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04/02/2015

A GRANDE GUERRA, a história e os seus intervenientes.


O romance “Os Olhos de Tirésias” tem como pano de fundo a participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial ou Grande Guerra, cujo centenário agora se recorda. Este foi, durante muito tempo, um tema non grato, mormente durante o Estado Novo, e por vezes, desconhecido de muitos portugueses.

Mas Portugal marcou presença em duas frentes de guerra, primeiro em África, na defesa das suas colónias, e a partir de 1917, na Flandres, para onde seguiu, em navios ingleses, e se manteve sob comando britânico, o Corpo Expedicionário Português (C.E.P.).

O sector português cobria cerca de doze quilómetros de frente e foi aí que, na madrugada de 9 de Abril de 1918, os alemães atacaram, lançando sobre a parte mais frágil das defesas inimigas, as suas divisões frescas e bem apetrechadas. A baptizada “Operação Georgette” alemã (que deu nome a uma das personagens femininas de “Os Olhos de Tirésias”) ficou assim conhecida na história portuguesa como um dos seus capítulos mais tristes, a Batalha de La Lys, nome do rio que dividia os contendores.

Este é, em minha opinião – por isso o escolhi para pano de fundo do meu romance –, um tema a aprofundar. Aqui vos deixo, assim, uma sugestão (não exaustiva!) de livros de autores portugueses para quem queira saber um pouco mais sobre esta parte da nossa história e dos seus intervenientes nela.

Em primeiro lugar, sugiro para uma contextualização histórica completa, “Portugal e a Grande Guerra 1914-1918” dos Coronéis Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes. Sugiro também “Das Trincheiras com Saudade, A vida quotidiana dos militares portugueses durante a Primeira Guerra Mundial” de Isabel Pestana Marques, um livro que nos descreve de forma vívida o dia-a-dia dos soldados portugueses nas trincheiras.  
















Por fim, dos muitos diários, testemunhos e relatos ficcionados escritos pelos intervenientes da época ressalto dois: “A Malta das Trincheiras, Migalhas da Grande Guerra 1917-1918” de André Brun e a  “Memórias da Grande Guerra” de Jaime Cortesão.




















Aqui ficam as sugestões! Boas leituras!

03/06/2014

a viagem da timoneira Cristina Drios

Na passagem de testemunho, relembramos a viagem da timoneira Cristina Drios.

Festival du Premier Roman de Chambéry
imagem: Arlette Darbord
Tudo começou, literalmente, com a crónica sobre o primeiro jantar NAU. Depois houve um perfil traçado pela Raquel Serejo Martins, citações e comentários feitos pelas marujas Carla M. Soares (um rapaz com gosto por coelhos no chapéu), Sónia Alcaso (o medo e a solidão da guerra), Ana Saragoça (o espaço físico da tradutora), uma evocação do Paulo M. Morais (uma coisa sem importância aparente), um poema da Raquel Serejo Martins inspirado em «Os Olhos de Tirésias», e as respostas da timoneira ao questionário de Proust. Pelo meio, a Cristina ainda teve tempo de ir a França participar no Festival do Primeiro Romance de Chambéry, o que nos encheu de orgulho.

Resta-nos agradecer ao Mateus Mateus e restantes personagens criados pela Cristina Drios, por nos terem proporcionado uma belíssima primeira viagem do Colectivo NAU.

29/05/2014

o espaço físico da tradutora

[Ana Saragoça e «Os Olhos de Tirésias»]

"A secretária, o contraplacado liso, cinzento-rotina, a fazer um ângulo recto à posição da janela, a cadeira e eu. Neste espaço de escritório, a janela é o astro-rei à volta do qual gravitam as estantes, as cadeiras, a secretária, canecas de chá, um boião de lápis, calendários. Livros fazem-se esquecidos no pó das prateleiras, há postais, resmas de papel por desembrulhar, papel usado para rascunho, restos de papel azul de vinte e cinco linhas, mais livros e ainda outras pilhas e montes de livros. Alguns são edições nacionais de traduções minhas. É um trabalho fantástico, que me enreda na complexidade de cada uma das línguas, o de traduzir, lidando com a cor e o cheiro das palavras. São bailarinas caprichosas, prima-donas exigentes, ora secas, ora sensuais, e, por vezes, é difícil encontrar aquela que melhor dança em certo contexto e sintaxe."
Os Olhos de Tirésias (pág. 117) 

A tradutora, invisível, no seu espaço sagrado

Uma das condições que estabelecemos ao embarcar na nossa NAU foi a de não cairmos no muito português desporto de cantarmos loas uns aos outros. A outra, que a precedia, era a de nos lermos uns aos outros e de destacarmos de cada livro uma citação sobre a qual quiséssemos ‘trabalhar’ o nosso modo de ler a obra do colega de tripulação. 

Falar sobre Os Olhos de Tirésias sem desvendar algum segredo é impossível, e seria uma injustiça privar o leitor de ir saboreando cada nova surpresa. Para quem, como eu, tem paixão por história, por música e por literatura, o livro é como um bufete que a cada passo revela uma iguaria. 

Escolhi este trecho porque, ao lê-lo, senti que a Cristina Drios, alguém com quem nunca falara até há meses, tinha de algum modo entrado no espaço sagrado da minha área física de trabalho. Mais, que tinha entrado na minha cabeça de tradutora e tinha tocado naquela parte intimíssima de mim que me faz amar o que faço: olhar em redor e sentir-me reconfortada com a companhia de livros e papéis; olhar para as palavras de um original e perder-me na imensa e deleitosa dificuldade de as transpor para português da melhor maneira possível – e há sempre uma maneira melhor, um termo exacto que passou a tarde toda a esquivar-se-me para me assaltar a meio da noite, obrigando-me a acender a luz e a escrevinhá-lo à pressa antes de conquistar o direito de voltar a adormecer. 

E esta é de facto uma das pouquíssimas partes do livro que posso partilhar com quem não o leu sem lhe roubar o prazer da descoberta das pequenas jóias que as suas páginas encerram. Só lhes posso dizer uma coisa: é uma caça ao tesouro que vale bem a pena, portanto leiam.   

25/05/2014

Tudo vêem os olhos de Tirésias

[poema de Raquel Serejo Martins, inspirado em «Os Olhos de Tirésias»]

Trincheiras na Flandres,
na Primeira Guerra Mundial,
em La Lys (1918)
fonte: Wikipedia
(scan de "História de Portugal"
Vol VIII, Quidnovi) 
Na Flandres
foi cavador de valas,
fazedor de trincheiras e,
quando calhou,
e calhou muito,
também maqueiro
e coveiro.
Era suposto ter sido neveiro,
pilão e sapa e nevoeiro.

Na Flandres o frio.
As madrugadas glaciais.
As ratazanas nas tocas.
O aconchego das meias de lã
dentro das botas.
As botas: a última coisa que um soldado perde,
a primeira: a compaixão.

Na Flandres o medo
a virar as pessoas do avesso.
A artilharia pesada sucedâneo de tempestade.
E depois da tempestade
não a bonança.
A terra em ruínas,
em silêncio.
E não silêncio,
um barulho surdo,
ensurdecedor.

Na Flandres o amor,
dois olhos azuis e um relógio.
O coração a bater como um relógio,
ou o relógio ao lado do coração
sem conseguir dizer que horas são.

Na Flandres nem figos maduros,
nem pássaros verdes.
O silêncio de ruínas.
O silêncio de corpos.
O frio maior,
e sobre tudo o Inverno: infinito.

Tudo tem seu fim, mesmo na Flandres!

Assim, inexoravelmente depois a Primavera,
e sobre a cal das sepulturas
papoilas a florescer aos molhos.
As hastes a tremerem na brisa.
As pétalas coradas pelo sangue vertido.
Que ao ler isto não chorem teus olhos.

Enquanto nos jardins de Lisboa,
aqui d’el-rei,
baixem a ponte levadiça,
guardas às seteiras,
sentinelas a postos,
às duas da tarde,
ao sol são sempre duas da tarde,
se morre melhor,
ou apenas,
de amor,
de tédio,
e de solidão.

Enfim, coisas que ninguém percebe ou vê,
ou Tirésias num banco de jardim,
de olhos nos turistas que passam.

23/05/2014

um festival do primeiro romance para a Cristina

A Cristina Drios está de malas aviadas para participar na 27.ª edição do Festival do Primeiro Romance de Chambéry, depois de o romance «Os Olhos de Tirésias» ter sido o vencedor da selecção portuguesa, feita pelos grupos de leitores da rede das Bibliotecas Municipais de Oeiras, da Biblioteca Calouste Gulbenkian de Paris, do Instituto Camões de Lyon e dos alunos de português da Universidade de Turim . É com muito orgulho e emoção que os restantes marujos do Colectivo NAU dizem "bon voyage, Cristina!" E ficamos todos à espera do relato dessa merecida e certamente inesquecível experiência.








[Notícia publicada no sítio Grupos de Leitores - Oeiras a Ler]

"Cristina Drios, autora do livro Os Olhos de Tirésias, vai representar Portugal no Festival du Premier Roman de Chambéry que este ano decorre de 22 a 25 de Maio na vila francesa de Chambéry.
Os grupos de leitores das Bibliotecas Municipais de Oeiras representam Portugal neste Festival literário e são responsáveis pela selecção dos primeiros romances editados no nosso país. Desta selecção sairá o escritor que estará presente no Festival do Primeiro Romance."


[Notícia publicada no sítio Instituto Franco Português]

"Este ano, terá lugar de 22 a 25 de Maio o Festival do primeiro romance de Chambéry.
Entre os premiados europeus, a autora Cristina Drios foi seleccionada com o seu primeiro romance, Os Olhos de Tirésias.

Algumas palavras sobre a premiada e o seu romance.
Cristina Drios é advogada em Lisboa.
Em Os olhos de Tirésias, o seu primeiro romance, conta duas histórias distintas no tempo.
Uma desenrola-se durante a primeira guerra mundial e a outra nos nossos dias.
Estas histórias acabam por se encontrar à medida que uma jovem junta os documentos em falta sobre a história do seu avô, Mateus Mateus, soldado português durante a guerra.

Algumas palavras sobre o festival do primeiro romance de Chambéry
O festival destina-se a um público de leitores cada vez mais alargado e desde há alguns anos aos primeiros romances europeus na língua de origem.
O objectivo do festival é simultaneamente o da promoção do livro e da leitura, a descoberta de novos talentos e a valorização da literatura europeia.
O festival encerra-se todos os anos com o voto de cerca de 3000 leitores não profissionais.

Para mais informações sobre o festival : http://www.festivalpremierroman.com/ED27/auteurs_europeens.html"

22/05/2014

o medo e a solidão da guerra

[citações de «Os Olhos de Tirésias» escolhidas por Sónia Alcaso]

Infantaria australiana em Ypres
fonte: Wikipedia / Australian War Memorial 
"Alvin Martin parou, sempre colado à lama como um réptil, para retomar fôlego. Ficou imóvel durante minutos infindáveis. Depois, com vagar, acocorou-se e, passado um longo momento, ergueu-se na escuridão, meio corpo primeiro, todo junto depois. Ir e voltar. Voltar vivo. Voltar inteiro. Avançou, a lama a engolir-lhe cada passo. Temia a própria temeridade, não pelo desfecho do momento que para ele era de antemão sabido, mas porque o medo criara dentro de si raízes tão fundas como aquelas à sua volta, enterradas no lamaçal, mantendo de pé as árvores mortas. Um homem está sempre só, pensou, que diferença faz?" (pág. 78-79)

Alvin Martin é uma das personagens de Cristina Drios que nos entram pela alma dentro. E entram, enquanto grito, enquanto superação de um corpo a falhar, replicado várias vezes noutros corpos que igualmente foram devastados pela guerra.

Com Alvin Martin voltamos, também nós quase-mortos, a esse cenário de luta e medo e solidão. Não há como ficarmos inteiro. Perdemos o estômago e o coração. E, no entanto, são passagens como esta (imensas ao longo d'Os Olhos de Tirésias) que nos fazem valorizar a vida. E este tempo que vivemos que, bem vistas as coisas, é menos mau do que o tempo de Alvin. Ao dele regressamos, vezes sem fim, nas palavras deste livro e dele saímos para respirar, mas carregados de uma aprendizagem quase sem pausas. Obrigada, Cristina!

"Os vultos moviam-se na noite como sombras chinesas, deixando Alvin Martin sozinho a vinte metros da trincheira inimiga, na mira do atirador, sem qualquer cobertura, só ele sabendo que um homem condenado à solidão dentro da sua pele nunca pode ser abandonado, porque não há partilha, não há forma de tocar em ninguém, nem com todas as palavras certas, aquilo que sente." (pág. 47)

20/05/2014

naturezas-mortas e rosnadelas de cão

[citação de «Os Olhos de Tirésias» escolhida por João Rebocho Pais]

"O velho conduziu-me, arrastando os passos pelo linóleo gasto, a uma sala ao fundo do corredor. Também pelas paredes subia, do chão ao tecto, o mesmo cansaço que parecia entorpecer toda a cidade, e uma inércia modorrenta esvaía-se das estampas, com naturezas-mortas, desbotadas. Sentei-me enquanto me pedia que lhe lesse a carta, o cão, Quieto Adamastor, a rosnar-me aos pés." (pág. 50)

Natureza morta, de Paul Cézanne

15/05/2014

uma coisa sem importância aparente

[texto: Paulo M. Morais / fotografia: Porto Editora]

"Cumprimentámo-nos, passando a ser dois a tentar, numa cumplicidade instantânea, abrir o chapéu. Perguntar-me-ão, porquê contar isto, este pequeno episódio sem importância, duas pessoas acabam de se conhecer e imediatamente se dedicam a um objectivo comum, o de abrir um chapéu-de-sol encravado, numa displicente sintonia? Dir-vos-ei – isso, sim, é a minha única certeza – que as coisas sem importância aparente, quase irrelevantes no castelo de cartas das nossas vidas, são aquelas que têm um verdadeiro significado. Naturalmente, só nos apercebemos disso mais tarde, reflectindo um pouco sobre os acontecimentos.
Pois eis: duas pessoas, dois desconhecidos, atrapalhados num gesto inócuo, rindo da sua inabilidade, e isso revela, gostaram logo um do outro, quiseram agradar-se, não por pura cortesia, mas porque necessitaram, na primeira impressão, de dizer um ao outro quem eram." 
Os Olhos de Tirésias (pág. 21)


As páginas de «Os Olhos de Tirésias» prestam-se à citação, esse exercício de extirpar pedaços que, por si só, conseguem representar um todo. Mas agora em que tenho de escolher uma passagem (e por querer escolher somente uma única passagem), não poderia ter escolhido outra que não esta a falar-me das “coisas sem importância aparente”. Primeiro porque me revela um modo diferente de olhar para o mundo. Sim, é isso mesmo: o castelo de cartas da nossa vida é feito de gestos aparentemente inócuos.



Mas existe outra razão para a minha escolha. É que eu vivi esta descrição quando, na Feira do Livro de Lisboa (2013), eu e a Cristina nos sentámos frente a frente para crescermos de um conhecimento "virtual" para um conhecimento "real". Não havia preocupação em agradar ao outro (já chegámos àquela idade em que não se forjam elos por frete ou obrigação), mas a verdade é que nos rimos das nossas inabilidades. Ao início da tarde troçámos de eu estar sentado numa poltrona jactante, “feito escritor” rodeado de escritores, a autografar um «Revolução Paraíso» para a futura leitora Cristina. E, no final da tarde, troçámos de ela estar sentada numa cadeira periclitante, “feita escritora” rodeada de escritores, a assinar um «Os Olhos de Tirésias» para o futuro leitor Paulo. Não éramos desconhecidos, mas posso afirmar que naquela tarde selámos a amizade anteriormente prenunciada, talvez por lermos um no outro que estávamos sob o mesmo guarda-sol encravado, a tentar escapar das mesmas cargas de água. E, sem que então o soubéssemos, talvez tenha nascido ali a semente NAU.

Após o nosso encontro, faltava a sintonia de abrir o livro autografado e gostar do que lá estava escrito. Tirésias é um romance feito para ler na solidão da noite, aconchegado por uma manta, a imaginar o crepitar duma lareira. Aquelas palavras rejeitam a confusão. Pedem silêncio e tempo. Não sentimos pressa por tragar páginas; sentimos vontade de fazer perdurar o prazer da leitura. Exactamente como me acontece com a Cristina, onde encontro uma amizade rara, daquelas para saborear ao longo dos dias, semanas, meses, anos, desfrutando serenamente da sorte que foi termo-nos cruzado por causa dos nossos livros e de, num riso partilhado sobre as nossas inseguranças e certezas, termos mostrado um ao outro quem éramos.

Quando leio a Cristina Drios, reconheço uma escritora. E quando ela me lê, faz-me acreditar que sou um escritor. Por isso, nem que seja entre nós, talvez o sejamos mesmo.

13/05/2014

quase um perfil, pois sou péssima a desenho

[texto: Raquel Serejo Martins / fotografias: João Alexandre Pereira]

Pode um livro ser uma casa?
A pergunta que me fiz quando pela primeira vez vi a Cristina Drios, ao caso a fotografia (curiosa foto, curiosa Cristina), dentro d’ Os Olhos de Tirésias, dentro dos olhos de um cego (curioso título).
E de imediato a minha resposta, à quantidade de horas que passamos dentro de um livro, claro que um livro pode ser uma casa, mil janelas e mil portas, eu sei que é feio escutar às portas, mil histórias para lá das portas, das janelas, pelos corredores, no sótão, na garagem, no jardim, na casa do vizinho.

A Cristina nasceu em Lisboa, em Maio de 1969, e vive em Lisboa.

E entre Lisboa e Lisboa, a Índia do seu primeiro livro (de contos), a Birmânia, o Japão, o Camboja, o Senegal, Marrocos, Chile, a Guatemala, a Nicarágua e mais as serras para os lados da Lousã.

Fez liceu francês, licenciada em direito, exerce há vários anos na área da Propriedade Intelectual.
Fotógrafa amadora, viajante e leitora compulsiva, diz do tédio ser a mais incurável das doenças, e não sei se acredito no tédio dos seus dias, apenas na inevitável rotina.

Dos advogados diz a narradora e não sei se a escritora concorda, pois não são uma e a mesma coisa, e passo a citar o referido Tirésias a pág. 119: Ali ao lado há pessoas a trabalharem, os advogados, gente com a qual evito falar, nunca achando que sejam de carne e osso. Ouço-os discutir da presunção, da matéria da prova, da penhora, da injunção, não, não creio que sejam de carne e osso, falam com tanta assertividade, tão atarefados, tão ciosos, que me pergunto se se dariam conta caso ocorresse um sismo debaixo dos seus pés.
Again, curiosa Cristina!

Dos livros, diz a mesma narradora a pág. 122: Creio que, para se tornarem marcos miliários na vida do leitor, os livros carecem de uma leitura não só no tempo certo, como no local certo, como ainda, nesse tempo e local, abrindo campo a uma possibilidade latente, escondida, talvez mesmo rejeitada. Como o amor. Abrem-nos os olhos para um desejo, qualquer coisa a latejar cá dentro que não queríamos ou sabíamos exprimir. Ali está, preto no branco, e de repente tudo se torna claro, preciso e irrefutável, abre-se uma porta e daí em diante é impossível arrepiar caminho. Como se o diabo nos entrasse no corpo.

Mas antes do livro lido, conheci a Cristina Drios, o sorriso e os gestos simples, aos meus olhos quase tímidos, tenho o defeito de gostar de pessoas tímidas, gostei da Cristina (Drios!) à primeira, assim, sem mais, sem lhe saber a cor, o sabor, o cheiro preferido, tudo coisas a descobrir devagar, devagarinho, como um sambinha bom.

08/05/2014

um rapaz com gosto por coelhos no chapéu

[texto: Carla M. Soares / fotografia: Wikipedia]

Mateus Mateus, Mateus a dobrar em tamanho, Mateus fechado no seu círculo escuro, Mateus nascido no frio que a caminho da guerra se cruza com o cão Quieto Adamastor, Mateus a quem se oferecem lampejos do futuro. Alvin Martin como ele, mas sem o privilégio da cor. Albino. Mateus cuja morte se anuncia nas primeiras páginas, sem nos deixar nunca certos dela. Mateus narrador. Mateus que se mede e se abre nos olhos de Georgette. Mateus personagem com jeito de antepassado embrulhado nas fantasias do tempo.

Erich Maria Remarche
Um rapaz com gosto por coelhos no chapéu e a ocasional figura que reconhecemos, como, algures numa trincheira, Erich Maria Remarche, antes de sê-lo. Vou ler A Oeste Nada de Novo, um dia destes. Estou em falha.

E a autora. Não a do livro - Cristina Drios - mas a do livro dentro do livro, criadora imaginária que, do século XXI, espreita a primeira Guerra Mundial e se debate com as indecisões da escrita e da vida pessoal. É difícil esquecer que a autora Cristina não é a autora sem nome dentro das páginas. Mas não importa. Importam a história, a História. E Tirésias, que sem ser cego quer fazer parte da história mas não se sabe o que vê.

A voz da autora:

"Aprendeu o funcionamento do motor, da embraiagem, da ignição, travões e velas. A mecânica era um novo mundo, rígido, de causa e efeito, onde não havia lugar à emoção. Tudo aí era inequívoco. se uma peça se avariava deixava o todo de funcionar, era preciso então localizar a fonte do problema, reparar e substituir a peça, e tanto bastava para a ordem das coisas ficar assegurada. Não existiam zonas cinzentas nem matizes, dúvidas ou incertezas: o mundo era ordenado, claro e perfeito, o único que Mateus entendia." (pág. 44)

"Os animais pressentem a minha condição, como pressentem cataclismos naturais e o odor do mal. Se Quieto Adamastor falasse, poderia descrever o círculo a gravitar à minha volta como uma espécie de anel de Saturno, negro e grumoso. O círculo expandiu-se e agora caibo todo lá dentro, já não tenho os braços e os pés de fora como em criança, cresci e o círculo cresceu, expandiu-se para me abarcar todo e não sobrar nada a cair para fora." (pág. 50)

Podiam ser outras as citações, este livro está repleto de momentos que gosto. Como um, em que o pequeno Émile (o do chapéu de ilusionista) "não se espantava com chuvas de sapos, de peixes ou de flores, eventos cuja probabilidade aumentava em tempos calamitosos. Era fácil imaginar deus, o grande mágico, a treinar os seus truques algures no azul, por entre nuvens, potes de ouro e bruxas a pentearem-se. às vezes, como a Émile com o coelho, as coisas davam para o torto, e choviam coisas esquisitas lá de cima. Como epifanias desobedientes." (pág. 181)

06/05/2014

primeira página de Mateus Mateus


Começamos a desvendar o nosso livro (e autora) do mês com uma sinopse. Só para abrir o apetite. E para darmos tempo aos leitores que ainda não tiveram oportunidade de ler este Os Olhos de Tirésias de recuperarem tempo de (boa) leitura e prepararem-se para as iguarias já preparadas: perfil da autora, citações da obra, entrevista, poema... No final, os fãs do livro terão a hipótese de juntar-se ao Colectivo NAU numa "Tertúlia do Sardinha": um jantar de casa fechada, a preço módico de tasca, durante a qual poderão conversar com a Cristina Drios sobre livros, escrita e, quem sabe, o significado da vida. Mas por enquanto ainda é tempo de virar a primeira página e entrarmos no mundo do imenso Mateus Mateus. 

Os Olhos de Tirésias 

de Cristina Drios (2013, Teorema)

A descoberta de um retrato daquele avô cuja história a família sempre encobriu - Mateus Mateus, o gigante de olhar estranho que partiu, no contingente português, para a Flandres durante a Primeira Guerra Mundial - é o pretexto que a narradora encontra para, simultaneamente, escrever um romance e se afastar de um casamento que parece condenado ao fracasso. Para saber mais sobre o passado desse desconhecido, parte, também ela, para a propriedade de La Peylouse, em Saint-Venant, que alojou o Estado- Maior português nos anos 1917-1918 e da qual o avô, depois de ter servido na frente como maqueiro e coveiro, foi enviado numa missão de espionagem, acabando prisioneiro dos alemães. No bizarro hospital onde passa os meses que antecedem a batalha de La Lys (o mesmo onde virá a ser internado um cabo alemão chamado Adolf, atacado de cegueira histérica), Mateus Mateus cruza-se com figuras inesquecíveis: Alvin Martin, um inglês albino dado às premonições; Hugo Metz, o médico que usa métodos de inspiração freudiana para interrogar os pacientes; o órfão Émile Lebecq, pequeno ladrão e ilusionista amador; e, sobretudo, Georgette Six, a bela enfermeira francesa que perdeu o noivo na guerra e pela qual o português se tornará um homem diferente. E, porém, à medida que a neta de Mateus Mateus vai desfiando essa história - num jogo em que a realidade se torna indestrinçável da ficção -, também a sua vida é sacudida por uma paixão - e só o encontro com Cyril Eyck e o seu bisavô centenário trará a chave para os enigmas do próprio romance.