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22/01/2015

Aconteceu ou não

[a leitura de Esta Noite Não Aconteceu por Cristina Drios]

“Se eu não fosse escritora e não pusesse no papel os seus sentimentos, tornar-me-ia, provavelmente, uma criminosa. (...) Mas é só nos livros que cometo crimes, juro; contar histórias foi o refúgio que descobri para escapar às ideias horríveis que tantas vezes me passam pela cabeça.”
in “Esta Noite Não Aconteceu”, pág. 157.

Aconteceu ou não, pergunta-se o leitor, ao fechar a última página deste romance que se lê de um só fôlego, ao ritmo quase frenético dos acontecimentos que enredam quatro personagens: uma escritora de romances cor-de-rosa que almeja mudar, um jornalista que afinal não é só o que disse ser, um criminoso violento que se releva um bom pai e um  polícia reformado apanhado num vórtice a que é alheio...

Acontecer ou não acontecer, eis a questão. Qual é a fronteira entre realidade e ficção? Que linha separa a escritora inventada da escritora real? A ficção será apenas um refúgio para a escritora inventada? E para a escritora real, será uma realidade paralela em que, de facto, existe tanto quanto as suas personagens? É que, afinal, no caso da escritora inventada, descobrimos que a realidade é apenas ficção... Confusos? Nem tanto! A contracapa fala-nos de “um romance empolgante e carregado de acção” mas “Esta Noite Não Aconteceu” é muito mais, é um livro com camadas de  profundidade que, tal como cada hora da noite em que se desenrola, trazem um matiz diferente que se sobrepõe ao anterior. Cabe-nos a nós, leitores, fazer acontecer ou não...










18/01/2015

Enred(ad)o

[a leitura de Esta noite Não Aconteceu por Carla M. Soares]


Há pessoas que vivem toda a vida como jogadores a quem a sorte sorri continuamente. Rosário Toledo sentia-se assim e, mais uma vez, o acaso pusera-lhe na mão a peça que lhe permitiria completar o seu puzzle...
pág 95




E nós, leitores, somos jogadores neste jogo? Que linhas seguimos neste labirinto de palavras e intenções? Que que peças nos são oferecidas?

Muitas, e soltas, com esquinas que não encaixam. Colidem asperamente e causam estranheza. Até que uma se move dentro da intriga e as outras vão caindo nos seus lugares, as arestas cortantes mas afinal coincidentes, no espaço curto de uma noite que não aconteceu. Ou aconteceu. Ou ambas as coisas. 

E se, no espaço de uma noite, todas as linhas cortadas abruptamente no nosso percurso viessem enredar-nos? Todas as nossas insuficiências? As nossas culpas, os nossos fantasmas, as consequências das nossas escolhas, as nossas perdas? E se nessa noite os outros da nossa vida, os que são da nossa vida mas não estão na nossa vida, nos batessem à porta a lembrar o que muito fizemos por esquecer? E se fosse negro o esquecimento? Se fosse assim, quando duraria cada hora? E se nada disto fosse senão ficção? 


É por isso que são muitas e longas as horas em Esta Noite Não Aconteceu, como são muitas e obscuras as peças do quebra-cabeças de uma realidade que não o é. Ou é. Nem a história de cada um, nem cada um são reais ou irreais: nem a escritora elegante de literatura light que já não deseja sê-lo, nem o jovem jornalista de intenções ocultas, nem o assassino ou a vítima que o serão ou não.  

Como sempre é na escrita, neste livro, tão pequenino, tão enredado e escondido como a jovem da capa, tão bom de ler, as palavras criam uma realidade completa dentro de si mesma. Nem verdade, nem ficção. 

13/01/2015

A Flor do Meu Segredo

[a leitura de Esta Noite Não Aconteceu por Ana Saragoça]


Eu escrevi durante anos o que achei que as pessoas queriam ler, mas sinto-me cansada. Sei que posso ir mais longe. E para isso vou usar as minhas próprias memórias como ficção. E a minha própria vida como tema.

Esta Noite Não Aconteceu, página 73


Palavras de Rosário Toledo, cujo nome e ofício se associaram de imediato na minha mente à protagonista de um longínquo filme de Almodóvar. A memória do filme já está muito esbatida, mas ambas, Leo e Rosário, são prisioneiras do próprio sucesso como autoras de romance cor-de-rosa, ambas são frias e impiedosas, ambas têm um segredo monstruoso, ambas são cegas à realidade mais próxima, ambas são infelizes, e ambas são inventadas. Se são inventadas por si próprias ou por um realizador espanhol e uma escritora portuguesa, isso é secundário, até porque, tendo tanto em comum, são totalmente diferentes. O principal é que por trás do rosa mais vivo se esconde muitas vezes uma alma mergulhada na mais negra escuridão.

Tal como os passageiros frequentes passam por cima das instruções de segurança do pessoal de cabina dos aviões, assim os leitores batidos saltam enfastiados a tal ladainha de abertura nos livros: ‘Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com factos ou pessoas reais é mera coincidência.’ E fazem bem, porque é uma das mais cabeludas mentiras da literatura de todas as cores. Quantos de nós não se encontraram já retratados nas letras de um autor que nem sequer nos conhecia, que era mesmo pessoa para ter morrido umas valentes décadas antes da nossa vida ao mundo? Mera coincidência? Não. Acontece apenas que muitos dos nossos segredos mais íntimos já existiram em outros seres, que a seu tempo foram detectados por algum escritor.


Quanto ao que esta noite aconteceu, ou não aconteceu… isso é a flor do segredo da Sónia Alcaso. 

11/01/2015

12 horas nocturnas


- Sim, eu sei, mas o que quero que me diga é se há alguma distinção entre a Rosário Toledo escritora e a pessoa. Podemos falar numa existência real e numa existência literária?
- Sim, claro. Quando estou a escrever um livro, vivo a meias entre a minha “existência real”, como disse, e a imaginária - o romance. Mas, às tantas, é inevitável acabar por fundir as duas.
- Isso quer dizer que não tem um quotidiano independente da sua actividade como escritora?
in Esta noite não aconteceu, de Sónia Alcaso (pág. 32)




Sei qual a resposta da personagem, não sei qual a resposta da autora, porém desconfio, provavelmente por sentir na pele as mesmas contingências, por ser a autora jornalista e escritora, os dias com dois trabalhos, o compromisso da escrita, a falta de tempo, a urgência dos afazeres, a pausa imaginária para café com as personagens, as conversas no metro, enquanto se estende a roupa, debaixo do chuveiro.
E Esta Noite Não Aconteceu, é um livro que nos enfia por 12 horas, se 8 horas de sono um dia inteiro, na vida de 4 personagens, uma escritora, um jornalista, um assassino, um polícia, dois pares perfeitos para dançar no salão.
O leitor dança?
12 horas nocturnas, sendo de incluir no adjectivo mentiras, encontros e desencontros, recordações, recriminações, abusos, máscaras, violência e sexo.
12 horas nocturnas até que a luz do dia nos mostra que nada é o que parece, ou ao contrário, pois no fim a sensação de desconforto por não saber o que foi real e o que foi ficção.