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17/02/2015

Poesia nas trincheiras


Eu nunca estive numa guerra.
Eu não sei nada da guerra mas sei que uma guerra é uma guerra e que na guerra não há poesia, porém nas trincheiras, dentro de soldados ou de heróis, encontrei poetas.

“The Soldier,” by Rupert Brooke (1887-1915)

If I should die, think only this of me:
That there’s some corner of a foreign field
That is forever England. There shall be
In that rich earth a richer dust concealed;
A dust whom England bore, shaped, made aware,
Gave, once, her flowers to love, her ways to roam,
A body of England’s, breathing English air,

Washed by the rivers, blest by suns of home.
And think, this heart, all evil shed away,
A pulse in the Eternal mind, no less
Gives somewhere back the thoughts by England given,
Her sights and sounds; dreams happy as her day;
And laughter, learnt of friends; and gentleness,
In hearts at peace, under an English heaven.

O SOLDADO
Se eu tiver de morrer, pensai de mim só isso:
Que há algures no estrangeiro algum canto de campo
Que será para sempre Inglaterra. Tal rico
Torrão abrigará de pó mais rico um tanto;
Pó que Inglaterra criou, formou, tornou consciente,
Com flores para amar, caminhos para andar;
Lavado por seus rios, com a benção do sol quente,
Um corpo de Inglaterra a respirar seu ar.

Pensai que o coração, o mal todo arrancado,
Qual um pulsar no eterno espírito, devolve
Em um lugar qualquer aquelas reflexões
Que lhe deu Inglaterra, e tudo lá sonhado,
O riso pelo amigo ensinado e, lá onde
O céu é inglês, doçura e paz nos corações.





“The Hero,” by Siegfried Sassoon (1886-1967)

"Jack fell as he'd have wished,' the Mother said,
And folded up the letter that she'd read.
"The Colonel writes so nicely." Something broke
In the tired voice that quavered to a choke.
She half looked up. "We mothers are so proud
Of our dead soldiers." Then her face was bowed.

Quietly the Brother Officer went out.
He'd told the poor old dear some gallant lies
That she would nourish all her days, no doubt.            
For while he coughed and mumbled, her weak eyes
Had shone with gentle triumph, brimmed with joy,
Because he'd been so brave, her glorious boy.

He thought how "Jack," cold-footed, useless swine,
Had panicked down the trench that night the mine
Went up at Wicked Corner; how he'd tried
To get sent home, and how, at last, he died,
Blown to small bits. And no one seemed to care
Except that lonely woman with white hair.

O HERÓI
“Morreu exactamente como desejaria”,
Disse a mãe após ler e dobrar a missiva.
“O coronel escreve tão bem.” Mas quebrou-se algo
Naquela voz cansada que gaguejou num engasgo.
O olhar um pouco alçado: “Nós, mães, de um herói morto
Orgulhamo-nos tanto.” E o olhar quedou-se absorto.

Calado, o Irmão Oficial foi-se embora. Ele havia
Contado à pobre dama só piedosas lorotas
Que ao longo de seus dias ela alimentaria.
Enquanto ele tossia, os olhos da velhota
Repletos de deleite e triunfo haviam brilhado
Por seu bravo menino, o glorioso soldado.

Lembrou-se ele então como este inútil medricas
Apavorou-se quando aquela noite a mina
Explodiu em Wicked Corner; como não poupou esforço
Para que o enviassem a casa, e como, enfim já morto
E em pedaços, ninguém parecia se importar
Excepto a solitária velhinha de olhos no ar.



30/06/2014

a viagem do timoneiro João Rebocho Pais

Houve de tudo nas leituras dos marujos do Colectivo Nau do livro do mês, «O Intrínseco de Manolo». A Raquel Serejo Martins pediu à Consuelo que a consolasse, a Cristina Drios confessou que gostaria muito de ser uma lágrima Marília, a Ana Saragoça encontrou o "alentejanismo mágico" do livro, a Carla M. Soares andou à volta do que podia Manolo (e podia muito...), o Paulo M. Morais perdeu as estribeiras e mandou o João fornicar-se...

E lá foi o João Rebocho Pais submeter-se a 20 confissões proustianas, escutar o poema da Raquel Serejo Martins intitulado Intrínseco João, e sujeitar-se a que a Sónia Alcaso lhe traçasse o perfil de "homem inteiro, cheio de jogos (e) de palavras".

Um mês cheio, em volta de um só livro. Um não, que enquanto falávamos do primeiro filho literário do João, ele estava a lançar o seu segundo, «Dizem que Sebastião». É de ir lá ver o que nos dizem, então, enquanto agradecemos ao nosso timoneiro a viagem intrínseca por Manolo e companhia.

10/06/2014

Intrínseco João

[poema de Raquel Serejo Martins, inspirado em «O Intrínseco de Manolo»]

João Rebocho Pais
é dos Olivais,
e parece-me que estou a vê-lo
de fisga na infância atrás de pardais.
Atrás de pardais, atrás de uma bola,
o golo na baliza,
no recreio da escola.

E ser dos Olivais é ser do mundo,
o prédio, a rua, o bairro, a lua ao fundo,
talvez por isso seja o Manolo do seu livro
tão meditabundo,
quando à sombra da sua azinheira,
raízes em lugar de Cousa Vã,
folhas ou pensamentos inquietos
e confidências de pássaros no vai e vem das estações.

Do João os dias também de pássaro,
asas de metal, bico afiado em voo contrapicado,
um comissário de bordo, um ser alado.
Leva saudades do chão e um recado,
não sei se gosta de fado!
Sei que prende as lágrimas aos olhos,
não é piegas e não prende,
quando ouve Cat Stevens,
e eu vou arriscar, sem cantar:
I was a child
Who ran full of laughter
My eyes full of sunshine
My heart full of smiles

Sem dúvidas, sei que gosta de futebol,
se Saramago de chuteiras, um Maradona,
digo, por dizer que são dois monstros de bons.
E no coração o seu Benfica,
dois livros,
dois filhos,
duas mulheres,
da Suécia com amor.

Mas do João, sobretudo o sorriso.
Sólido, redondo, brilhante!
Medalha merecida ao peito,
lugar no pódio,
por me lembrar um menino
que aposto era o capitão da rua.


03/06/2014

a viagem da timoneira Cristina Drios

Na passagem de testemunho, relembramos a viagem da timoneira Cristina Drios.

Festival du Premier Roman de Chambéry
imagem: Arlette Darbord
Tudo começou, literalmente, com a crónica sobre o primeiro jantar NAU. Depois houve um perfil traçado pela Raquel Serejo Martins, citações e comentários feitos pelas marujas Carla M. Soares (um rapaz com gosto por coelhos no chapéu), Sónia Alcaso (o medo e a solidão da guerra), Ana Saragoça (o espaço físico da tradutora), uma evocação do Paulo M. Morais (uma coisa sem importância aparente), um poema da Raquel Serejo Martins inspirado em «Os Olhos de Tirésias», e as respostas da timoneira ao questionário de Proust. Pelo meio, a Cristina ainda teve tempo de ir a França participar no Festival do Primeiro Romance de Chambéry, o que nos encheu de orgulho.

Resta-nos agradecer ao Mateus Mateus e restantes personagens criados pela Cristina Drios, por nos terem proporcionado uma belíssima primeira viagem do Colectivo NAU.

25/05/2014

Tudo vêem os olhos de Tirésias

[poema de Raquel Serejo Martins, inspirado em «Os Olhos de Tirésias»]

Trincheiras na Flandres,
na Primeira Guerra Mundial,
em La Lys (1918)
fonte: Wikipedia
(scan de "História de Portugal"
Vol VIII, Quidnovi) 
Na Flandres
foi cavador de valas,
fazedor de trincheiras e,
quando calhou,
e calhou muito,
também maqueiro
e coveiro.
Era suposto ter sido neveiro,
pilão e sapa e nevoeiro.

Na Flandres o frio.
As madrugadas glaciais.
As ratazanas nas tocas.
O aconchego das meias de lã
dentro das botas.
As botas: a última coisa que um soldado perde,
a primeira: a compaixão.

Na Flandres o medo
a virar as pessoas do avesso.
A artilharia pesada sucedâneo de tempestade.
E depois da tempestade
não a bonança.
A terra em ruínas,
em silêncio.
E não silêncio,
um barulho surdo,
ensurdecedor.

Na Flandres o amor,
dois olhos azuis e um relógio.
O coração a bater como um relógio,
ou o relógio ao lado do coração
sem conseguir dizer que horas são.

Na Flandres nem figos maduros,
nem pássaros verdes.
O silêncio de ruínas.
O silêncio de corpos.
O frio maior,
e sobre tudo o Inverno: infinito.

Tudo tem seu fim, mesmo na Flandres!

Assim, inexoravelmente depois a Primavera,
e sobre a cal das sepulturas
papoilas a florescer aos molhos.
As hastes a tremerem na brisa.
As pétalas coradas pelo sangue vertido.
Que ao ler isto não chorem teus olhos.

Enquanto nos jardins de Lisboa,
aqui d’el-rei,
baixem a ponte levadiça,
guardas às seteiras,
sentinelas a postos,
às duas da tarde,
ao sol são sempre duas da tarde,
se morre melhor,
ou apenas,
de amor,
de tédio,
e de solidão.

Enfim, coisas que ninguém percebe ou vê,
ou Tirésias num banco de jardim,
de olhos nos turistas que passam.