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28/02/2015

A GRANDE GUERRA na ficção portuguesa contemporânea

[texto: Cristina Drios]

Poder-se-ia pensar que um tema tão rico como da participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial ou Grande Guerra, cujo centenário agora se recorda, teria tido um enorme eco na produção literária contemporânea. No entanto, ao começar a procurar romances nacionais recentes enquadrados nessa época e temática, rapidamente percebi que muito havia ainda a explorar!...

Sobre “A filha do Capitão” (2004, Gradiva) de José Rodrigues dos Santos sei que, como eu, o autor passou, sem que isso se note no livro, pela propriedade onde esteve alojado o estado-maior português em Saint-Venant... 

Sérgio Luís de Carvalho também colocou em cena um capitão n’“O Destino do Capitão Blanc” (2009, Planeta) e na “Cruz de Portugal” (2011, Camões & Companhia), José Gonçalves apresentou uma personagem de origens humildes que haveria de singrar.

Um pouco farta de tantos capitães, foi então que encontrei um camarada de armas – um soldado que também sofria de uma terrível maldição e não passaria da cepa torta – que haveria de se tornar um grande amigo de Mateus Mateus: “O Soldado Sabino” (2012, Bloco Editora) de Nuno Gomes Garcia. Creio que mesmo depois de terminada a guerra, mantiveram esta amizade... 

E no ano de publicação de “Os Olhos de Tirésias” (2013, Teorema) conheci a dividida personagem de “A segunda Morte de Anna Karenina” (2013, Oficina do Livro) de Ana Cristina Silva.

Com o advento do centenário, outras personagens terão certamente sido dadas à estampa mas essas deixo-as à vossa descoberta. Boas leituras! 


12/02/2015

Os artistas na GRANDE GUERRA.

[texto por Cristina Drios]

Durante a Grande Guerra, nas fileiras de ambas as coalizões combateram artistas, alguns já de renome e outros que viriam a sê-lo mais tarde. Entre eles – exceptuarei agora os escritores – encontravam-se muitos músicos: o violinista Fritz Kreisler; Maurice Ravel, compositor e pianista, que conduziu um camião na Voie Sacrée; Paul Wittgenstein (irmão de Ludwig, o filósofo), também compositor e pianista, que compôs uma peça só para a mão esquerda depois de lá ter perdido o braço direito. Dessas histórias de músicos, amadores e famosos, dá testemunho Dominique Huybrechts, autor de “Les Musiciens dans la Tourmente, Compositeurs et Instrumentistes face à la Grande Guerre”.


A par disso, os próprios soldados, que tinham de matar tempo nas trincheiras, entretinham-se a tocar, cantar, esculpir, desenhar. Em todos os museus, podemos ver peças estranhas, fabricadas com balas, obuses, metralha, que transformaram em obras de arte.

Ao passear numa feira de velharias em Saint-Venant (aldeia onde se encontra a propriedade que serviu de quartel-general português e que muito inspirou “Os Olhos de Tirésias”), encontrei um livro belíssimo, contendo reproduções de desenhos a carvão, água forte e aguarela, pintados pelos “poilus” (soldados franceses): “Croquis et Dessins de Poilus” é uma mostra dessa brilhante arte das trincheiras.

Mas Portugal também teve os seus artistas na Grande Guerra onde, nesse campo, se destacaram:

-   o capitão Menezes Ferreira, autor do livro “João Ninguém: Soldado da Grande Guerra, Impressões Humorísticas do C.E.P.” (tive na mão um exemplar de 1921 que me arrependo até hoje de não ter comprado... mas que acaba de ser reeditado em              fac-símile);

Adriano Sousa Lopes, gravador e pintor, o nosso “pintor das trincheiras”, de que parte das fabulosas águas fortes podem ser vistas – com autorização prévia – na sede da Liga dos Combatentes, em Lisboa. E é mesmo, a não perder!  

e o fotógrafo Arnaldo Garcez cuja obra está publicada pelo Estado Maior do Exército em “Imagens da I Guerra Mundial


   

04/02/2015

A GRANDE GUERRA, a história e os seus intervenientes.


O romance “Os Olhos de Tirésias” tem como pano de fundo a participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial ou Grande Guerra, cujo centenário agora se recorda. Este foi, durante muito tempo, um tema non grato, mormente durante o Estado Novo, e por vezes, desconhecido de muitos portugueses.

Mas Portugal marcou presença em duas frentes de guerra, primeiro em África, na defesa das suas colónias, e a partir de 1917, na Flandres, para onde seguiu, em navios ingleses, e se manteve sob comando britânico, o Corpo Expedicionário Português (C.E.P.).

O sector português cobria cerca de doze quilómetros de frente e foi aí que, na madrugada de 9 de Abril de 1918, os alemães atacaram, lançando sobre a parte mais frágil das defesas inimigas, as suas divisões frescas e bem apetrechadas. A baptizada “Operação Georgette” alemã (que deu nome a uma das personagens femininas de “Os Olhos de Tirésias”) ficou assim conhecida na história portuguesa como um dos seus capítulos mais tristes, a Batalha de La Lys, nome do rio que dividia os contendores.

Este é, em minha opinião – por isso o escolhi para pano de fundo do meu romance –, um tema a aprofundar. Aqui vos deixo, assim, uma sugestão (não exaustiva!) de livros de autores portugueses para quem queira saber um pouco mais sobre esta parte da nossa história e dos seus intervenientes nela.

Em primeiro lugar, sugiro para uma contextualização histórica completa, “Portugal e a Grande Guerra 1914-1918” dos Coronéis Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes. Sugiro também “Das Trincheiras com Saudade, A vida quotidiana dos militares portugueses durante a Primeira Guerra Mundial” de Isabel Pestana Marques, um livro que nos descreve de forma vívida o dia-a-dia dos soldados portugueses nas trincheiras.  
















Por fim, dos muitos diários, testemunhos e relatos ficcionados escritos pelos intervenientes da época ressalto dois: “A Malta das Trincheiras, Migalhas da Grande Guerra 1917-1918” de André Brun e a  “Memórias da Grande Guerra” de Jaime Cortesão.




















Aqui ficam as sugestões! Boas leituras!

02/02/2015

NAU: ROTAS PERCORRIDAS, ROTAS SONHADAS


E eis que chega ao fim o primeiro ciclo de existência da NAU. 

Foram nove meses para oito autores (com pausa para banhos)oito autores que assumiram, à vez, o comando da embarcação, usando os seus livros como cartas de marear: abrimos caminho na Primeira Guerra com Os Olhos de Tirésias, de Cristina Drios, seguimos pelo Alentejo com O Intrínseco de Manolo, de João Rebocho Pais, ganhamos dias elevador acima, elevador abaixo com Todos os Dias São Meus, de Ana Saragoça, respiramos fundo e entramos em rebelião com a gente de Abril, com Revolução Paraíso, de Paulo M. Morais, voamos até aos Açores para um mistério, com Capítulo 41- A Redescoberta da Atlântida, de Pedro Almeida Maia, recuamos aos amores do século XIX com Alma Rebelde, de Carla M. Soares, suspendemo-nos entre a vida e uma morte anunciada em Pretérito Perfeito, de Raquel Serejo Martins, e fechamos o ciclo numa noite só, com Esta Noite Não Aconteceu, de Sónia Alcaso. Os autores NAU leram e escreveram sobre os livros de cada um com toda a honestidade e poesia de que foram capazes, fugindo sempre do elogio fútil e, quem sabe, falso.

Não tivemos muitas oportunidades de nos encontrarmos pessoalmente, mas aproveitámos até ao tutano as vezes que conseguimos conjugar horários, para podermos passar juntos umas horas em redor de uma refeição. Refeição sempre bem portuguesa, de iscas, alheiras e sardinhas, com queijo dos açores à mistura, nos dois jantares NAU em que trocámos impressões, sugestões, nos animámos mutuamente, e sobretudo dissemos o que cabia e o que não cabia e rimo-nos alto e bom som, como convém a um grupo de circunspectos e digníssimos literatos.

Os encontros com leitores, pessoais ou em conjunto, foram sempre gratificantes, é por eles, afinal, que nos vamos metemos na luta que é a escrita e sobretudo a publicação de cada livro. Não podemos, porém. deixar de destacar certa tarde memorável de verão, passada na Biblioteca dos Olivais com A Roda dos Livros. É uma felicidade trocar ideias com quem ama ler, que reflecte sobre o que lê e que tem ainda a generosidade de partilhar as suas reflexões com outros leitores e com os autores. Muito gratos pelo convite, que desejamos se multiplique noutros espaços e com outros leitores (ou no mesmo espaço com os mesmos leitores, porque não?)

E houve ainda o ‘Projecto Raimundo’, o desafio que nos impusemos de escrever um conto assente em apenas dois pressupostos comuns: a frase de abertura e o local de nascimento do protagonista. O resultado pode ser apreciado no site Das Letras, nosso parceiro de aventura, onde quinzenalmente tem surgido um ‘Raimundo’ que reflecte a sensibilidade de cada um dos autores da NAU.

Com estes primeiros oito meses de navegação, aprendemos todos muito uns com os outros, com quem nos lê e com quem nos publica. Foi uma viagem cheia de aventuras e alguns escolhos, e não a trocaríamos por nada.

Chegados ao fim deste primeiro ciclo, impunha-se a pergunta: e agora? Recolhíamos a aparelhagem e deixávamos a nossa NAU definhar em doca seca? Ou embarcávamos rumo a novas paragens? Ninguém manifestou vontade de abandonar o navio.

Nos próximos oito meses, vamos dedicar-nos a explorar a obra de cada um dos autores de outros pontos de vista. Isso significa que, em Fevereiro Cristina Drios volta ao papel de timoneira. O seu livro, Os Olhos de Tirésias, tem como cenário a Primeira Guerra Mundial, sobre a qual decorrem agora cem anos. Propomo-nos, sob a égide do soldado português retratado por Cristina Drios, explorar vários aspectos do conflito que deu o tom a todo o século XX.

Sigamos pois os passos de Mateus Mateus.



22/01/2015

Aconteceu ou não

[a leitura de Esta Noite Não Aconteceu por Cristina Drios]

“Se eu não fosse escritora e não pusesse no papel os seus sentimentos, tornar-me-ia, provavelmente, uma criminosa. (...) Mas é só nos livros que cometo crimes, juro; contar histórias foi o refúgio que descobri para escapar às ideias horríveis que tantas vezes me passam pela cabeça.”
in “Esta Noite Não Aconteceu”, pág. 157.

Aconteceu ou não, pergunta-se o leitor, ao fechar a última página deste romance que se lê de um só fôlego, ao ritmo quase frenético dos acontecimentos que enredam quatro personagens: uma escritora de romances cor-de-rosa que almeja mudar, um jornalista que afinal não é só o que disse ser, um criminoso violento que se releva um bom pai e um  polícia reformado apanhado num vórtice a que é alheio...

Acontecer ou não acontecer, eis a questão. Qual é a fronteira entre realidade e ficção? Que linha separa a escritora inventada da escritora real? A ficção será apenas um refúgio para a escritora inventada? E para a escritora real, será uma realidade paralela em que, de facto, existe tanto quanto as suas personagens? É que, afinal, no caso da escritora inventada, descobrimos que a realidade é apenas ficção... Confusos? Nem tanto! A contracapa fala-nos de “um romance empolgante e carregado de acção” mas “Esta Noite Não Aconteceu” é muito mais, é um livro com camadas de  profundidade que, tal como cada hora da noite em que se desenrola, trazem um matiz diferente que se sobrepõe ao anterior. Cabe-nos a nós, leitores, fazer acontecer ou não...










28/12/2014

Pequenos Prazeres

[A leitura de Pretérito Perfeito por Cristina Drios

Agarra-nos à felicidade dos pequenos prazeres, das coisas simples, dos gestos singelos e quotidianos: o calor de uma chávena de chocolate, um raio de sol na cara, um romance aberto no regaço, a mão no pêlo do gato, uma gargalhada. Agarra-nos à vida, portanto. Assim é este livro, este “Pretérito Perfeito”. E a sua leitura torna-se em si mesma parte desses deliciosos prazeres, pequenos mas imensos ao mesmo tempo. Ao longo das páginas vamos indo, de mão dada com o Vasco cujo coração falhou e a quem foi dado um novo que promete falhar a qualquer momento. O Vasco, na verdade, somos todos nós, irmanados numa única certeza, a da inevitabilidade da morte. E tal como ao Vasco, a ideia assustadora de que um dia morreremos deixa aos poucos de nos atemorizar porque, como ele, somos também um acumular de prazeres mínimos. “Pretérito Perfeito” fala muito da morte mas é um hino à (im)perfeição da vida.


“Morreu um actor, um escritor, um guionista, um realizador, um encenador, um poeta.
Sim, morreu um poeta, gostava de ser poeta.
Tudo isto, morreu hoje, dentro do mesmo corpo.”
in “Pretérito Perfeito”, pág. 149.



15/12/2014

Vêm aí os Raimundos

Uma NAU, oito cabeças, dezasseis mãos, um nome só e uma só origem - Raimundo, de Cuba, no Alentejo.

Uma frase a dar o mote:  Dizem que Raimundo conhecia muito mundo. Dela partem em viagem oito contos, outros tantos Raimundos, para conhecer a cada quinze dias no site Das Letras.

O primeiro, da autoria de Cristina Drios, zarpou hoje. Vão conhecê-lo aqui:





20/11/2014

Alma minha gentil...

[A leitura de Alma Rebelde por Cristina Drios]


“Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.”


Este soneto de Camões rodou na minha cabeça durante toda a leitura do romance “Alma Rebelde” da Carla M. Soares. Confesso que aos meus olhos, a tal “rebeldia” anunciada de Joana, personagem central do romance, uma menina de boas famílias a quem, como soía ser no século dezanove, foi exigido um casamento de conveniência, me pareceu tão gentil e inócua quanto as suas impecáveis boas maneiras. Afinal, dos rebeldes esperam-se convicções, confronto ou, no mínimo, uma opinião, um levantar de voz!... mas Joana apenas se deixa levar pelo destino que lhe coube, obedecendo e baixando a cabeça a cada passo. Talvez não pudesse ser esta Joana de outra forma, naquele meio e naquela época, talvez..., apesar das ganas que me deu de entrar pelo livro adentro e de lhe dar um forte abanão aqui e ali!... Em contraponto, a prima Ester, personagem apenas entrevista nas linhas das cartas que trocam, sofre o real drama de um casamento imposto com um Velho (o V maiúsculo é esclarecedor quanto baste) que se desdobra num quotidiano de abusos e maus tratos. O romance retrata assim, com subtileza, numa escrita escorreita e leve (mas nunca leviana!), a condição da mulher, sempre subalterna e inferiorizada numa sociedade patriarcal – condição essa que “democratiza” uma galeria de inesquecíveis personagens femininas, as burguesas e nobres Joana, Ester e    D. Ana, e as plebeias Rosária e Brites – . Por debaixo da capa cor de rosa do relato dos amores e desamores de Santiago e Joana, encontra-se o fresco rigoroso de uma época, cujos preconceitos e males, ainda perduram nos dias de hoje: infelizmente, basta abrir o jornal e ler a notícia de mais um crime hediondo de violência doméstica. 


“Quem me dera que Ester aqui estivesse, ela pelo menos deve compreender como me sinto. Não me esconde que é infeliz, tantas vezes a encontrei a chorar. Sei que o Velho a ofende e lhe bate muitas vezes. Será o que me espera? Um homem para me bater? Para me trancar em casa e me fazer filhos, como o da Ester? (in Alma Rebelde, pág. 13)

19/10/2014

Um lugar imaginário

[Cristina Drios e a leitura de «Capírulo 41»]

«Quando se fala em Atlântida, associa-se logo a mito! (...) Procurem numa enciclopédia: é uma lenda! Procurem na internet: é uma alegoria! Procurem um livro no catálogo de uma biblioteca: está na mesma secção do monstro de Loch Ness, dos duendes, gnomos e ajudantes do Pai Natal.»
in Capítulo 41 – A Redescoberta da Atlântida (pág. 286)


Onde ficava afinal a Atlântida? Nos Açores? Nas Canárias? Nas Cíclades? Existiu sequer? Na verdade, é-me indiferente. Alberto Manguel contempla-a no seu “Dicionário dos Lugares Imaginários” porque a Atlântida é, antes de mais, um imaginário e nada me importa menos, no caso, do que a dicotomia burocrática entre realidade e lenda.

Na adolescência, época em que me dediquei com afinco a todo o género de leituras, mais ou menos científicas, mais ou menos especulativas, sobre os Grandes Mistérios da Humanidade: da Atlântida ao Túmulo de Tutankamon, da Ilha da Páscoa a Marte, Plutão e aos confins do Universo, nasceu esse imaginário. Por essa altura, ancorou-se em mim, a quem os desertos fascinam, no Saara, com a leitura do romance de Pierre Benoît.

O «Capítulo 41 – A Redescoberta da Atlântida» de Pedro Almeida Maia trouxe-me a melancolia dessas leituras longínquas, desgarradas e anárquicas, sempre sôfregas. É bom saber que os lugares imaginários nunca morrem em nós e que se (re)visitam com a facilidade de um salto mental.

mapa do Império da Atlântida, em «Atlantis: the antediluvian world» (1882),
de Ignatius Donelly
fonte: Wikipedia Commons


09/09/2014

perfil de Paulo M.Morais

[texto de Cristina Drios]


fotografia de Hervé Hette
Conheço pouco o Paulo. Mas gosto do que conheço.

O (des)conhecimento leva a estranhas associações: vejo um daqueles locais arqueológicos remotos, há muito reclamados pela selva e onde, no meio de todos os templos derrubados pela inclemência dos séculos, surge à luz do poente, a solidez de uma única coluna ainda erguida. Foi esta a imagem que me veio à cabeça quando comecei a pensar em como iria abordar a difícil tarefa de escrever o “perfil” do Paulo. E é assim que, ouvidos relatos na primeira pessoa, depois de alguma convivência e cumplicidade, o vejo. O pilar que resta incólume depois de tudo ruir à volta. Ou seja, alguém em quem se pode absolutamente depositar a dádiva da confiança. 

Conhecemo-nos porque amigos comuns acharam curioso termos publicado o nosso primeiro livro em 2013, quase ao mesmo tempo: o meu com lançamento a 9 de Abril, o do Paulo a 19 de Abril. Da comunhão de ser novato na função de escrever e publicar romances – porque o Paulo vem de outras escritas, o jornalismo – nasceu uma curiosidade, depois da curiosidade uma empatia, e logo a inevitável amizade. Mas sobre isso não me alongarei: podem reler o maravilhoso texto do Paulo “Uma Coisa Sem Importância Aparente” publicado aqui no blogue há uns meses.

fotografia de Paulo Pires
Como outros marujos desta NAU (curiosa particularidade, ou talvez nem tanto, em tratando-se de escritores), também o Paulo guarda debaixo da sua inata sociabilidade uma forma muito peculiar de se virar para dentro que, citando o perfil escrito pela Carla (M. Soares) sobre a Ana (Saragoça), “os que se viram para dentro adivinham uns nos outros”. E, acrescento eu, respeitam uns nos outros. Partilhar silêncios é talvez uma das coisas mais difíceis, sobretudo entre pessoas que mal começaram a conhecer-se. Com o Paulo, já partilhei longos silêncios entre paisagens contemplativas ou quilos de sacas de favas para descascar. Não há nada mais extraordinariamente belo e raro numa amizade.  

Porém, dentro dos silêncios, há um mundo fervilhante, denso e quase tumultuoso que se esconde por debaixo das águas seguras e tranquilas em que se lhe movem os gestos. A determinação e a resiliência de quem sabe qual é o caminho a trilhar e não abdica do sonho face às dificuldades, sempre com o seu apurado sentido de humor, são uma inspiração e um exemplo. E esse mundo está nas suas personagens, nos seus textos, nos seus romances, no “Revolução Paraíso” e nos que, a publicar em breve, a sua generosidade já me permitiu ler. Não deixem, portanto, de entrar nesse mundo, lendo-o!

Ainda conheço pouco o Paulo. Mas sei que vou gostar cada vez mais do que conhecer. 


     

22/07/2014

Uma cura pela literatura

[Cristina Drios e a leitura de «Todos os Dias São Meus»]

A leitura pode proporcionar, já se sabe, conhecimento, entretenimento e terapia. E é desta última qualidade que, por estranho que vos pareça, vos falarei, a propósito da leitura do romance “Todos os Dias São Meus” da Ana Saragoça. De facto, a vertente terapêutica da literatura está comprovada por estudos científicos. Talvez não saibam que, por exemplo, em França, durante a Grande Guerra, a leitura de romances específicos era recomendada aos soldados, nos seus tempos livres. Recentemente, li algures que nos Estados Unidos da América, os psicólogos “receitavam” regularmente livros em vez de comprimidos. Sem consultar nenhum especialista, sempre me dei bem com esta terapêutica. Se estiver mal, não tomo nada, pego num livro. Se o livro for bom, em geral, começa a fazer efeito após meia hora, uma hora de leitura. Se o livro for excelente, como no caso de “Todos os Dias São Meus”, começa a fazer efeito a partir das primeiras linhas. Não existe substância química – que eu saiba – tão eficaz. O problema é, tal como com os medicamentos, não sabermos à partida se o que estamos a tomar é verdadeiramente adequado ao nosso mal. Certos livros são apenas placebos, outros podem ser uma óptima terapêutica mas não ser a indicada para o nosso caso. Ora, nunca me tinha acontecido ler um livro que me curasse. Era, na verdade, uma coisa sem importância, uma ideia parva, de que só nos lembramos de vez em quando, como uma urticária incomodativa, e que guardamos, sem contar a ninguém, até perdermos totalmente o sentido do ridículo. Como já o perdi, vou então contar-vos: toda a vida morei num prédio com elevador e toda a vida sofri de alguma imaginação. E sempre que entrava no átrio do prédio, a penumbra e o fresquinho faziam-me temer que ao chegar o elevador, abrindo-se a porta exterior de rompante, se me deparasse um morto, por detrás das grades. Nenhum morto em particular, um morto qualquer, desconhecido! Cheguei mesmo a escrever um conto sobre isso. Foi, porém, a leitura do romance “Todos os Dias São Meus” da Ana Saragoça que me curou. Sem vos desvendar a intriga, imaginem o meu espanto ao, logo nas primeiras páginas do livro, me deparar com esta cena:

“E estava muito desfigurada? Quando eu lá cheguei já não consegui vê-la, estavam a levá-la toda tapada. Nem me deixaram entrar no elevador, caramba, também que exagero, afinal uma pessoa mora aqui, tem direitos, não é, se calhar até podia encontrar alguma coisa que ajudasse a Polícia. E não está certo obrigarem uma pessoa a subir as escadas a pé. Tiravam o corpo, limpavam, e deixavam as pessoas irem à vida delas.
Mas olhe que foi uma coisa feita com cuidado. À hora do jantar, num elevador, podia ter sido apanhado.”
Todos os Dias São Meus (pág. 12)


O que é certo é que depois de ler o “Todos os Dias São Meus” nunca mais temi encontrar um morto qualquer, desconhecido, sem rosto nem identidade, esvaído dentro do elevador. Nunca mais me assustei e estremeci ao abrir a porta e ao espreitar pelas grades. Agora entro no átrio do prédio, adianto-me na penumbra e no fresquinho, carrego no botão de chamada, oiço o gemer da maquinaria, o resfolegar ao aterrar no rés do chão, a campainha perlimpimpim que retine, abro a porta de rompante e lá está a tua personagem, Ana Saragoça! Está mortinha da silva mas é uma conhecida, uma amiga! Os vizinhos, se espreitarem pelo óculo, desconfiarão do meu sorriso tolo, paciência... E assim em todos os meus dias, sem excepção, por vezes repetidamente, porque moro no sexto, “Todos os Dias São Meus”!

19/06/2014

ser apenas lágrima

[Cristina Drios e a leitura de «O Intrínseco de Manolo»]

“Marília adormece só, como só se recordava gente desde sempre, passam as horas e ninguém lhe nota a falta, e ela a de ninguém também. Escorre-lhe água pela face, são centenas, milhares de gotas as que naquela noite lhe lavam cara e alma, e é quando Marília sente a estranheza do calor de uma lágrima e, perplexa, recorda todos os momentos em que, pulando-lhe o coração, se sentiu alguém e feliz, que entende que nunca ninguém a entenderá. E é nessa lágrima final que se deixa morrer de vez no mundo dos lúcidos e parte na lucidez do mundo dos loucos.” 
O Intrínseco de Manolo (pág. 81)


Marília pouco se dá a nós, leitores, e, no entanto, seria, para mim, personagem de solidão e vazio, como se, feita de ar, flutuasse acima da realidade, da imundice e da pulhice que grassam em Cousa Vã, e nem sequer conseguisse ser beliscada por elas, merecedora de um livro inteiro. “Só, como só se recordava gente desde sempre”: como todas as grandes personagens carrega com dignidade o fardo da condição humana enquanto, ao mesmo tempo, é a antítese de tudo o que há de porco, feio e mau, de terreno, físico e suado, noutras personagens do romance. A lágrima quente que lhe desce pelo rosto já foi chorada por santos, por loucos e por nós, leitores. Todos somos, desse modo, um pouco Marília. Eu muito gostaria de ser apenas lágrima. 

"Summer Interior", de Edward Hopper
“E é aqui que nós paramos e ficamos também, com Marília e o seu mundo cheio de horas completas e momentos vazios, descobrindo, abismados, a magnitude da mediocridade das gentes de fácil julgamento.”

03/06/2014

a viagem da timoneira Cristina Drios

Na passagem de testemunho, relembramos a viagem da timoneira Cristina Drios.

Festival du Premier Roman de Chambéry
imagem: Arlette Darbord
Tudo começou, literalmente, com a crónica sobre o primeiro jantar NAU. Depois houve um perfil traçado pela Raquel Serejo Martins, citações e comentários feitos pelas marujas Carla M. Soares (um rapaz com gosto por coelhos no chapéu), Sónia Alcaso (o medo e a solidão da guerra), Ana Saragoça (o espaço físico da tradutora), uma evocação do Paulo M. Morais (uma coisa sem importância aparente), um poema da Raquel Serejo Martins inspirado em «Os Olhos de Tirésias», e as respostas da timoneira ao questionário de Proust. Pelo meio, a Cristina ainda teve tempo de ir a França participar no Festival do Primeiro Romance de Chambéry, o que nos encheu de orgulho.

Resta-nos agradecer ao Mateus Mateus e restantes personagens criados pela Cristina Drios, por nos terem proporcionado uma belíssima primeira viagem do Colectivo NAU.

29/05/2014

o espaço físico da tradutora

[Ana Saragoça e «Os Olhos de Tirésias»]

"A secretária, o contraplacado liso, cinzento-rotina, a fazer um ângulo recto à posição da janela, a cadeira e eu. Neste espaço de escritório, a janela é o astro-rei à volta do qual gravitam as estantes, as cadeiras, a secretária, canecas de chá, um boião de lápis, calendários. Livros fazem-se esquecidos no pó das prateleiras, há postais, resmas de papel por desembrulhar, papel usado para rascunho, restos de papel azul de vinte e cinco linhas, mais livros e ainda outras pilhas e montes de livros. Alguns são edições nacionais de traduções minhas. É um trabalho fantástico, que me enreda na complexidade de cada uma das línguas, o de traduzir, lidando com a cor e o cheiro das palavras. São bailarinas caprichosas, prima-donas exigentes, ora secas, ora sensuais, e, por vezes, é difícil encontrar aquela que melhor dança em certo contexto e sintaxe."
Os Olhos de Tirésias (pág. 117) 

A tradutora, invisível, no seu espaço sagrado

Uma das condições que estabelecemos ao embarcar na nossa NAU foi a de não cairmos no muito português desporto de cantarmos loas uns aos outros. A outra, que a precedia, era a de nos lermos uns aos outros e de destacarmos de cada livro uma citação sobre a qual quiséssemos ‘trabalhar’ o nosso modo de ler a obra do colega de tripulação. 

Falar sobre Os Olhos de Tirésias sem desvendar algum segredo é impossível, e seria uma injustiça privar o leitor de ir saboreando cada nova surpresa. Para quem, como eu, tem paixão por história, por música e por literatura, o livro é como um bufete que a cada passo revela uma iguaria. 

Escolhi este trecho porque, ao lê-lo, senti que a Cristina Drios, alguém com quem nunca falara até há meses, tinha de algum modo entrado no espaço sagrado da minha área física de trabalho. Mais, que tinha entrado na minha cabeça de tradutora e tinha tocado naquela parte intimíssima de mim que me faz amar o que faço: olhar em redor e sentir-me reconfortada com a companhia de livros e papéis; olhar para as palavras de um original e perder-me na imensa e deleitosa dificuldade de as transpor para português da melhor maneira possível – e há sempre uma maneira melhor, um termo exacto que passou a tarde toda a esquivar-se-me para me assaltar a meio da noite, obrigando-me a acender a luz e a escrevinhá-lo à pressa antes de conquistar o direito de voltar a adormecer. 

E esta é de facto uma das pouquíssimas partes do livro que posso partilhar com quem não o leu sem lhe roubar o prazer da descoberta das pequenas jóias que as suas páginas encerram. Só lhes posso dizer uma coisa: é uma caça ao tesouro que vale bem a pena, portanto leiam.   

27/05/2014

20 confissões proustianas de Cristina Drios

A minha ideia de perfeita felicidade: 
Uma tarde de verão, numa rede, a ler um grande romance.

O meu maior medo: 
A dor física.

A característica que mais me desagrada em mim: 
Ter várias características que me desagradam.

A característica que mais me desagrada nos outros: 
A arrogância.   

As ocasiões em que minto: 
Quando escrevo...

A minha qualidade preferida num homem: 
A generosidade. Também é a minha qualidade preferida numa mulher.

O talento que mais gostaria de ter: 
Saber tocar um instrumento qualquer de ouvido.

O que considero o meu maior feito: 
Ter subido e descido 22km de montanha em plena floresta tropical sem qualquer preparação física e psicológica e ter escrito um romance, também sem qualquer preparação, física e psicológica. 

"uma" aldeia na serra da Lousã
imagem: ADXTUR / Foge Comigo
Se morresse e voltasse como pessoa ou objecto, seria: 
Alfarrabista! Um livro! 

Onde gostaria mais de viver: 
Entre Lisboa, Roma e Istambul, uma ilha grega e uma aldeia de xisto na serra da Lousã. Considerando que vivo entre a primeira e a última, já me considero afortunada.

O meu bem mais precioso: 
Livro(s)!

A minha ocupação preferida: 
Ler. Ler. Ler.

A minha característica mais vincada: 
A persistência.

O que valorizo mais nos meus amigos: 
A lealdade. 
Os meus escritores preferidos: 
Tenho livros preferidos mais do que escritores preferidos: “O Estrangeiro”, “Crime e Castigo”, “O Tambor de Lata”, “O Vermelho e o Negro”,  “As Flores do Mal”, entre outros, estão nessa lista.

O meu herói na ficção: 
Por acaso, é um anti-herói. Meursault. 

Os meus heróis na vida real: 
As pessoas que vivem, neste país, com o ordenado mínimo.

Os meus nomes preferidos: 
Francisco – João – Isabel – Teresa. 

Como gostaria de morrer: 
Muito depressa!

O meu lema: 
Colherás o que semeaste.

25/05/2014

Tudo vêem os olhos de Tirésias

[poema de Raquel Serejo Martins, inspirado em «Os Olhos de Tirésias»]

Trincheiras na Flandres,
na Primeira Guerra Mundial,
em La Lys (1918)
fonte: Wikipedia
(scan de "História de Portugal"
Vol VIII, Quidnovi) 
Na Flandres
foi cavador de valas,
fazedor de trincheiras e,
quando calhou,
e calhou muito,
também maqueiro
e coveiro.
Era suposto ter sido neveiro,
pilão e sapa e nevoeiro.

Na Flandres o frio.
As madrugadas glaciais.
As ratazanas nas tocas.
O aconchego das meias de lã
dentro das botas.
As botas: a última coisa que um soldado perde,
a primeira: a compaixão.

Na Flandres o medo
a virar as pessoas do avesso.
A artilharia pesada sucedâneo de tempestade.
E depois da tempestade
não a bonança.
A terra em ruínas,
em silêncio.
E não silêncio,
um barulho surdo,
ensurdecedor.

Na Flandres o amor,
dois olhos azuis e um relógio.
O coração a bater como um relógio,
ou o relógio ao lado do coração
sem conseguir dizer que horas são.

Na Flandres nem figos maduros,
nem pássaros verdes.
O silêncio de ruínas.
O silêncio de corpos.
O frio maior,
e sobre tudo o Inverno: infinito.

Tudo tem seu fim, mesmo na Flandres!

Assim, inexoravelmente depois a Primavera,
e sobre a cal das sepulturas
papoilas a florescer aos molhos.
As hastes a tremerem na brisa.
As pétalas coradas pelo sangue vertido.
Que ao ler isto não chorem teus olhos.

Enquanto nos jardins de Lisboa,
aqui d’el-rei,
baixem a ponte levadiça,
guardas às seteiras,
sentinelas a postos,
às duas da tarde,
ao sol são sempre duas da tarde,
se morre melhor,
ou apenas,
de amor,
de tédio,
e de solidão.

Enfim, coisas que ninguém percebe ou vê,
ou Tirésias num banco de jardim,
de olhos nos turistas que passam.

23/05/2014

um festival do primeiro romance para a Cristina

A Cristina Drios está de malas aviadas para participar na 27.ª edição do Festival do Primeiro Romance de Chambéry, depois de o romance «Os Olhos de Tirésias» ter sido o vencedor da selecção portuguesa, feita pelos grupos de leitores da rede das Bibliotecas Municipais de Oeiras, da Biblioteca Calouste Gulbenkian de Paris, do Instituto Camões de Lyon e dos alunos de português da Universidade de Turim . É com muito orgulho e emoção que os restantes marujos do Colectivo NAU dizem "bon voyage, Cristina!" E ficamos todos à espera do relato dessa merecida e certamente inesquecível experiência.








[Notícia publicada no sítio Grupos de Leitores - Oeiras a Ler]

"Cristina Drios, autora do livro Os Olhos de Tirésias, vai representar Portugal no Festival du Premier Roman de Chambéry que este ano decorre de 22 a 25 de Maio na vila francesa de Chambéry.
Os grupos de leitores das Bibliotecas Municipais de Oeiras representam Portugal neste Festival literário e são responsáveis pela selecção dos primeiros romances editados no nosso país. Desta selecção sairá o escritor que estará presente no Festival do Primeiro Romance."


[Notícia publicada no sítio Instituto Franco Português]

"Este ano, terá lugar de 22 a 25 de Maio o Festival do primeiro romance de Chambéry.
Entre os premiados europeus, a autora Cristina Drios foi seleccionada com o seu primeiro romance, Os Olhos de Tirésias.

Algumas palavras sobre a premiada e o seu romance.
Cristina Drios é advogada em Lisboa.
Em Os olhos de Tirésias, o seu primeiro romance, conta duas histórias distintas no tempo.
Uma desenrola-se durante a primeira guerra mundial e a outra nos nossos dias.
Estas histórias acabam por se encontrar à medida que uma jovem junta os documentos em falta sobre a história do seu avô, Mateus Mateus, soldado português durante a guerra.

Algumas palavras sobre o festival do primeiro romance de Chambéry
O festival destina-se a um público de leitores cada vez mais alargado e desde há alguns anos aos primeiros romances europeus na língua de origem.
O objectivo do festival é simultaneamente o da promoção do livro e da leitura, a descoberta de novos talentos e a valorização da literatura europeia.
O festival encerra-se todos os anos com o voto de cerca de 3000 leitores não profissionais.

Para mais informações sobre o festival : http://www.festivalpremierroman.com/ED27/auteurs_europeens.html"

22/05/2014

o medo e a solidão da guerra

[citações de «Os Olhos de Tirésias» escolhidas por Sónia Alcaso]

Infantaria australiana em Ypres
fonte: Wikipedia / Australian War Memorial 
"Alvin Martin parou, sempre colado à lama como um réptil, para retomar fôlego. Ficou imóvel durante minutos infindáveis. Depois, com vagar, acocorou-se e, passado um longo momento, ergueu-se na escuridão, meio corpo primeiro, todo junto depois. Ir e voltar. Voltar vivo. Voltar inteiro. Avançou, a lama a engolir-lhe cada passo. Temia a própria temeridade, não pelo desfecho do momento que para ele era de antemão sabido, mas porque o medo criara dentro de si raízes tão fundas como aquelas à sua volta, enterradas no lamaçal, mantendo de pé as árvores mortas. Um homem está sempre só, pensou, que diferença faz?" (pág. 78-79)

Alvin Martin é uma das personagens de Cristina Drios que nos entram pela alma dentro. E entram, enquanto grito, enquanto superação de um corpo a falhar, replicado várias vezes noutros corpos que igualmente foram devastados pela guerra.

Com Alvin Martin voltamos, também nós quase-mortos, a esse cenário de luta e medo e solidão. Não há como ficarmos inteiro. Perdemos o estômago e o coração. E, no entanto, são passagens como esta (imensas ao longo d'Os Olhos de Tirésias) que nos fazem valorizar a vida. E este tempo que vivemos que, bem vistas as coisas, é menos mau do que o tempo de Alvin. Ao dele regressamos, vezes sem fim, nas palavras deste livro e dele saímos para respirar, mas carregados de uma aprendizagem quase sem pausas. Obrigada, Cristina!

"Os vultos moviam-se na noite como sombras chinesas, deixando Alvin Martin sozinho a vinte metros da trincheira inimiga, na mira do atirador, sem qualquer cobertura, só ele sabendo que um homem condenado à solidão dentro da sua pele nunca pode ser abandonado, porque não há partilha, não há forma de tocar em ninguém, nem com todas as palavras certas, aquilo que sente." (pág. 47)

20/05/2014

naturezas-mortas e rosnadelas de cão

[citação de «Os Olhos de Tirésias» escolhida por João Rebocho Pais]

"O velho conduziu-me, arrastando os passos pelo linóleo gasto, a uma sala ao fundo do corredor. Também pelas paredes subia, do chão ao tecto, o mesmo cansaço que parecia entorpecer toda a cidade, e uma inércia modorrenta esvaía-se das estampas, com naturezas-mortas, desbotadas. Sentei-me enquanto me pedia que lhe lesse a carta, o cão, Quieto Adamastor, a rosnar-me aos pés." (pág. 50)

Natureza morta, de Paul Cézanne

15/05/2014

uma coisa sem importância aparente

[texto: Paulo M. Morais / fotografia: Porto Editora]

"Cumprimentámo-nos, passando a ser dois a tentar, numa cumplicidade instantânea, abrir o chapéu. Perguntar-me-ão, porquê contar isto, este pequeno episódio sem importância, duas pessoas acabam de se conhecer e imediatamente se dedicam a um objectivo comum, o de abrir um chapéu-de-sol encravado, numa displicente sintonia? Dir-vos-ei – isso, sim, é a minha única certeza – que as coisas sem importância aparente, quase irrelevantes no castelo de cartas das nossas vidas, são aquelas que têm um verdadeiro significado. Naturalmente, só nos apercebemos disso mais tarde, reflectindo um pouco sobre os acontecimentos.
Pois eis: duas pessoas, dois desconhecidos, atrapalhados num gesto inócuo, rindo da sua inabilidade, e isso revela, gostaram logo um do outro, quiseram agradar-se, não por pura cortesia, mas porque necessitaram, na primeira impressão, de dizer um ao outro quem eram." 
Os Olhos de Tirésias (pág. 21)


As páginas de «Os Olhos de Tirésias» prestam-se à citação, esse exercício de extirpar pedaços que, por si só, conseguem representar um todo. Mas agora em que tenho de escolher uma passagem (e por querer escolher somente uma única passagem), não poderia ter escolhido outra que não esta a falar-me das “coisas sem importância aparente”. Primeiro porque me revela um modo diferente de olhar para o mundo. Sim, é isso mesmo: o castelo de cartas da nossa vida é feito de gestos aparentemente inócuos.



Mas existe outra razão para a minha escolha. É que eu vivi esta descrição quando, na Feira do Livro de Lisboa (2013), eu e a Cristina nos sentámos frente a frente para crescermos de um conhecimento "virtual" para um conhecimento "real". Não havia preocupação em agradar ao outro (já chegámos àquela idade em que não se forjam elos por frete ou obrigação), mas a verdade é que nos rimos das nossas inabilidades. Ao início da tarde troçámos de eu estar sentado numa poltrona jactante, “feito escritor” rodeado de escritores, a autografar um «Revolução Paraíso» para a futura leitora Cristina. E, no final da tarde, troçámos de ela estar sentada numa cadeira periclitante, “feita escritora” rodeada de escritores, a assinar um «Os Olhos de Tirésias» para o futuro leitor Paulo. Não éramos desconhecidos, mas posso afirmar que naquela tarde selámos a amizade anteriormente prenunciada, talvez por lermos um no outro que estávamos sob o mesmo guarda-sol encravado, a tentar escapar das mesmas cargas de água. E, sem que então o soubéssemos, talvez tenha nascido ali a semente NAU.

Após o nosso encontro, faltava a sintonia de abrir o livro autografado e gostar do que lá estava escrito. Tirésias é um romance feito para ler na solidão da noite, aconchegado por uma manta, a imaginar o crepitar duma lareira. Aquelas palavras rejeitam a confusão. Pedem silêncio e tempo. Não sentimos pressa por tragar páginas; sentimos vontade de fazer perdurar o prazer da leitura. Exactamente como me acontece com a Cristina, onde encontro uma amizade rara, daquelas para saborear ao longo dos dias, semanas, meses, anos, desfrutando serenamente da sorte que foi termo-nos cruzado por causa dos nossos livros e de, num riso partilhado sobre as nossas inseguranças e certezas, termos mostrado um ao outro quem éramos.

Quando leio a Cristina Drios, reconheço uma escritora. E quando ela me lê, faz-me acreditar que sou um escritor. Por isso, nem que seja entre nós, talvez o sejamos mesmo.