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07/01/2015

Livro do mês - Esta Noite Não Aconteceu,

Aconteceu ou não aconteceu?

Aconteceu, e bem! A prová-lo está o misterioso livro deste mês, da timoneira Sónia Alcaso

Que poderá acontecer a quem anseia desesperadamente ser rico e famoso e se dispõe a vender a alma para o conseguir? Ao início de uma noite de temporal, Rosário Toledo, uma famosa autora de romances, encontra-se num bar de hotel com um jornalista perverso e calculista, disposto a acertar contas com o seu passado. Na outra ponta da cidade, um assassino chamado Vicente Pedras poupa inesperadamente a vida a um polícia atormentado, criando-se entre ambos uma estranha empatia que os levará a eleger essa noite como a de todas as vinganças - vinganças que incluem, entre outras, o castigo exemplar de uma mulher que abandonou o mercenário há muitos anos. esta noite não aconteceu é uma viagem ao interior sombrio de quatro personagens ao longo de doze horas, durante as quais assistiremos a uma espiral alucinante de encontros e desencontros, recordações e mentiras, abusos, recriminações, violência e sexo desenfreado; mas, à medida que a noite dá lugar à manhã, as máscaras cairão, uma por uma, mostrando que, afinal, nada é o que parece. Um romance empolgante e carregado de acção que nos surpreende da primeira à última página.

25/12/2014

20 confissões proustianas de Raquel Serejo Martins


Foto: Ricardo Figueiredo de Carvalho

A minha ideia de perfeita felicidade:
Prefiro a felicidade imperfeita, defeituosa, quotidiana, que ao fim de cada dia, sem más notícias, não me falte uma chávena de chá e a companhia dos meus gatos no sofá.

O meu maior medo:
A dor física, a certeza da morte, dos outros e da minha (pronome possessivo) morte.
Um medo concreto, ao ponto de… ridícula, pensar… por vezes pensar que vou morrer de medo de morrer.
- Morreu de quê?
- De medo de morrer.
Parece Beckett, não é.

A característica que mais me desagrada em mim:
Tem dias em que parece que gosto de não gostar de mim. Sou, em regra, demasiado exigente tanto comigo como com os outros e, em relação aos outros, não sei se tenho esse direito.

A característica que mais me desagrada nos outros:
A hipocrisia… isto em pequena escala quotidiana e comezinha, perceptível, risível, enfim…
E a sério, a maldade humana, em regra gratuita, não legítima, não defesa. Tantos os acontecimentos que não consigo compreender. Que me deixam sem respirar. Que me afogam sem lágrimas.
Por exemplo, a violência de género.
Por exemplo, o que se passou dia 16 deste Dezembro, em Peshawar, no Paquistão, um grupo de talibãs [o ataque foi reivindicado pelo Movimento dos Talibãs do Paquistão (TTP)], invadiu uma Escola Pública do Exército, 1.100 alunos nas salas de aula, primeiro a explosão, homens-bomba, depois as balas, homens armados, massacrando 141 pessoas, a maioria crianças e adolescentes. Um alvo cirúrgico e simbólico, porque uma escola.
Por exemplo, o Festival Gadhimai, em agradecimento à deusa Hindu que lhe dá o nome, celebrado a cada cinco anos, é o maior sacrifício religioso de animais no mundo. Aconteceu a 28 e 29 de Novembro, em Bariyarpur, no sul do Nepal, fronteira com a Índia, e foram sacrificados milhares de animais. Um artigo do El Mundo chamou-lhe matança brutal. Em 2009, segundo o The Guardian, o festival concentrou mais de um milhão de fiéis e foram mortos 250 mil animais, búfalos, cabras, cordeiros, bezerros, porcos, pombas, animais chacinados com uma violência inenarrável.
Por exemplo, fogo posto, fogo de incêndio.
Por exemplo… não vou dar mais exemplos.

A virtude que me parece mais sobrevalorizada:
A sinceridade.

As ocasiões em que minto:
Quando me remeto ao silêncio. Quando não digo o que penso. Quando não sou sincera.

A minha qualidade preferida num homem:
Sentido de humor. Cada vez mais me parece que esta é a qualidade consequência ou corolário de outras que gosto. Não conheço ninguém com a nobre qualidade de me fazer rir que não seja inteligente, curioso, generoso, bonito. Sendo, de forma homóloga, a qualidade que mais me agrada numa mulher. Porque tudo pode ser feito sobre o barulho do riso.

Quando e onde fui mais feliz:
Eu tinha dezasseis anos e era feliz. Às vezes parece-me que sempre que sou feliz, voo, plano, volto, tenho dezasseis anos e o mesmo grau de espanto e pureza no olhar.

O talento que mais gostaria de ter:
Invejo tantos talentos, mas provavelmente, de certeza, pintar.
Pintar parece-me ter tudo em si, palavras, notas, edifícios, céus, saltos, ventos, barcos.
Também gostava de conseguir musicar alguns poemas, porém tenho ouvidos inúteis para fins melódicos, perfeitos para portas!

Quem ou o quê é o grande amor da minha vida:
Apaixono-me com razoável frequência. Faço um esforço. Como um gato vou à caça. E tem dias que o dia é do caçador e fico, barriga cheia de borboletas e pezinhos com vontade de dançar.

Onde gostaria mais de viver:
Na infância, esse lugar sem chão, na Lisboa de Pessoa, são tantas as vezes em que me parece que não sou deste tempo, excessivamente tecnológico, porém como tal não é possível, qualsiasi piccolo paese nel sud d'Italia sarebbe perfetto, eu um Tabucchi ao contrário.
E se mesmo assim tal não for possível, talvez uma aldeia algarvia ou andaluza.
Enfim, planos futuros de formiga, porque neste momento, não me apetece trocar Lisboa por nada.

O meu bem mais precioso:
Os meus amigos, tenho muitos e bons, uma gaveta cheia. Costumo dizer “deus me conserve o faro para as pessoas”. E como tenho uma família mínima são a minha “famiglia”.

A minha ocupação preferida:
Ponho-me a pensar numa tarde bem passada e o que vem é uma praia, um livro na mão, caminhada e mergulho com amigos, uma sesta numa almofadinha de areia.

A minha característica mais vincada:
Sou difusa, assim que uma troika de características, frontalidade, persistência e preguiça.
Frontalidade, sendo que já fui mais... é uma característica muito apreciada em abstracto, porém, no concreto, faz mazelas.
Quanto à persistência e à preguiça, apesar de contraditórias, parece-me que se compensam sem se anularem, como se a preguiça servisse de balão de oxigénio para renovar a vontade e no entretanto saborear a vida.

O que mais valorizo nos meus amigos:
Exactamente isso, o serem meus amigos, terem a inexplicável qualidade de gostarem de mim, de resto a amizade é um mistério.

Os meus escritores preferidos:
Nas minhas leituras concluo inevitavelmente que há uma óbvia geografia mediterrânica e sul-americana.
Quanto a escritores preferidos, vou destacar apenas as últimas descobertas sem “meter” estrangeiros, o meu trabalho de garimpo à descoberta do ouro, assim, escritores que li no último ano, e que me encantaram Ana Margarida de Carvalho, Alexandra Lucas Coelho, Valério Romão.

O meu herói na ficção:
D. Quixote, talvez porque no fim, quando regressa a casa, percebe que não é um herói, por perceber de forma mais ampla, que não há heróis.

Rob Davis (BD)

Os meus heróis na vida real:
Sou das que acredita que uma só pessoa pode fazer um mundo de diferença.
Pessoas como Chico Mendes. Quem se lembra de Chico Mendes?

A minha maior pena:
Sofro de uns quantos arrependimentos. Não quanto a coisas que fiz, mesmo quando saiu asneira, mas relativamente a coisas que não fiz, e que assim ficaram fora de tempo, ou perdi a vontade, envelhecer deve ser isto.

O meu lema:
Sobretudo, as pessoas.

14/12/2014

O olhar de Raquel

[Sónia Alcaso traça o perfil de Raquel Serejo Martins]


Os olhos chegam-nos antes de tudo o resto. Raquel Serejo Martins tem uns olhos imensos, enigmáticos, que nos remetem para a ideia de pintura. Fixam-nos com gravidade e retenção semelhantes. Fazem jus à ligação que Raquel tem com a arte (as diversas artes fundidas) e que transporta para a vida num constante desafio à morte, como a história que se pode conhecer em “Pretérito Perfeito”, cheia de palavras vindas de dentro, que nos lançam num constante desassossego, num outro tempo talvez, mais lento, mais próximo do silêncio, da sombra, da solidão, da beleza e da impossibilidade da beleza. Mas não é para aí que vamos agora...

Vamos para Trás-os-Montes, onde Raquel nasceu e de onde herdou a garra das montanhas pardas que se viam da janela do seu quarto. É delas que, por vezes, sente falta em Lisboa e, sobretudo, da lareira, das frutas, do chão, do calor do Verão e do seu cheiro singular. Mas também falta nenhuma, porque, para onde quer que vá, basta fechar os olhos para Raquel reencontrar tudo isso dentro de si. Assim como muitas outras terras, porque são as paisagens que fazem os homens e Raquel alimenta-se delas; viagens pequenas ou grandes, a Costa da Caparica ou Pequim, sempre com amigos que a acompanham nestas itinerâncias.

Raquel tem a peculiaridade de estar na vida com uma atenção e curiosidade quase infinitas. Não nos surpreende, portanto, que se mude de universo e se fique a saber que mesmo sendo feita de palavras, que tantas vezes a consomem, lidas e escritas (autora dos livros "A Solidão dos Inconstantes" e "Pretérito Perfeito", Editorial Estampa), também lide com números e leis (economista, pós-graduada em Direito Penal Económico e Direito Administrativo; Inspectora Tributária a trabalhar na área criminal).

Importante mesmo (para ela e para nós que a lemos) é poder continuar a roubar tempo aos dias para escrever, mesmo que seja com uma disciplina completamente indisciplinada, a alinhavar frases sem obedecer a regras, durante três horas, duas horas, meia hora e, como ela mesma diz, com mãos de oleiro cego. No final, a obra faz-se e compensa; é ela que fica quando tudo o resto desaparece - as histórias, os livros, a desafiarem o tempo e os vendavais. 

05/12/2014

Livro do mês - Pretérito Perfeito

Como falar da morte sem o peso terrível da morte? Assim, como fala Raquel Serejo Martins.

Este mês de tantas coisas especiais - o Natal, a viragem do ano - tem como timoneira Raquel Serejo Martins, com o seu livro especialíssimo sobre a morte, que é afinal sobretudo um livro sobre a vida: Pretérito Perfeito.  


(romance, Editorial Estampa, 2013)

Sinopse:

Pudesse toda uma vida caber num livro? Nestas páginas, assombradas pela inevitabilidade da morte, as memórias são o pretérito perfeito do verbo viver. Eu vivi, diz-nos a personagem principal desta autora, hábil na construção da narrativa, na forma como nos leva pela mão até ao fim, a um fim anunciado que reforça apenas essa capacidade ímpar de agarrar o leitor. É o que Raquel Serejo Martins faz neste livro que deve ser lido, como todos os livros que sabem a gente, a vísceras, a medos e alegrias, a histórias contadas e passadas. Um livro com alma, portanto.
Patrícia Reis

07/10/2014

Viajou o timoneiro Paulo M.Morais


Depois de um mês no estaleiro retomamos lentamente e a meio gás, no meio de muita agitação profissional e familiar em quase todos os portos, a viagem do Colectivo NAU com «Revolução Paraíso». 

perfil do autor Paulo M. Morais, o timoneiro de Setembro, escreveu-o Cristina Drios. Dedicamo-nos depois a cruzadas revolucionárias, e Raquel Serejo Martins colocou este livro Entre o Ramalhão e a Revolução, Ana Saragoça falou Do Infinito Consolo das (Mulheres de) Letras, Pedro Almeida Maia recordou Um Outro Lado da Revolução, o Paulo confessou-se,  Carla M. Soares andou entre Paredes, Orgãos de Cópula e Sotãos e Sónia Alcaso iniciou Uma Viagem pela Incerteza


Ao timoneiro agradecemos um belo regresso às navegações, depois de um mês que não chegou para reparar os motores e encher os tanques! 




04/09/2014

livro do mês: Revolução Paraíso

O Colectivo está de volta, com novo livro do mês.

Mário de Carvalho apontou-lhe, no Diário de Notícias, a prosa bem estruturada e o humor pícaro. A Visão considerou-o "um livro singular". Miguel Real, no balanço do Jornal de Letras, viu nele um dos exemplos da "agilidade sintática do frasear urbano pertinente a este novo século". Fala-se de «Revolução Paraíso», romance de estreia do timoneiro do mês, Paulo M. Morais, que recupera o período após o 25 de Abril numa história imperdível assente numa pesquisa sólida. 


Revolução Paraíso
(romance, 2013, Porto Editora)
Paulo M. Morais


Alternando realidade e ficção, um romance que nos transporta aos agitados dias da pós-revolução: o retrato de um país que, entre o PREC e as eleições livres, procura um novo rumo.
Enquanto nas ruas se decide o futuro de um país, na tipografia de Adamantino Teopisto vive-se um misto de enredo queirosiano, suspense de um policial e ternura de uma novela: com sabotagens, amores proibidos e cabeças a prémio; tudo num ambiente de revolução apaixonado.
O rebuliço generalizado tem repercussões no alinhamento do jornal e no dia a dia das gentes de São Paulo e do Cais do Sodré.
A revolução é o tópico das conversas nas tascas, nas ruas, no prédio da Gazela Atlântica, contribuindo para o exacerbar das tensões latentes entre o patrão Adamantino e os funcionários. A vivacidade de uma estagiária, as manigâncias de um ex-PIDE foragido, os comentários de um taberneiro e as intromissões de um proxeneta e de uma prostituta, agravam ainda mais a desordem ameaçadora que paira no ar.
Nada foi igual na vida dos portugueses após a Revolução dos Cravos. Nada foi igual na vida da "família" Gazela Atlântica após o 25 de Abril.

31/07/2014

a viagem da timoneira Ana Saragoça

Terceiro mês de navegação do Colectivo NAU, terceiro livro. A viagem de «Todos os Dias São Meus» foi bem recheada. O perfil da autora - e timoneira de Julho - Ana Saragoça esteve a cargo da Carla M. Soares. Depois, a Cristina Drios encontrou a cura pela literatura, o Pedro Almeida Maia ficou algemado pela Ana, o Paulo M. Morais lembrou-se de coisas da vida, o João Rebocho Pais enrolou-se em trambolhões, a Carla M. Soares esteve no bailarico com o pequeno romance, a Sónia Alcaso apontou que o livro se mostrava indisponível para morrer e a Raquel Serejo Martins fez uma soma de pequenos nadas.

A timoneira, como se não bastasse o trabalho de ter escrito o seu livro, aplicou-se a responder ao questionário de Proust e depois ainda nos deu um texto intitulado 'Todos os Dias' nos dias da minha vida. Obrigado por esta magnífica navegação, Ana!

O Julho da NAU ficou também assinalado pelo segundo jantar do Colectivo, que a Carla M. Soares cronicou, e por um encontro entre os leitores da Roda dos Livros e alguns marujos, que a Márcia Balsas referiu no seu blogue Fugir para Ler. E ainda tivemos o lançamento do segundo livro do João Rebocho Pais, "Dizem que Sebastião". Mês cheio este. Cheio de belos momentos.

03/07/2014

livro do mês: Todos os Dias São Meus

A Ana Saragoça é a timoneira do Colectivo NAU em Julho. Oportunidade para recuperar o seu romance de estreia, «Todos os Dias São Meus», citado na revista LER por Mário de Carvalho como um dos livros de novos autores que mais o surpreenderam. Bastaria isso para ser leitura obrigatória. Mas quem tiver a sorte de pegar nele, irá encontrar muitas mais razões para dar o tempo por bem entregue. 


Todos os Dias São Meus
romance (2012, Estampa)
Ana Saragoça

sinopse

Um prédio. Uma morte. Um mistério. Não se trata, porém, de um romance de pretexto policial. É verdade que há polícias e testemunhas - sobretudo testemunhas - e alguns suspeitos. Mas Todos os Dias são Meus é um extraordinário retrato do Portugal profundo, com os seus tiques, os seus ressentimentos, os seus ridículos.

30/06/2014

a viagem do timoneiro João Rebocho Pais

Houve de tudo nas leituras dos marujos do Colectivo Nau do livro do mês, «O Intrínseco de Manolo». A Raquel Serejo Martins pediu à Consuelo que a consolasse, a Cristina Drios confessou que gostaria muito de ser uma lágrima Marília, a Ana Saragoça encontrou o "alentejanismo mágico" do livro, a Carla M. Soares andou à volta do que podia Manolo (e podia muito...), o Paulo M. Morais perdeu as estribeiras e mandou o João fornicar-se...

E lá foi o João Rebocho Pais submeter-se a 20 confissões proustianas, escutar o poema da Raquel Serejo Martins intitulado Intrínseco João, e sujeitar-se a que a Sónia Alcaso lhe traçasse o perfil de "homem inteiro, cheio de jogos (e) de palavras".

Um mês cheio, em volta de um só livro. Um não, que enquanto falávamos do primeiro filho literário do João, ele estava a lançar o seu segundo, «Dizem que Sebastião». É de ir lá ver o que nos dizem, então, enquanto agradecemos ao nosso timoneiro a viagem intrínseca por Manolo e companhia.