, de personagens que redescobrem a essência da vida. Mesmo que seja no seu ocaso. O importante é deixar a alma, serena, voar feliz como os pássaros que se interrogam sobre os humanos. Como é que se consegue essa leveza, João? Relativizando o que pouco ou nada interessa. Ter a consciência de que viver é uma graça da natureza. Parece fácil, mas não é. Lendo João Rebocho Pais, talvez o consigamos aprender. Pelo menos o suficiente para que neles, nos seus livros, fiquemos. Ou para que eles fiquem dentro de nós.



"Cousa Vã guardara lugar em sua vida, habitava um espaço importante como o são todos os que nos ocupam a mente, que nos trazem tesouros que sabemos guardar, isso confessava Manolo à árvore, com ela dividindo a vez de regressar a esse tempo, trazendo histórias de tantos dias passados, partilhados, onde haviam aprendido a cumplicidade que os unia. Manolo envelhecia, e isso a árvore ia percebendo, aumentando-lhe a sombra, para que assim com ela descansasse sossegado. E, ainda que vivendo mil anos, era árvore velha também." 
O Intrínseco de Manolo (pág.170) 

05/06/2014

olha, João, e se te fosses...

[Paulo M. Morais e a leitura de «O Intrínseco de Manolo»]

«E reviveram montes e vales, grutas e fados cantados, incendiou-se Lisboa por ali, e veio outro terramoto, este sem mortos nem marqueses, se bem que a gritaria calada por pudor nos fizesse adivinhar, a todos nós que não estivemos lá, que Manolo e Maria estavam de novo possuídos, nus, encharcados e gozando-se em sua estuporada simplicidade.»
O Intrínseco de Manolo (pag. 57)


Coro ao ler o livro do João Rebocho Pais. Não propriamente por pudor, mas pela raiva do bem que ele descreve uma das coisas mais difíceis da literatura: dois amantes a acasalarem. Viram a diferença entre nós os dois? Acasalarem é linguagem de aula de ciências, onde se mostra como os coelhos fazem coelhinhos. É preciso um “toque” especial para descrever o acto do amor (mais outra definição para ir direitinha para o lixo...), para acertar em palavras os cheiros, dimensões, particularidades dos corpos nus. É preciso um dom para descrever o que eles fazem na cama (zás! mais um lugar-comum para mim).

Coro ao ler o livro do João Rebocho Pais. Porque os preliminares estão obscenamente bem escritos, enleando-nos num jogo de palavras maviosas que depois desembocam numa torrente orgástica (combinado, deixo de fazer trocadilhos de índole sexual) que nos surpreende e abana. O João testa e estilhaça os limites de como se fala de sexo num romance sem o tornar boçal e abandalhado. E irrita a classe com que o faz, através de frases aperaltadas de casaco e gravata, mas sem calças. E sem cuecas. No uso do palavrão, o João Rebocho Pais parece-se assim à Tina: «Fodilhona, claro, mas avisada e poupadinha.» (pág. 128)

Temos aqui escritor capaz de proezas à altura de A Casa dos Budas Ditosos. E aí, coitado, o João é bem capaz de poder deixar de sair à rua. É que se não forem as fãs a dar cabo dele, serei eu, corado da cabeça aos pés. Porque a mim nem forçado me sai a maneira como gostava de acabar este texto. Vou ter de pedir ajuda ao Manolo. E é sob a sombra e protecção do teu personagem que digo isto:

Olha, João, e se te fosses foder por escreveres tão bem uma foda?

03/06/2014

livro do mês: O Intrínseco de Manolo

João Rebocho Pais assume o posto de timoneiro do Colectivo NAU no mês de Junho. O livro em destaque será «O Intrínseco de Manolo», já em segunda edição. É verdade que o João já tem um livro novo nas livrarias. Mas seria uma pena perder-se a oportunidade de acompanhar a viagem de um novo autor desde o início. Assim, quem ler e gostar deste Manolo poderá seguir rapidamente para o acabado de sair «Dizem que Sebastião». Começamos com a sinopse, mas aguarde-se um perfil, as citações e comentários dos restantes marujos, as confissões proustianas, e o que mais surja espontaneamente. Boas navegações!


O Intrínseco de Manolo
romance (2012, Teorema)
João Rebocho Pais

sinopse
Na aldeia alentejana de Cousa Vã - vizinha da espanhola Ciudad del Sol - o nome de Manolo anda nas bocas escancaradas dos que passam as tardes na tasca a aviar minis, quiçá para que ninguém repare no que realmente se passa em suas casas - e talvez seja melhor assim. É, porém, facto indesmentível que Maria tem o hábito de desaparecer às sextas-feiras - e isso basta para que a mediocridade omnipresente faça do marido um adornado e da chacota um estranho alívio para a dureza dos dias. Manolo refugia-se do falatório acusador à sombra de uma azinheira secular, único ser vivo com quem pode dividir agora as suas mágoas; e, embora certo da virtude da sua Maria, não ignora a missiva que o carteiro lhe deixou em casa nessa manhã e que trazia - pois é - remetente espanhol… No jogo repetido que é o dia-a-dia dos lugares pequenos - onde ninguém ganha e quase todos perdem -, a descoberta da improvável verdade trará, mesmo assim, a Manolo a oportunidade de mostrar aos conterrâneos, de forma anónima, o seu intrínseco, seguindo os ensinamentos dos que, sendo velhos ou já desaparecidos, são parte importante da sua história - e da de Cousa Vã. Com um trabalho notável na composição das figuras e uma recuperação inteligente da linguagem popular de um Alentejo quase mítico, João Rebocho Pais estreia-se na ficção com um romance terno, mágico e, ocasionalmente, escatológico sobre o poder da excepção sobre a regra.

20/05/2014

naturezas-mortas e rosnadelas de cão

[citação de «Os Olhos de Tirésias» escolhida por João Rebocho Pais]

"O velho conduziu-me, arrastando os passos pelo linóleo gasto, a uma sala ao fundo do corredor. Também pelas paredes subia, do chão ao tecto, o mesmo cansaço que parecia entorpecer toda a cidade, e uma inércia modorrenta esvaía-se das estampas, com naturezas-mortas, desbotadas. Sentei-me enquanto me pedia que lhe lesse a carta, o cão, Quieto Adamastor, a rosnar-me aos pés." (pág. 50)

Natureza morta, de Paul Cézanne