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21/04/2015

Ai ai minha mãe

[A leitura de Quando Fores Mãe, Vais Ver por Carla M. Soares]

Todos temos uma, e salvo os irmãos, cada um a sua, e cada qual  parece que com as suas especificidades. A minha, Deus sabe, tem uma imensidade delas, e são umas para cima, outras para baixo, umas que não trocava por nada, outras que me levam ao desespero.

Ao ler este livro, porém, juraria a pés juntos que, pelo menos nalgumas coisas, temos todos a mesma. Assim uma gigante mãe comum com um glossário acumulado de mezinhas, frases e dizeres para todas as ocasiões. Não foram poucas as vezes que dei por mim a lembrar-me de situações em que ouvi expressões dessas que, com uma ironia tão terna, a Ana Saragoça compila, explica e ilustra. A maior parte delas, como filha rebelde que fui, não me agradaram nem um bocadinho - mas agora, à distância de uma vida, o reconhecimento fez-me rir com vontade. Isso e a boa disposição com que se contam certos episódios, alguns quase familiares - pois é, Ana, eu também não tinha autorização para brincar na rua e, se calhar, também eu tenho a agradecer a isso os livros que li e... pois, se calhar até os que escrevo!

E porque eu também sou mãe, dessas modernas que fogem a sete pés de repetir o que ouviram da sua, dei por mim a fazer caretas. Pois é, eu também já disse aos meus filhos (e alunos...)  "e se os outros se atirarem a um poço, também vais?" O certo é que quem não é mãe foi filha e, para mãe ou filhas, este livro é uma pérola. É preciso ler.. E depois não digam que não vos avisei!


Nem todos os realizadores de cinema-catástrofe do mundo, com orçamento ilimitado para todos os evfeitos especiais, conseguiriam apresentar obra que chegasse aos calcanhares dos filmes que a minha mãe faz na cabeça. E atenção: ela realiza varios por dia, reunindo água, terra, fogo, ar, sexo, droga, violência, espectaculares acidentes rodoviários, aéreos, ferroviários, marítimos, animais selvagens fugidos de circos ou de jardins zoológicos, e ainda duas personagens sinistras que têm lugar cativo no elenco e a que gosto de chamar os GG - o Gandulo e o Galfarro." (pág.81)

22/03/2015

MUDAR DE VIDA

[a leitura de Dizem que Sebastião por Ana Saragoça

‘… um remoinho arrastava folhas e papéis pelo chão numa coreografia de esperança voadora: afinal, as coisas inertes não o eram, voavam até, vindas dali e voadas para acolá, como as memórias, como os velhos amigos, os reais e os dos livros, como as despedidas, como os chapéus que continham serpentes; afinal, tudo esperava apenas o momento de redemoinhar.’


Quem me conhece sabe que tenho um ódio de estimação pelos chavões new age: poucas frases me irritam mais do que ‘Tudo acontece por uma razão’, e à pergunta de bolso sobre o meu signo respondo invariavelmente que sou Imperial com ascendente em Tremoço. E nem a minha história de amor mais longa e satisfatória, aquela que tenho com os livros, me faz mudar de ideias, apesar de ser tentador pensar que tudo acontece por uma razão misteriosa quando:

  • uma frase lida num livro nos salva da morte
  • uma personagem literária é tão, mas tão parecida connosco que temos a sensação incómoda de que ou autor plantou microfones na nossa vida interior
  • uma personagem cresce e é feliz mesmo depois de ter cometido a mesmíssima asneira que acabámos de cometer e nos parece irremediável
  • um livro responde a perguntas que nunca nos atrevemos a formular em voz alta

Tudo isto já me aconteceu, e mais do que uma vez. A última foi com Paula, de Isabel Allende. Comprei o livro nos primórdios do século. Comecei por adiar a leitura porque sabia que abordava a morte da filha da autora - eu tinha sido mãe em 1999 e não conseguia sequer pensar em abordar aquele tema. Depois li um um outro livro de Allende em que já não reconheci a autora de A Casa dos Espíritos, mas a repetição de uma fórmula que se tinha esgotado. Há um mês e pouco, tive uma emergência matinal: acabara um livro na noite anterior, estava à pressa para sair de casa e ainda não tinha escolhido a leitura seguinte. (Nota: sair de casa sem um livro é prenúncio certo de catástrofe.) Assim, abri de rompante o armário dos LPL – Livros Por Ler -, peguei num às cegas e saí porta fora. Deu-se o caso de ser Paula, e de retratar ponto por ponto uma situação que eu estava a viver, e de dar voz também a muitas dúvidas minhas em relação à escrita.

Foi verdadeiramente o livro certo no momento certo, mas nada há de místico nisso. Os amantes da leitura têm sempre as antenas ligadas para tudo o que os livros lhes possam dizer. Por isso é natural que encontrem neles tantas respostas que não esperavam. As coisas não estão à nossa espera para acontecer, acontecem e esperam que demos por elas. É precisamente o que acontece ao protagonista deste livro, e aos seus mui auspiciosos encontros com a estatuária lisboeta. Enquanto ele procura naquelas figuras a resposta a uma única pergunta, vai recebendo lições de vida vindas de todos os lados. Não, não é magia, nem misticismo: acontece que Sebastião resolveu apenas abrir os braços, os olhos e os ouvidos ao que o cerca.

É verdade que tudo acontece por uma razão, mas a razão tem de partir sempre de nós, não de um universo vago e indiferente. E a vida muda inevitavelmente para quem decide mesmo mudar de vida.  
    

19/03/2015

Clic

[a leitura de Dizem que Sebastião por Sónia Alcaso]

“A cada mês que passava do previsto ano sabático, a casa de Sebastião ganhava novos contornos. Agora, havia livros espalhados pelo chão, mapas da cidade, horários de teatros, desdobráveis de exposições, anúncios de espectáculos. A ironia de ter desperdiçado grande parte da vida amealhando sem sentido dava lugar à certeza de que alguém escrevia direito por linhas tortas”.
(página 141,  “dizem que sebastião”)


Um clic num momento de vulnerabilidade e um homem, que antes não passava de um monte de ossos a viver da secura de meia dúzia de pílulas vitaminadas, ganhou uma nova engrenagem. Um desaire amoroso e um susto de saúde (podia ser qualquer outra coisa) e Sebastião rendeu-se à evidência... Rendamo-nos também nós!

Por solidariedade com a personagem, ou porque não passamos de comuns mortais, ao lermos este livro, muitas coisas acontecem e, por dentro, passamos a estar inteiramente com Sebastião. Espreitamos-lhes os gestos, acompanhamo-lo nos seus encontros com as estátuas dos escritores, bebemos-lhe os diálogos, solidários com a procura da verdade que ele não sabe onde está, mas que nós percebemos que está ali, espelhada pelas ruas de Lisboa. E, no fim de tantos percursos culturais, ficamos todos – nós e ele -, perante uma melhor compreensão de quem somos.

Quem tem a sorte de conhecer pessoalmente João Rebocho Pais, reconhê-lo-á, decerto, nestas páginas, na paixão pela literatura, no humor com que envolve as palavras e, sobretudo, na atenção que dedica à poesia que existe fora dos poemas.


09/03/2015

O mês de Sebastião

[texto de Carla M. Soares]

João Rebocho Pais, autor de O Intrínseco de Manolo - que já foi livro do mês do NAU - não se ficou por aí. 



Em 2014, enquanto ainda nos deliciavamos com a primeira ronda de livros dos autores NAU, o marujo João avançava pela publicação do seu segundo livro, Dizem que Sebastião. 





Uma viagem pela cidade de Lisboa na companhia de grandes escritores…
Sebastião Breda, vice-presidente de uma multinacional, workaholic e quarentão abastado, percebe um belo dia que a vida lhe tem passado ao lado e decide remediar a solidão convidando uma colega para um jantar romântico. O problema é que a sua bagagem não vai além de estratégias de venda e planos de marketing – e o arraso que leva de Margarida à mesa do restaurante é humilhação bastante para que o seu coração acabe a pregar-lhe um valente susto. O médico recomenda-lhe então um ano de descanso, e Sebastião resolve aproveitá-lo a cultivar-se, fazendo, numa livraria da Baixa, um amigo que lhe dá bons conselhos e sentando-se junto às estátuas dos escritores espalhadas pelas praças e jardins de Lisboa, que, eloquentes à sua maneira, o iluminam sobre os mais diversos assuntos, entre eles, evidentemente, a questão feminina. Um ano depois, não se pode dizer que Sebastião seja o mesmo homem.
Depois do muito aplaudido O Intrínseco de Manolo, João Rebocho Pais regressa à ficção com um romance – divertido, terno e cheio de ironia – sobre a dicotomia entre números e letras e a pobreza intrínseca de algumas pessoas que só aparentemente são bem-sucedidas. Dizem Que Sebastião é uma homenagem aos livros e ao que podemos aprender com eles até sobre nós próprios.


Este mês de Março não vai ser só o mês que acolhe a Primavera na NAU, vai ser o mês do Sebastião. Vamos lê-lo e conhecê-lo, que o atraso, com o mês já quase a meio, não há de dimunuir nem o prazer da leitura, nem a vontade de levá-lo mar afora.


04/02/2015

A GRANDE GUERRA, a história e os seus intervenientes.


O romance “Os Olhos de Tirésias” tem como pano de fundo a participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial ou Grande Guerra, cujo centenário agora se recorda. Este foi, durante muito tempo, um tema non grato, mormente durante o Estado Novo, e por vezes, desconhecido de muitos portugueses.

Mas Portugal marcou presença em duas frentes de guerra, primeiro em África, na defesa das suas colónias, e a partir de 1917, na Flandres, para onde seguiu, em navios ingleses, e se manteve sob comando britânico, o Corpo Expedicionário Português (C.E.P.).

O sector português cobria cerca de doze quilómetros de frente e foi aí que, na madrugada de 9 de Abril de 1918, os alemães atacaram, lançando sobre a parte mais frágil das defesas inimigas, as suas divisões frescas e bem apetrechadas. A baptizada “Operação Georgette” alemã (que deu nome a uma das personagens femininas de “Os Olhos de Tirésias”) ficou assim conhecida na história portuguesa como um dos seus capítulos mais tristes, a Batalha de La Lys, nome do rio que dividia os contendores.

Este é, em minha opinião – por isso o escolhi para pano de fundo do meu romance –, um tema a aprofundar. Aqui vos deixo, assim, uma sugestão (não exaustiva!) de livros de autores portugueses para quem queira saber um pouco mais sobre esta parte da nossa história e dos seus intervenientes nela.

Em primeiro lugar, sugiro para uma contextualização histórica completa, “Portugal e a Grande Guerra 1914-1918” dos Coronéis Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes. Sugiro também “Das Trincheiras com Saudade, A vida quotidiana dos militares portugueses durante a Primeira Guerra Mundial” de Isabel Pestana Marques, um livro que nos descreve de forma vívida o dia-a-dia dos soldados portugueses nas trincheiras.  
















Por fim, dos muitos diários, testemunhos e relatos ficcionados escritos pelos intervenientes da época ressalto dois: “A Malta das Trincheiras, Migalhas da Grande Guerra 1917-1918” de André Brun e a  “Memórias da Grande Guerra” de Jaime Cortesão.




















Aqui ficam as sugestões! Boas leituras!

02/02/2015

NAU: ROTAS PERCORRIDAS, ROTAS SONHADAS


E eis que chega ao fim o primeiro ciclo de existência da NAU. 

Foram nove meses para oito autores (com pausa para banhos)oito autores que assumiram, à vez, o comando da embarcação, usando os seus livros como cartas de marear: abrimos caminho na Primeira Guerra com Os Olhos de Tirésias, de Cristina Drios, seguimos pelo Alentejo com O Intrínseco de Manolo, de João Rebocho Pais, ganhamos dias elevador acima, elevador abaixo com Todos os Dias São Meus, de Ana Saragoça, respiramos fundo e entramos em rebelião com a gente de Abril, com Revolução Paraíso, de Paulo M. Morais, voamos até aos Açores para um mistério, com Capítulo 41- A Redescoberta da Atlântida, de Pedro Almeida Maia, recuamos aos amores do século XIX com Alma Rebelde, de Carla M. Soares, suspendemo-nos entre a vida e uma morte anunciada em Pretérito Perfeito, de Raquel Serejo Martins, e fechamos o ciclo numa noite só, com Esta Noite Não Aconteceu, de Sónia Alcaso. Os autores NAU leram e escreveram sobre os livros de cada um com toda a honestidade e poesia de que foram capazes, fugindo sempre do elogio fútil e, quem sabe, falso.

Não tivemos muitas oportunidades de nos encontrarmos pessoalmente, mas aproveitámos até ao tutano as vezes que conseguimos conjugar horários, para podermos passar juntos umas horas em redor de uma refeição. Refeição sempre bem portuguesa, de iscas, alheiras e sardinhas, com queijo dos açores à mistura, nos dois jantares NAU em que trocámos impressões, sugestões, nos animámos mutuamente, e sobretudo dissemos o que cabia e o que não cabia e rimo-nos alto e bom som, como convém a um grupo de circunspectos e digníssimos literatos.

Os encontros com leitores, pessoais ou em conjunto, foram sempre gratificantes, é por eles, afinal, que nos vamos metemos na luta que é a escrita e sobretudo a publicação de cada livro. Não podemos, porém. deixar de destacar certa tarde memorável de verão, passada na Biblioteca dos Olivais com A Roda dos Livros. É uma felicidade trocar ideias com quem ama ler, que reflecte sobre o que lê e que tem ainda a generosidade de partilhar as suas reflexões com outros leitores e com os autores. Muito gratos pelo convite, que desejamos se multiplique noutros espaços e com outros leitores (ou no mesmo espaço com os mesmos leitores, porque não?)

E houve ainda o ‘Projecto Raimundo’, o desafio que nos impusemos de escrever um conto assente em apenas dois pressupostos comuns: a frase de abertura e o local de nascimento do protagonista. O resultado pode ser apreciado no site Das Letras, nosso parceiro de aventura, onde quinzenalmente tem surgido um ‘Raimundo’ que reflecte a sensibilidade de cada um dos autores da NAU.

Com estes primeiros oito meses de navegação, aprendemos todos muito uns com os outros, com quem nos lê e com quem nos publica. Foi uma viagem cheia de aventuras e alguns escolhos, e não a trocaríamos por nada.

Chegados ao fim deste primeiro ciclo, impunha-se a pergunta: e agora? Recolhíamos a aparelhagem e deixávamos a nossa NAU definhar em doca seca? Ou embarcávamos rumo a novas paragens? Ninguém manifestou vontade de abandonar o navio.

Nos próximos oito meses, vamos dedicar-nos a explorar a obra de cada um dos autores de outros pontos de vista. Isso significa que, em Fevereiro Cristina Drios volta ao papel de timoneira. O seu livro, Os Olhos de Tirésias, tem como cenário a Primeira Guerra Mundial, sobre a qual decorrem agora cem anos. Propomo-nos, sob a égide do soldado português retratado por Cristina Drios, explorar vários aspectos do conflito que deu o tom a todo o século XX.

Sigamos pois os passos de Mateus Mateus.



22/01/2015

Aconteceu ou não

[a leitura de Esta Noite Não Aconteceu por Cristina Drios]

“Se eu não fosse escritora e não pusesse no papel os seus sentimentos, tornar-me-ia, provavelmente, uma criminosa. (...) Mas é só nos livros que cometo crimes, juro; contar histórias foi o refúgio que descobri para escapar às ideias horríveis que tantas vezes me passam pela cabeça.”
in “Esta Noite Não Aconteceu”, pág. 157.

Aconteceu ou não, pergunta-se o leitor, ao fechar a última página deste romance que se lê de um só fôlego, ao ritmo quase frenético dos acontecimentos que enredam quatro personagens: uma escritora de romances cor-de-rosa que almeja mudar, um jornalista que afinal não é só o que disse ser, um criminoso violento que se releva um bom pai e um  polícia reformado apanhado num vórtice a que é alheio...

Acontecer ou não acontecer, eis a questão. Qual é a fronteira entre realidade e ficção? Que linha separa a escritora inventada da escritora real? A ficção será apenas um refúgio para a escritora inventada? E para a escritora real, será uma realidade paralela em que, de facto, existe tanto quanto as suas personagens? É que, afinal, no caso da escritora inventada, descobrimos que a realidade é apenas ficção... Confusos? Nem tanto! A contracapa fala-nos de “um romance empolgante e carregado de acção” mas “Esta Noite Não Aconteceu” é muito mais, é um livro com camadas de  profundidade que, tal como cada hora da noite em que se desenrola, trazem um matiz diferente que se sobrepõe ao anterior. Cabe-nos a nós, leitores, fazer acontecer ou não...










18/01/2015

Enred(ad)o

[a leitura de Esta noite Não Aconteceu por Carla M. Soares]


Há pessoas que vivem toda a vida como jogadores a quem a sorte sorri continuamente. Rosário Toledo sentia-se assim e, mais uma vez, o acaso pusera-lhe na mão a peça que lhe permitiria completar o seu puzzle...
pág 95




E nós, leitores, somos jogadores neste jogo? Que linhas seguimos neste labirinto de palavras e intenções? Que que peças nos são oferecidas?

Muitas, e soltas, com esquinas que não encaixam. Colidem asperamente e causam estranheza. Até que uma se move dentro da intriga e as outras vão caindo nos seus lugares, as arestas cortantes mas afinal coincidentes, no espaço curto de uma noite que não aconteceu. Ou aconteceu. Ou ambas as coisas. 

E se, no espaço de uma noite, todas as linhas cortadas abruptamente no nosso percurso viessem enredar-nos? Todas as nossas insuficiências? As nossas culpas, os nossos fantasmas, as consequências das nossas escolhas, as nossas perdas? E se nessa noite os outros da nossa vida, os que são da nossa vida mas não estão na nossa vida, nos batessem à porta a lembrar o que muito fizemos por esquecer? E se fosse negro o esquecimento? Se fosse assim, quando duraria cada hora? E se nada disto fosse senão ficção? 


É por isso que são muitas e longas as horas em Esta Noite Não Aconteceu, como são muitas e obscuras as peças do quebra-cabeças de uma realidade que não o é. Ou é. Nem a história de cada um, nem cada um são reais ou irreais: nem a escritora elegante de literatura light que já não deseja sê-lo, nem o jovem jornalista de intenções ocultas, nem o assassino ou a vítima que o serão ou não.  

Como sempre é na escrita, neste livro, tão pequenino, tão enredado e escondido como a jovem da capa, tão bom de ler, as palavras criam uma realidade completa dentro de si mesma. Nem verdade, nem ficção. 

16/11/2014

A certeza das coisas intemporais


[A leitura de ' Alma Rebelde ' por João Rebocho Pais]


  "... Um sobressalto constante, Assim foram os seus primeiros dias. Não que tivesse acontecido alguma coisa, pois os dias correram com uma tranquilidade assustadora. E não, ninguém a tratou mal, longe disso. A inevitável agulhada da humilhação não a trespassou, afinal ninguém a fez sentir-se a intrusa que era ... "


E. BERGER-REVAL - Uma jovem lendo

Quando falei com a Carla, quando abordámos o Alma Rebelde percebi-lhe a vontade de reentrar neste seu livro, reescrevê-lo e trazer-nos a história noutros contornos. Porquê? ... perguntei-lhe.

Quando escrevemos algo, quando regressamos a esse algo que passámos ao papel, encontraremos sempre e inevitavelmente uma luz nova, uma cor, um desenlace ou descrição que melhor retratariam a coisa. Pois Carla, li o Alma Rebelde de enfiada, redescobrindo o prazer juvenil que a leitura desde sempre me trouxe. Fui querendo adivinhar o que viria e fui esbarrando nas minhas certezas, deixei-me levar por uma escrita que de um modo limpo e transparente me levou a um passado que hoje me parece ficção. A todos nós certamente. 

Joana, Brites, Ester... poderia escolher outras mais, trazem-nos a certeza das coisas intemporais, por muita distância que imaginemos delas e de tempos simultaneamente longínquos e actuais. A beleza de uma história reflecte-se no tempo que proporcionamos ao leitor de se agarrar a algo e dele fazer sua vivência e interpretação. Quando essa história nos leva a viajar no tempo, nos traz locais e costumes que pensamos terminados, quando lemos e nos vemos parte da história, espreitando, escutando, desejando, desdenhando e recriminando coisas de personagens, então é porque o autor ou autora nos souberam levar até lá. E a tua 'Alma' levou-nos a todos, adultos e adolescentes, a experimentar a sensação de querermos arranjar espaço dentro de nós para um mundo de gente e personagens que tão bem desenham uma época, um manancial de costumes.

E, no dia em que deixarmos acabar esta perspectiva de escrita e leitura, de nos deixarmos ir de braço dado na aventura, teremos certamente abdicado de uma das fascinantes oportunidades que nos traz a leitura.

13/11/2014

Uma alma livre

[Pedro Almeida Maia e a leitura de «Alma Rebelde»]

“Santiago deixou o cadeirão onde se refastelara e veio apoiar-se descontraidamente no piano, enquanto Chopin enchia o salão. A D. Ana, pareceria provavelmente distraído com o movimento dos dedos nas teclas, mas Joana sentiu os seus olhos pousados sobre ela. Pressentiu que observava mais a curva do seu pescoço do que o movimento das mãos, e a vibração atravessou-a.”
(Carla M. Soares in Alma Rebelde, pág. 137).

Escolhi este trecho por refletir algumas das subtilezas usadas no discurso da autora, neste Alma Rebelde. A história situa-se na Lisboa do século XIX e é um romance da burguesia dos casamentos prometidos. Joana e Santiago, destinados a juntar vidas, passeiam-se pelo texto e extasiam o leitor, numa leitura quase impossível de interromper, cadenciada, como se Carla fosse dona de uma batuta e nós fôssemos a orquestra.



Carla M. Soares escreve como se deseja ler, com expansão e atrevimento poético. A sua sensibilidade feminina convida a uma viagem rumo à liberdade. Envolve as personagens e transforma a frieza em calor, a desconexão em enredo, com uma simplicidade elaborada e cativante. E o mais interessante é que esta história podia mesmo acontecer, no seu tempo ou fora dele, algures em Lisboa ou noutro lugar, longe ou perto daqui. Afinal, a felicidade pode estar em qualquer lado.

11/11/2014

O amor já foi assim

[Raquel Serejo Martins e a leitura de «Alma Rebelde»]

O seu corpo era uma propriedade, como as casas da família, os móveis, as carruagens, o ouro e café do Brasil que o avô e o pai tinham negociado. Tinha sido educada para saber comportar-se e conversar socialmente e dançar, mas acima de tudo para obedecer.

In Alma Rebelde, Pág. 15

- Nunca decidi nada na minha vida, Santiago. Quero dizer, já escolhi vestidos e flores, e livros… mais ou menos. Mas nunca pude decidir nada de importante… fiz sempre o que meu pai me ordenou, quando e onde e como achou conveniente. Estudei, convivi e casei como achou melhor.

In Alma Rebelde, Pág. 235

Um romance sobre uma história de amor.

O amor já foi assim, não muito longe daqui, no Portugal do século XIX, com pais mercadores a decidirem a conveniência do negócio.
E, talvez porque me incluo no género, gostei muito das mulheres que encontrei neste livro, de perceber o lugar que cada uma ocupa no tabuleiro e como se sentiam no lugar, no quadrado, que lhes foi destinado, num tempo em que a palavra destino em função da classe social de origem tinha tanto cabimento.

Assim temos Joana, a protagonista, e a sua impotência ao ver-se obrigada a um casamento por conveniência, situação que chama a si de imediato, comigo foi assim, a empatia do leitor, mesmo se excessivamente dramática porque dada a sofrer por antecipação.

Ester, a prima, amiga e confidente epistolar, que relata na primeira pessoa as vivências quotidianas de um casamento, por conveniência, com o Velho, velho em todos os sentidos, protagonista de uma história em paralelo.

Alice, uma amante prévia do futuro marido, uma mulher independente que podia afirmar-se como amante, não fosse porém, ao caso, a falta de amor.

Rosária, a ama de Joana, presente como uma mãe, um rosário de carinhos e desvelos.

D. Ana, a sogra que viveu e vive a mesma realidade, que vê história repetir-se, ou quase repetir-se, pois sabe, como todos sabem dentro da nova casa de Joana, o quão pai e filho são diferentes.

Brites, a velha criada, como se uma avó do menino, do futuro marido.

E não posso não falar de Santiago, mais livre porém, em rigor, na mesma condição.
Santiago e Joana, dois pássaros cegos a voar em torno um do outro, em colisão, em tentação, em desafio, em desabafos, um namoro tão bonito de ler, os sorrisos do leitor perante os choques, os avanços, os recuos, por perceber, quando ainda as personagens não sabiam que se moviam pelas mesmas razões, pelos mesmos sonhos.

Enfim, uma história com final feliz apesar de ter tudo para um final infeliz, porque o prometido marido é tudo menos o que se esperava que fosse.



31/07/2014

NAU no estaleiro

Em Agosto, conforme previsto na nossa "carta de marear", o Colectivo NAU vai para o estaleiro. Após o descanso, voltaremos em Setembro com vontade de termos meses tão gratificantes como estes em que escrevemos sobre os livros da Cristina Drios ("Os Olhos de Tirédias"), do João Rebocho Pais ("O Intrínseco de Manolo") e da Ana Saragoça ("Todos os Dias São Meus"). Até lá, um abraço para os nossos seguidores e leitores. Fiquem bem. E leiam, leiam muito.

30/06/2014

a viagem do timoneiro João Rebocho Pais

Houve de tudo nas leituras dos marujos do Colectivo Nau do livro do mês, «O Intrínseco de Manolo». A Raquel Serejo Martins pediu à Consuelo que a consolasse, a Cristina Drios confessou que gostaria muito de ser uma lágrima Marília, a Ana Saragoça encontrou o "alentejanismo mágico" do livro, a Carla M. Soares andou à volta do que podia Manolo (e podia muito...), o Paulo M. Morais perdeu as estribeiras e mandou o João fornicar-se...

E lá foi o João Rebocho Pais submeter-se a 20 confissões proustianas, escutar o poema da Raquel Serejo Martins intitulado Intrínseco João, e sujeitar-se a que a Sónia Alcaso lhe traçasse o perfil de "homem inteiro, cheio de jogos (e) de palavras".

Um mês cheio, em volta de um só livro. Um não, que enquanto falávamos do primeiro filho literário do João, ele estava a lançar o seu segundo, «Dizem que Sebastião». É de ir lá ver o que nos dizem, então, enquanto agradecemos ao nosso timoneiro a viagem intrínseca por Manolo e companhia.