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22/01/2016

Terminal NAU

Após alguns meses de deriva, os escritores do Colectivo NAU - Novos Autores Unidos decidiram desmantelar a embarcação. Agradecemos a todos os leitores que acompanharam e apoiaram as nossas navegações literárias. O escrito e dito continuará a estar disponível, como testemunho deste Colectivo. Continuação de boas leituras!

02/02/2015

NAU: ROTAS PERCORRIDAS, ROTAS SONHADAS


E eis que chega ao fim o primeiro ciclo de existência da NAU. 

Foram nove meses para oito autores (com pausa para banhos)oito autores que assumiram, à vez, o comando da embarcação, usando os seus livros como cartas de marear: abrimos caminho na Primeira Guerra com Os Olhos de Tirésias, de Cristina Drios, seguimos pelo Alentejo com O Intrínseco de Manolo, de João Rebocho Pais, ganhamos dias elevador acima, elevador abaixo com Todos os Dias São Meus, de Ana Saragoça, respiramos fundo e entramos em rebelião com a gente de Abril, com Revolução Paraíso, de Paulo M. Morais, voamos até aos Açores para um mistério, com Capítulo 41- A Redescoberta da Atlântida, de Pedro Almeida Maia, recuamos aos amores do século XIX com Alma Rebelde, de Carla M. Soares, suspendemo-nos entre a vida e uma morte anunciada em Pretérito Perfeito, de Raquel Serejo Martins, e fechamos o ciclo numa noite só, com Esta Noite Não Aconteceu, de Sónia Alcaso. Os autores NAU leram e escreveram sobre os livros de cada um com toda a honestidade e poesia de que foram capazes, fugindo sempre do elogio fútil e, quem sabe, falso.

Não tivemos muitas oportunidades de nos encontrarmos pessoalmente, mas aproveitámos até ao tutano as vezes que conseguimos conjugar horários, para podermos passar juntos umas horas em redor de uma refeição. Refeição sempre bem portuguesa, de iscas, alheiras e sardinhas, com queijo dos açores à mistura, nos dois jantares NAU em que trocámos impressões, sugestões, nos animámos mutuamente, e sobretudo dissemos o que cabia e o que não cabia e rimo-nos alto e bom som, como convém a um grupo de circunspectos e digníssimos literatos.

Os encontros com leitores, pessoais ou em conjunto, foram sempre gratificantes, é por eles, afinal, que nos vamos metemos na luta que é a escrita e sobretudo a publicação de cada livro. Não podemos, porém. deixar de destacar certa tarde memorável de verão, passada na Biblioteca dos Olivais com A Roda dos Livros. É uma felicidade trocar ideias com quem ama ler, que reflecte sobre o que lê e que tem ainda a generosidade de partilhar as suas reflexões com outros leitores e com os autores. Muito gratos pelo convite, que desejamos se multiplique noutros espaços e com outros leitores (ou no mesmo espaço com os mesmos leitores, porque não?)

E houve ainda o ‘Projecto Raimundo’, o desafio que nos impusemos de escrever um conto assente em apenas dois pressupostos comuns: a frase de abertura e o local de nascimento do protagonista. O resultado pode ser apreciado no site Das Letras, nosso parceiro de aventura, onde quinzenalmente tem surgido um ‘Raimundo’ que reflecte a sensibilidade de cada um dos autores da NAU.

Com estes primeiros oito meses de navegação, aprendemos todos muito uns com os outros, com quem nos lê e com quem nos publica. Foi uma viagem cheia de aventuras e alguns escolhos, e não a trocaríamos por nada.

Chegados ao fim deste primeiro ciclo, impunha-se a pergunta: e agora? Recolhíamos a aparelhagem e deixávamos a nossa NAU definhar em doca seca? Ou embarcávamos rumo a novas paragens? Ninguém manifestou vontade de abandonar o navio.

Nos próximos oito meses, vamos dedicar-nos a explorar a obra de cada um dos autores de outros pontos de vista. Isso significa que, em Fevereiro Cristina Drios volta ao papel de timoneira. O seu livro, Os Olhos de Tirésias, tem como cenário a Primeira Guerra Mundial, sobre a qual decorrem agora cem anos. Propomo-nos, sob a égide do soldado português retratado por Cristina Drios, explorar vários aspectos do conflito que deu o tom a todo o século XX.

Sigamos pois os passos de Mateus Mateus.



19/07/2014

Rumo ao El Dorado - finalmente o segundo encontro NAU

[Carla M. Soares e o segundo encontro NAU; publicado em versão abreviada em Monsterblues]

Depois de avanços e recuos, deu-se o segundo encontro NAU, há muito prometido e muito devido. Havia trabalho a distribuir, projectos a planear, pontas a atar, mas havia, sobretudo, a vontade de um reencontro informal, e desta vez, com direito a voo dos Açores para completar a equipagem desta barca.


Sta Apolónia acolheu-nos em noite quente, a pedir refrescos, mas desta vez falhou-nos o Sardinha. Ou falhamos nós, que nos esquecemos de prevenir que, em vez dos sete do primeiro encontro, grupo incompleto, seríamos treze, a NAU toda, com o seu açoriano e ainda alguns acompanhantes. Não tinha o Sardinha lugar, porque o espaço é reduzido, ou alimento para tantos, por isso zarpamos rumo ao El Dorado, que sabendo toda a gente que é coisa de mito, afinal é ali mesmo ao lado. Perdemos o fotografo e o nome tão castiço, mas ganhamos a esplanada e o ar livre.

Não houve estranheza inicial - o marujo que aterrou agora e não nos conhecia pode comprová-lo - nem ela era esperada. Afinal não era o primeiro encontro, nem para os acompanhantes. O que houve foi muita agitação de lugares e de pedidos e um empregado de mesa sozinho para tantas mesas e inicialmente mal-disposto com tanto trabalho inesperado. Passou-lhe, e foi boa a comida, boa a companhia e boa a conversa.


O que houve foi troca de livros e de assinaturas - doações para a biblioteca e promessas de envios posteriores também, cá se aguardam esses livros açorianos - e tagarelou-se muito, sobre muita coisa para além dos livros, embora sobretudo sobre eles. Sobre as editoras e o nosso trabalho. Sobre o que acontece e o que gostariamos que acontecesse. Sobre o que podemos ou devemos fazer e qual o nosso papel, afinal, nisto dos livros. Sobre outros autores. Mas também se conversou sobre sotaques dos Açores e viagens. Sobre queijos (o marujo açoriano presenteou-nos com maravilhoso queijo das ilhas que devoramos ali mesmo, eternamente gratos!) e sobre percursos de vida. Que diferentes somos! Que bom ser assim! E falamos sobre filhos, trabalho, estudo e planos. Rimo-nos um bocado também, inevitável, afinal é a marujada!

Projectou-se apenas um pouco, trabalhou-se quase nada, é preciso outra reunião, vamos lá ver que surpresas conseguimos preparar e se os prazos são para cumprir, mas, muito importante, fez-se foto finalmente completa deste grupo de marujos lançados em mares contrários, à procura… pois, do El Dorado!


05/05/2014

o barco vai de saída

[texto: Pedro Almeida Maia]

Não é uma analogia faustiana, até porque não vamos por este rio acima nem nos limitamos ao cais de Alfama, será antes uma viagem inaugural com uma tripulação reduzida, mas resiliente. Não te levamos connosco, ó cana verde, mas trazemos páginas e páginas que resistirão às maiores tormentas do trono das águas.

E assim se unem as vozes do Cole©tivo NAU, num uníssono reverberante, em estilos únicos, desiguais; juntaram-se à esquina de uma tasca lisboeta, o Sardinha, menos um — eu — que chegarei depois, mas estavam lá os livros. Os nossos. E a paixão por eles também.

É com orgulho e prazer que faço a ponte atlântica, desde aqui, com estes marujos das letras, editados no cont’nente que se diz ser portuga e agora com uma costela açoriana. Somos nós: Ana Saragoça, Carla M. Soares, Cristina Drios, João Rebocho Pais, Paulo M. Morais, Pedro Almeida Maia, Raquel Serejo Martins e Sónia Alcaso.

Depois das iscas e alheiras alfacinhas do primeiro convívio, ainda provarão morcela da nossa, uma queijada da vila ou uma alcatra à maneira. Até breve.

02/05/2014

a primeira viagem

[texto: Cristina Drios / fotografia do Cole©tivo: senhor Duarte]

4 de Abril de 2014, sexta-feira. Poucos minutos para as oito da noite. Em diversos pontos de Lisboa, sete pessoas, dirigem-se, para o mesmo local. Chove a cântaros e a baixa da cidade é, como o título de um livro, uma paisagem com inundação.

O Cole©tivo NAU – Novos Autores Unidos lançava-se à água, em viagem inaugural!

Apresentação dos marujos. Por ordem alfabética.

Ana Saragoça, escritora.
Carla M. Soares, escritora.
Cristina Drios, escritora.
João Rebocho Pais, escritor.
Paulo M. Morais, escritor.
Pedro Almeida Maia, escritor.
Raquel Serejo Martins, escritora.
Sónia Alcaso, escritora.

Dos oito, sete estão a caminho, numa noite de intempérie, e um, o Pedro, vem representado pelo seu livro. De Ponta Delgada a Lisboa, haveria que fretar uma embarcação menos feita de letras e sonhos.


Ao local aprazado para o encontro calha um sugestivo nome de tasca lisboeta. À mesa do Sardinha, entretanto, aportaram três: a Sónia, o Paulo e eu, que aguardam com alguma impaciência que se complete a companha. Oito e meia. Por fim, chega o João. Oito e quarenta. A Carla. Oito e quarenta e cinco. A Raquel e a Ana. Largam desculpas e pingos no meio dos beijos.

É possível delinear uma linha imaginária entre quem se conhece. Porém, impera quem não se conhece. O primeiro gelo não custa a quebrar à medida que cada um entrega o seu livro. Abre-se uma fresta entre as cestas de carcaças e os jarros de vinho e uma torre de livros cresce no meio da mesa. É o lugar do colectivo; cada um dos nossos livros é um tijolo no nosso farol.

Apresentação dos livros. Por ordem aleatória da pilha. De baixo para cima.


Esta Noite Não Aconteceu
Alma Rebelde
O Intrínseco de Manolo
Revolução Paraíso
Capítulo 41
Pretérito Perfeito
Os Olhos de Tirésias
Todos os Dias São Meus
[agora, apenas para os leitores: delinear uma linha imaginária entre cada uma das obras e o seu autor]

Cinco doses de iscas e duas alheiras, alguns jarros de vinho e muitas coca-colas adiante, discutiram-se alguns tópicos do nosso futuro comum entre chuva que era agora algaraviada e gargalhadas.

A Ana disse, a dada altura, “Já éramos amigos e não sabíamos!”. Nos olhos havia brilho e sorrisos e cumplicidade nos gestos, porque somos tão diferentes que sabemos que somos quase iguais no querer que este projecto nos leve juntos onde seria difícil chegarmos sozinhos. E assim, à meia noite e meia, enxotados pelo pano húmido do senhor Duarte, fomos corridos do Sardinha...

Somos os marujos desta NAU e esta foi a nossa primeira viagem juntos, a viagem na qual buscando a etimologia da palavra companha, partilhámos o mesmo pão. Venham mais! Pão, vinho, letras e risos. Não sei se sabemos onde é que queremos chegar; o mais importante foi querer. Querer estar. Querer pertencer. Querer partilhar!