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07/07/2015

Folclore Materno


Entre uma mãe e um filho                                                                     
um coração a bater fora do corpo
um novo horto,
os perigos, os medos, os sustos,
a falta de cartilha e solidão nenhuma.
O amor a tender para infinito
e a tentativa de explicar o amor ao mundo,
como se o mundo não soubesse,
quando o mundo está cansado de saber
ou não fosse assim desde que  o mundo é mundo.

Entre uma mãe e um filho,
uma erudição doméstica
feita em segredo, um camaleão invisível,
a roupa lavada, a cama feita, a mesa posta,
beijos nos dedos dos pés,
beijos nas pálpebras,
gestos milenares repetidos, tecidos
ao som de ancestrais sons de embalar.
E embalado o tempo passa,
tudo medra, cresce, envelhece,
o tempo sem ciência nem mistério,
e apesar da transparência tudo etéreo.


Entre uma mãe e um filho
a insolência da adolescência,
os dois sócios de uma empresa em aparente falência.
Sem cordão umbilical, o novo corpo quase do tamanho do original,
mais iguais os gestos, o nariz, a teimosia,
os afectos do avesso e saudades do menino travesso.
A mãe uma harpia, um novo léxico agora sem poesia,
palavras-pedra-granada-explosão,
contra um caduco vocabulário íntimo,
contra um sempre para teu bem
em todas as bocas de mãe.
Depois, porque as mães todas iguais
ou porque mãe há só uma,
nove luas e repete-se a aventura,
as palavras, como aves de migração, regressam às bocas
apesar da prévia promessa imprudente de que seria diferente.

(The Pugilist, Foto: Tracie Taylor)



Poema da escritora e maruja RAQUEL SEREJO MARTINS que fermentou e passou para o papel na sequência da leitura do livro Quando Fores Mãe Vais Ver da escritora e timoneira deste Abril ANA SARAGOÇA.

21/04/2015

Ai ai minha mãe

[A leitura de Quando Fores Mãe, Vais Ver por Carla M. Soares]

Todos temos uma, e salvo os irmãos, cada um a sua, e cada qual  parece que com as suas especificidades. A minha, Deus sabe, tem uma imensidade delas, e são umas para cima, outras para baixo, umas que não trocava por nada, outras que me levam ao desespero.

Ao ler este livro, porém, juraria a pés juntos que, pelo menos nalgumas coisas, temos todos a mesma. Assim uma gigante mãe comum com um glossário acumulado de mezinhas, frases e dizeres para todas as ocasiões. Não foram poucas as vezes que dei por mim a lembrar-me de situações em que ouvi expressões dessas que, com uma ironia tão terna, a Ana Saragoça compila, explica e ilustra. A maior parte delas, como filha rebelde que fui, não me agradaram nem um bocadinho - mas agora, à distância de uma vida, o reconhecimento fez-me rir com vontade. Isso e a boa disposição com que se contam certos episódios, alguns quase familiares - pois é, Ana, eu também não tinha autorização para brincar na rua e, se calhar, também eu tenho a agradecer a isso os livros que li e... pois, se calhar até os que escrevo!

E porque eu também sou mãe, dessas modernas que fogem a sete pés de repetir o que ouviram da sua, dei por mim a fazer caretas. Pois é, eu também já disse aos meus filhos (e alunos...)  "e se os outros se atirarem a um poço, também vais?" O certo é que quem não é mãe foi filha e, para mãe ou filhas, este livro é uma pérola. É preciso ler.. E depois não digam que não vos avisei!


Nem todos os realizadores de cinema-catástrofe do mundo, com orçamento ilimitado para todos os evfeitos especiais, conseguiriam apresentar obra que chegasse aos calcanhares dos filmes que a minha mãe faz na cabeça. E atenção: ela realiza varios por dia, reunindo água, terra, fogo, ar, sexo, droga, violência, espectaculares acidentes rodoviários, aéreos, ferroviários, marítimos, animais selvagens fugidos de circos ou de jardins zoológicos, e ainda duas personagens sinistras que têm lugar cativo no elenco e a que gosto de chamar os GG - o Gandulo e o Galfarro." (pág.81)

05/04/2015

O MAR DAS MÃES

Já se sabe que o mês das mães é em Maio, mas no Colectivo NAU é quando nós quisermos, portanto será em Abril, com o livro Quando Fores Mãe Vais Ver e Outras Pérolas do Folclore Materno, de Ana Saragoça.  

Trata-se de uma compilação nada científica e em grande parte autobiográfica de frases que a autora verificou serem grandes clássicos universais do léxico materno, desde o apocalíptico ‘Se engolires a pastilha morres’ ao profético ‘Um dia vais agradecer-me’, passando pelo dramático ‘Mas que mal fiz eu a Deus?’. O cunho mais pessoal chega-nos pela via das mui específicas Alentejanices, um misto de frases regionais com outras inventadas pelas mulheres da família da autora.

Confessamos: o objectivo da NAU é passar o mês de Abril a injectar subliminarmente doses de culpa filial nos leitores. Se o nosso plano maquiavélico resultar, as mães terão em Maio um Dia inesquecível recheado de flores, mimos e – claro – livros.  

22/03/2015

MUDAR DE VIDA

[a leitura de Dizem que Sebastião por Ana Saragoça

‘… um remoinho arrastava folhas e papéis pelo chão numa coreografia de esperança voadora: afinal, as coisas inertes não o eram, voavam até, vindas dali e voadas para acolá, como as memórias, como os velhos amigos, os reais e os dos livros, como as despedidas, como os chapéus que continham serpentes; afinal, tudo esperava apenas o momento de redemoinhar.’


Quem me conhece sabe que tenho um ódio de estimação pelos chavões new age: poucas frases me irritam mais do que ‘Tudo acontece por uma razão’, e à pergunta de bolso sobre o meu signo respondo invariavelmente que sou Imperial com ascendente em Tremoço. E nem a minha história de amor mais longa e satisfatória, aquela que tenho com os livros, me faz mudar de ideias, apesar de ser tentador pensar que tudo acontece por uma razão misteriosa quando:

  • uma frase lida num livro nos salva da morte
  • uma personagem literária é tão, mas tão parecida connosco que temos a sensação incómoda de que ou autor plantou microfones na nossa vida interior
  • uma personagem cresce e é feliz mesmo depois de ter cometido a mesmíssima asneira que acabámos de cometer e nos parece irremediável
  • um livro responde a perguntas que nunca nos atrevemos a formular em voz alta

Tudo isto já me aconteceu, e mais do que uma vez. A última foi com Paula, de Isabel Allende. Comprei o livro nos primórdios do século. Comecei por adiar a leitura porque sabia que abordava a morte da filha da autora - eu tinha sido mãe em 1999 e não conseguia sequer pensar em abordar aquele tema. Depois li um um outro livro de Allende em que já não reconheci a autora de A Casa dos Espíritos, mas a repetição de uma fórmula que se tinha esgotado. Há um mês e pouco, tive uma emergência matinal: acabara um livro na noite anterior, estava à pressa para sair de casa e ainda não tinha escolhido a leitura seguinte. (Nota: sair de casa sem um livro é prenúncio certo de catástrofe.) Assim, abri de rompante o armário dos LPL – Livros Por Ler -, peguei num às cegas e saí porta fora. Deu-se o caso de ser Paula, e de retratar ponto por ponto uma situação que eu estava a viver, e de dar voz também a muitas dúvidas minhas em relação à escrita.

Foi verdadeiramente o livro certo no momento certo, mas nada há de místico nisso. Os amantes da leitura têm sempre as antenas ligadas para tudo o que os livros lhes possam dizer. Por isso é natural que encontrem neles tantas respostas que não esperavam. As coisas não estão à nossa espera para acontecer, acontecem e esperam que demos por elas. É precisamente o que acontece ao protagonista deste livro, e aos seus mui auspiciosos encontros com a estatuária lisboeta. Enquanto ele procura naquelas figuras a resposta a uma única pergunta, vai recebendo lições de vida vindas de todos os lados. Não, não é magia, nem misticismo: acontece que Sebastião resolveu apenas abrir os braços, os olhos e os ouvidos ao que o cerca.

É verdade que tudo acontece por uma razão, mas a razão tem de partir sempre de nós, não de um universo vago e indiferente. E a vida muda inevitavelmente para quem decide mesmo mudar de vida.  
    

27/02/2015

PARA ACABAR DE VEZ COM A INOCÊNCIA

[Texto: Ana Saragoça]

A guerra que se iniciou em 1914 na Europa ia acabar com todas as guerras. Governos, imprensa, e sobretudo jovens partiram cantando em direcção aos campos de batalha, a uma vitória mais do que certa, como certo era o regresso antes do Natal. O massacre a que todas as partes foram submetidas teve a dimensão diametralmente oposta às expectativas, e, em 1918, expediu de volta a casa os poucos que restavam com incuráveis cicatrizes físicas e emocionais. Não mais se partiria para um conflito de coração ligeiro e canções na boca, não mais haveria certezas sobre bem, mal, patriotismo, medo, cobardia, traição. Geração Perdida se chamou àqueles farrapos humanos incapazes de vislumbrar qualquer esperança, qualquer encanto, no mundo que tinham deixado para trás, cegos e destruídos pelo gás-mostarda, emudecidos pelo horror. A Grande Guerra continua a ser uma, a primeira travada na Europa no século XX. Não a que acabou com todas as guerras, mas a que matou para sempre a inocência.

Graças ao tema deste mês na NAU, apercebi-me de que minha iniciação na grande literatura se deu precisamente com os autores mais afectados por este conflito brutal. Não foi uma iniciação deliberada: aos onze anos descobri a Colecção Dois Mundos, da Livros do Brasil, e fui por ali fora com um apetite devorador.

Deixo-vos alguns dos títulos por onde a Grande Guerra passou e que me marcaram de modo indelével. E duas canções dos anos 80 que até hoje sei de cor. E a certeza, agora mais que provada, de que as guerras só têm vencidos.  

Do que foi lido...

Somerset Maugham – O Fio da Navalha
Somerset Maugham foi condutor de ambulâncias na frente, e demonstrava uma temeridade que assustava até os próprios camaradas.

Roger Martin du Gard – Os Thibault
Além de traçar um retrato meticuloso da sociedade francesa antes, durante e após o conflito, é muito útil para compreender as origens profundas da guerra que desfez a Jugoslávia já nos nossos dias.

Thomas Mann – Montanha Mágica
Começou a ser escrito muito antes da Guerra, e esta transformou-o num livro totalmente diferente da pequena novela inicialmente pensada pelo autor.

Ernest Hemingway - O Adeus Às Armas
Hemingway é, dos grandes nomes desta geração, o único que detesto. Detesto com conhecimento de causa, porque me obriguei a lê-lo todo com a tenacidade adolescente de quem se sente culpado por não gostar de alguma coisa. Este é, juntamente com Por Quem os Sinos Dobram, o único que realmente me tocou.

Erich Maria Remarque – A Oeste Nada de Novo
O único que li escrito por alguém ‘do outro lado’, e que me tocou mais do que todos os outros juntos. De tal modo que, ao ler Os Olhos de Tirésias, me emocionei quando encontrei Remarque.

E ouvido...




13/01/2015

A Flor do Meu Segredo

[a leitura de Esta Noite Não Aconteceu por Ana Saragoça]


Eu escrevi durante anos o que achei que as pessoas queriam ler, mas sinto-me cansada. Sei que posso ir mais longe. E para isso vou usar as minhas próprias memórias como ficção. E a minha própria vida como tema.

Esta Noite Não Aconteceu, página 73


Palavras de Rosário Toledo, cujo nome e ofício se associaram de imediato na minha mente à protagonista de um longínquo filme de Almodóvar. A memória do filme já está muito esbatida, mas ambas, Leo e Rosário, são prisioneiras do próprio sucesso como autoras de romance cor-de-rosa, ambas são frias e impiedosas, ambas têm um segredo monstruoso, ambas são cegas à realidade mais próxima, ambas são infelizes, e ambas são inventadas. Se são inventadas por si próprias ou por um realizador espanhol e uma escritora portuguesa, isso é secundário, até porque, tendo tanto em comum, são totalmente diferentes. O principal é que por trás do rosa mais vivo se esconde muitas vezes uma alma mergulhada na mais negra escuridão.

Tal como os passageiros frequentes passam por cima das instruções de segurança do pessoal de cabina dos aviões, assim os leitores batidos saltam enfastiados a tal ladainha de abertura nos livros: ‘Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com factos ou pessoas reais é mera coincidência.’ E fazem bem, porque é uma das mais cabeludas mentiras da literatura de todas as cores. Quantos de nós não se encontraram já retratados nas letras de um autor que nem sequer nos conhecia, que era mesmo pessoa para ter morrido umas valentes décadas antes da nossa vida ao mundo? Mera coincidência? Não. Acontece apenas que muitos dos nossos segredos mais íntimos já existiram em outros seres, que a seu tempo foram detectados por algum escritor.


Quanto ao que esta noite aconteceu, ou não aconteceu… isso é a flor do segredo da Sónia Alcaso. 

30/12/2014

O segundo Raimundo

É da Ana Saragoça este segundo Raimundo. E reza assim o início...


Dizem que Raimundo conhecia muito mundo. É uma afirmação que já se transformou em provérbio naquela aldeia da Beira Baixa, entalada entre serranias inóspitas e cada vez mais vazia. Raimundo homem é hoje uma imagem esmaecida na memória dos mais velhos, mas a sua presença imponente ainda habita os sonhos de quem cresceu na aldeia e hoje labuta pelos sítios mais díspares do planeta. Sim, estes homens e mulheres aprenderam a sonhar o mundo pela boca de Raimundo e por ele foram em sua busca.


É de ir descobrir que mundo conhecia, aqui...         


16/12/2014

COMO AS CEREJAS


E quase de certeza, se apostasse não perdia!, que à mesma hora, duas ruas abaixo, o Pedro entretido nos mesmos afazeres, com a minha, como a nossa Bo.

Raquel Serejo Martins, Pretérito Perfeito, página 118


As conversas são como as cerejas, sempre ouvi, uma puxa a outra, ou porque estão juntas num pezinho ou porque a primeira abre o apetite da segunda e assim sucessivamente até nada restar senão pés e caroços, de que é que estávamos a falar? De cerejas, pois. Eu sempre fui muito esquisitinha com a fruta, tem de estar madura-quase-podre para não me arrancar uma careta, e depois há a história dos caroços e do sumo vermelho que suja os dedos e pinga para a toalha. Bom, isto dos caroços é desculpa, não sou como aquela menina do jet-set que só come fruta descaroçada pela criada, ou como provavelmente se diz agora, técnica doméstica de descaroçamento. As azeitonas também têm caroços e eu sou moça para aviar uma fartura delas sem queixumes. Sim, para mim as conversas são como as azeitonas – pede-se sempre mais um pires, e pode levar daqui o patê de atum e o vomitado de sardinha, azeitonas e pão, vinho e conversas e sou uma mulher feliz. E queijo, falei do queijo? De que é que estávamos a falar?

Este Pretérito Perfeito da Raquel é como as cerejas, no meu caso azeitonas, que são como as conversas: nunca se sabe que voltas dará. O que é surpreendente, dado que o ponto de chegada do livro nos é dado logo à partida.

E no entanto.

Tantas e tantas taças de cerejas, ou pires de azeitonas, se consomem entre aquela partida e aquela chegada, tantas vezes a boca se retrai com uma cereja, ou azeitona, brutalmente ácida quando já nos deixávamos embalar na delícia, tantas vezes quis dizer não, Vasco, não, Raquel, engana-me, tu que tantas reviravoltas dás na escrita surpreende-me com uma última pirueta, vira-te para mim e diz era a reinar, pá! Acreditaste, és mesmo totó, vá, come lá mais uma cereja, ou uma azeitona, e deixa-me encher-te o copo, que estás com carinha de choro.

O que tem todo este arrazoado a ver com a citação que escolhi para o encabeçar? Nada, ou tudo, porque a escolhi totalmente ao acaso, abri o livro e li a frase, e bastou aquela frase para me me recordar tudo o que antes dela lera e tudo o que depois dela li. E saber encadear escritas como quem encadeia conversas que são como cerejas, ou azeitonas, acreditem, não é para qualquer um. É para uma cereja tão, mas tão especial que se escreve com S.
    

23/11/2014

Alma Submissa


[A leitura de Alma Rebelde por Ana Saragoça

‘Rosária não tinha ilusões acerca da vida, era velha. Sabia. A vida era dura e só tinha para oferecer as pequenas coisas, as satisfações do dia a dia, uma cama quente, um estômago cheio, uma ou outra gargalhada, a amizade dos que a rodeavam. E não era pouco, pois não? Mas Joana queria mais, queria… o que queria a sua menina? A ilusão da liberdade, de que tantas vezes falava? Rosária não entendia. De que servia a liberdade, de estômago vazio?’
Alma Rebelde, página 77

Até há menos de cem anos, era mais do que normal: as filhas, fossem aristocratas ou plebeias, serviam de moeda de troca para melhorar – e muitas vezes salvar – a situação da casa paterna. Não vivi nesses tempos, mas imagino que, conquanto tal estatuto não fosse à partida atraente, seria encarado e aceite como inevitável por quase todas as jovens. Mas, imagino também, não por todas. Não por esta Joana. Só que a rebeldia de Joana é tremendamente parecida com submissão. Sabemo-la rebelde apenas porque, ao longo deste romance tântrico em que todos os estados de alma das personagens são descritos até ao último pormenor, vamos acompanhando não o seu percurso externo mas o que lhes passa pela cabeça.

Para mim, Joana personifica perfeitamente a maneira de ser portuguesa, este nosso fado de resmonear entredentes enquanto alombamos calados com toda a espécie de injustiças; o lusíssimo ‘Vou, mas vou contrariado!’; o esperar, quase procurar obstáculos a cada momento de felicidade só para poder dizer a seguir: ‘Eu sabia! Era bom demais! Quando a esmola é grande, o pobre desconfia!’

Joana passa quase todo o livro com a chave vencedora do Euromilhões na mão: um noivo que, apesar de imposto pela família, a ama e é amado por ela. E o que faz? Olha constantemente por cima do ombro, pensando que aquilo é para os Apanhados.

Há porém neste livro uma alma que verdadeiramente leva a sua rebeldia às últimas consequências, arriscando a vida e a dos seus filhos por amor. Só a conhecemos epistolarmente, é a desventurada/aventurada prima Ester, que se lança de cabeça numa paixão extra-conjugal:
‘Talvez te tenha feito acreditar que a felicidade é impossível. Mas não é. (…) Espero que não lhe vires as costas, por pudor ou por medo. A vida é um longo inverno, para quem não conhece o amor.’ (página 197)

Põe os olhos na tua prima, Joana, e suga-me esse Santiago até ao tutano.




26/10/2014

Açoriana Jones e a Atlântida Perdida

[Ana Saragoça e a leitura de «Capítulo 41»]

Fechem os olhos. Ah, Açores. O arquipélago dos sonhos. Verde, vaquinhas e vagas a perder de vista. Retiro solitário de artistas e poetas. 

Já visualizaram? Agora abram os olhos, leiam o livro do Pedro Almeida Maia e despeçam-se de vez dessa imagem idílica. Ou melhor, façam de conta que é tudo o enumerado acima, mas mergulhado num oceano de crime, mistério, sexo e suspense. E humor. Pensem em todos os filmes de aventuras que já viram, todas as séries policiais que acompanharam, todas as bandas desenhadas míticas que leram, e imaginem tudo isso passado em nove ilhas paradisíacas a meio caminho entre a Europa e a América. O título do resultado é Capítulo 41, mas só porque seria difícil escolher entre muitos como: 

Corvo Maltese
Ocean’s Nine
Lei & Ordem & Açúcar de Beterraba
O Anti-Ciclone dos Amores
CSI Ponta Delgada
Nove Ilhas e Meia de Seda
Choque de Fajãs
Gente Feliz aos Tiros


Pela minha parte, da próxima vez que pousar o pé no arquipélago – e espero fazê-lo muito em breve -, ficarei atenta, não vá ser seguida por um Orc regional de capote e capelo…

16/10/2014

O nosso Homem da Atlântida

[Ana Saragoça traça o perfil de Pedro Almeida Maia]

Grata e ingrata a tarefa, a de traçar o perfil do nosso marujo mais ocidental. Grata porque já tive o prazer de o conhecer e gostei muito dele; ingrata porque, ao contrários dos outros marujos, sempre a bem dizer aqui à mão de semear, o Pedro ainda só uma vez honrou presencialmente os nossos encontros, embora seja participante activo no convés da nossa NAU. Grata porque habita fisicamente no território onde moram os meus sonhos; ingrata porque a dimensão do seu perfil não pode reduzir-se a esse exotismo fácil.

No nosso primeiro e único encontro, senti com ele a empatia que já me tinha ligado aos outros autores da NAU. Éramos amigos, só ainda não nos tínhamos conhecido.

O Pedro tem um sorriso luminoso que casa perfeitamente com a luminosidade das mensagens que troca connosco. Nasceu em 1979, em Ponta Delgada, onde cresceu, ingressou na universidade, desingressou, e, na curva dos trinta, deu largas à escrita: crónica, conto, novela, romance, literatura infantil, de tudo fez e faz. Apesar de viajado, sempre acreditou que podia vingar no seu país e na terra onde cresceu, mas cada vez mais sente que estar longe da força centrípeta de Lisboa e insistir em ser português em Portugal são desafios difíceis e muitas vezes desencorajantes.

A vida, como a literatura, faz-se de rascunhos sucessivos, de cada um aproveitando o melhor. Por isso voltou aos estudos, desta vez em Psicologia. O melhor do seu rascunho amoroso foi a filha de 9 anos, a que passou para a folha limpa cuja escrita empreende agora com a também luminosa Cristina. Escreveu livros e fez uma filha; ignoro se plantou alguma árvore. Mas, depois de o conhecer, acredito que, se o fez, ela sobressairá até na luxuriante verdura micaelense. Porquê? Porque é jovem, talentoso e transpira força interior. E porque quem chega a um primeiro encontro com colegas escritores tresandando ao cheiro dos queijos deliciosos que carinhosamente lhes trouxe só pode ter uma auto-confiança invejável.

21/09/2014

Do Infinito Consolo das (Mulheres de) Letras

[Ana Saragoça e a leitura do «Revolução Paraíso»]

‘Das trevas de um desespero incomensurável espigou a invenção das mulheres de letras. Forjou-as como seres capazes de o acarinharem incondicionalmente e sem segundas intenções. Eram mulheres ansiosas por resgatá-lo àquele desgosto sem fim.
- Mulheres capazes de me recolherem no colo e afagarem o cabelo.’
Revolução Paraíso (págs. 219/220)


Comecei a aprender História nas paredes. Ainda não sabia que ela estava a acontecer à minha frente, mas não perdi pitada dos emocionantes desenvolvimentos diários dos primeiros tempos pós-25 de Abril. No banco traseiro do carro do meu pai, esborrachava o nariz contra o vidro e lia as paredes onde se exprimiam graficamente os embates de todas as facções em harmonia (soldados, camponeses e operários de braço dado numa caminhada de peito aberto em direcção a amanhãs cantantes) e em conflito (capitalistas de chapéu alto, casaca e narizes aquilinos, chupando enormes charutos e escondendo atrás das costas bombas iguaizinhas às dos Looney Tunes). E os símbolos: a foice e o martelo, a estrela vermelha, o punho erguido, a roda dentada, as três setinhas. E os galhardetes: comuna, facho, vira-casacas, burguês, reaça, bufo. E os slogans, cuja infinita variedade deixo à descoberta do leitor na prodigiosa compilação contida neste livro.

Ao contrário da minha mãe, geneticamente programada para o medo, eu achava tudo aquilo uma festa pegada, uma festa linda, tão linda que nos cartazes em que o PRP mandava ‘armar o povo’ eu lia sempre ‘amar o povo’. E os adultos eram uma fonte inesgotável de entretenimento. Não havia reunião de amigos ou familiares que não acabasse aos berros e aos murros na mesa: ‘Eu estive em África, pá!’ ‘Não foi para isto que se fez o 25 de Abril!’ ‘Era todos encostados à parede e fuzilados!’ – de repente, homens incapazes de matar uma mosca ficavam de cinco em cinco minutos a uma unha negra de se esganarem mutuamente, com as mulheres divididas em duas facções: as que gritavam para eles não se degraçarem e as que gritavam em incitamento, giríssimas como a Pandora do livro, de saias curtas, sapatos de plataforma, maquilhagem berrante e sempre sempre de cigarro em riste, céus, como eram giras aquelas mulheres e como eu sonhava vir a ser como elas.

Comecei a ler nos enormes jornais de parede do MRPP, gritos amarelos, vermelhos e pretos desenhados com uma precisão directamente contrastante com o ar descabelado dos seus autores. O amor pelas letras, que já vinha da primeira infância, cresceu exponencialmente ao vê-las saltar das páginas dos livros para as paredes da cidade. E até hoje é nas letras que reside a maior fonte de consolo e emoção e excitação que conheço.

Que tem isso a ver com mulheres de letras? Para saber isso terão de ler o livro do Paulo.

31/07/2014

a viagem da timoneira Ana Saragoça

Terceiro mês de navegação do Colectivo NAU, terceiro livro. A viagem de «Todos os Dias São Meus» foi bem recheada. O perfil da autora - e timoneira de Julho - Ana Saragoça esteve a cargo da Carla M. Soares. Depois, a Cristina Drios encontrou a cura pela literatura, o Pedro Almeida Maia ficou algemado pela Ana, o Paulo M. Morais lembrou-se de coisas da vida, o João Rebocho Pais enrolou-se em trambolhões, a Carla M. Soares esteve no bailarico com o pequeno romance, a Sónia Alcaso apontou que o livro se mostrava indisponível para morrer e a Raquel Serejo Martins fez uma soma de pequenos nadas.

A timoneira, como se não bastasse o trabalho de ter escrito o seu livro, aplicou-se a responder ao questionário de Proust e depois ainda nos deu um texto intitulado 'Todos os Dias' nos dias da minha vida. Obrigado por esta magnífica navegação, Ana!

O Julho da NAU ficou também assinalado pelo segundo jantar do Colectivo, que a Carla M. Soares cronicou, e por um encontro entre os leitores da Roda dos Livros e alguns marujos, que a Márcia Balsas referiu no seu blogue Fugir para Ler. E ainda tivemos o lançamento do segundo livro do João Rebocho Pais, "Dizem que Sebastião". Mês cheio este. Cheio de belos momentos.

30/07/2014

‘Todos os Dias' nos dias da minha vida

[a autora Ana Saragoça sobre o seu «Todos os Dias São Meus»]

Tenho um amigo que diz: ‘Nunca conheci uma alentejana que não fosse acelerada’. E quem passe um dia que seja numa localidade alentejana verá que o mulherio anda sempre numa fona. Quando lá passo uns dias, a casa dos meus pais é visitada por imensas primas e amigas que estão sempre a caminho de fazer alguma coisa. A minha prima Maria Joaquina, de 80 e muitos anos, está no lar da terceira idade, sim senhora, mas para não se aborrecer tira e põe as mesas e descasca todas as batatas que lhe puserem na frente, ‘eu tenho lá vida para ficar a olhar para as paredes, filha’. 

Eu herdei a feminina aceleração alentejana, mas infelizmente alio-a a uma forte dispersão. Sou desorganizada, e tenho sérios problemas em acabar o que começo, a não ser que tenha um prazo a ladrar-me às canelas. 

Comecei a escrever Todos os Dias São Meus em 2001. Estava deprimidíssima, a profissão para a qual estudara e a que me tinha dedicado de corpo e alma já não me queria. Tinha feito uma pausa no teatro para ter um filho e, no momento em que o fiz, deu-se o boom da ficção televisiva, do qual perdi o comboio. Com trinta e quatro anos, era muito nova para fazer de velha, e muito velha para fazer de nova – na época eram as únicas faixas etárias admissíveis, hoje felizmente isso mudou, mas tarde demais para mim. 

Uma noite recordei em sonhos o cão de uma amiga que vomitava sempre que entrava num elevador. Só que no meu sonho aparecia também a minha então vizinha do rés-do-chão, uma megera metediça. Acordei, sentei-me ao computador e nasceu a Porteira que abre o livro. E mais algumas personagens.

E entretanto meteu-se a vida. Precisava de me reformular profissionalmente e dediquei-me ao ofício que sempre exercera a par do de actriz, a tradução. E aí há sempre prazos a ladrar-nos às canelas, sempre. A história que tinha começado e que na minha cabeça já completara até à última frase não tinha pretensões caninas, portanto foi dormir numa disquete. 

Em 2010 reencontrei um grande amigo de juventude, que nos idos de 80 me tinha influenciado tremendamente as leituras. Ao ler o seu blog, lembrei-me de repente da minha história adormecida. A medo enviei-lha, e em resposta recebi a ordem de a terminar. Agora tinha uma voz imperiosa a pressionar-me, e outros olhos que não os meus tinham lido o que escrevera, portanto fiz de conta que tinha um prazo a ladrar-me às canelas e terminei-o. 

Saiu-me pequenino como era o meu filho ao nascer, um coelhito esfolado de dois quilos e seiscentos que ficava a nadar em todos os babygrows. Mas, tal como o meu filho, achei-o composto e consegui deitá-lo ao mundo. 

Demorei 11 anos a produzir 100 páginas. No ano seguinte, com um prazo a ladrar-me às canelas – um ladrido simpático mas exigente – produzi um livro com muitas mais. 

Leio com inveja sobre as rotinas de escrita dos autores que mais admiro, e em todos encontro uma linha comum: a disciplina. Ou isso ou são mentirosos, também pode acontecer. Mas a verdade é que escreveram e escrevem e publicam livros fantásticos. E eu continuo a tentar convencer-me a fazer todos os meus dias dias de escrita, mas deixo a vida entrar por todos os lados e lá se vão as boas intenções. Alguém me ladre às canelas, por favor, porque escrever e ser lida é para mim uma felicidade incomparável. 

29/07/2014

Enrolado aos trambolhões

[João Rebocho Pais e a leitura de «Todos os dias São Meus»]

«No colégio havia uma empregada alentejana. Passava a vida a falar na terra dela. Vila Nova da Baronia. Eu, que não fui nunca de lugar nenhum, invejava aquele pertencer tanto a algum sítio. O nome da vila punha-me logo a ver muralhas numa planície amarela.
Santa Águeda curada por S. Pedro na prisão,
de Giovanni Martinelli
Um dia, depois das férias da Páscoa, ela voltou com fotografias da terra. Muralhas, nem vê-las. Mas não era preciso. Ser daquelas pedras frente à igreja branca; ser daquele largo com laranjeiras, ser daquela estação de caminho-de-ferro tão limpa e florida; e ser daqueles campos, não amarelos, mas verdes, verdes porque 'é a altura das festas de Sant’Águeda, que é quando o campo está mais bonito'; se eu fosse de algum sítio, decidi logo ali aos treze anos, queria ser de Vila Nova da Baronia.
Não perdia uma oportunidade de ouvi-la de contar as trezentas mil histórias da vila. Fiquei a conhecer-lhe todos os vizinhos, a loja onde se aviava, o posto dos correios, os Bailes da Pinha na Sociedade, as festas na Casa do Povo, os funerais, a procissão onde chegara a ser a Verónica, o casamento da irmã com o homem que ela sempre quisera para si, o desfile do Entrudo, coisa séria e de gente grande, para o qual raparigas e rapazes se preparavam primorosamente – lá vai a Isabel de índia, lá vai a Dete de joaninha, depois de horas a fazer bolinhas com um furador em papel de lustro preto e a colá-las nas asas de papel encarnado, o Zagaia de mulher, o António Zé sem dentes e de cajado a fazer de velho.»
Todos os Dias São Meus (pág. 40/41)

Escolhi este pequeno trecho do livro sem nenhuma razão em especial.
E porquê? Porque qualquer bocado do livro que trouxesse para falar seria bom. Esta é a primeira conclusão a que cheguei ao terminar o livro da Ana. Todas as palavras, frases, períodos ou parágrafos estão vestidos a rigor e sem mácula nem sobras. Nada a mais, nada em falta. O enredo faz jus à estrutura que ela utiliza, uma coisa promiscua, em que nos agarra, aos leitores, nos envolve com a gente que ela criou do nada, no alvoroço de uma imaginação tão fértil quanto real, em que nos deixa com a sensação de que não nos iremos sem antes lhes perceber o destino, os tiques, as ‘coisices’ que tanto e tão bem reconhecemos.

Poderia, mas não vou fazê-lo, enquadrá-la no registo de escrita de outro autor que me fascina. Seria no entanto injusto. Ele é ele, a Ana é a Ana. Ou seja, nem o Mário Zambujal é para aqui chamado, nem a Ana é daqui levada. Mas lá que ambos têm aquele condão de nos enrolar aos trambolhões por entre ruas e escadas que subimos e descemos sem sequer desejar respirar, lá isso é verdade. Mas pronto, não vou compará-los.

Por um acaso que me levou a passar uma tarde entre leitores que gostam de conhecer autores, fui arrasado com uma representação da Ana, em que lia alto um pequeno trecho do seu livro. Num qualquer outro lugar com paixão pela escrita, a Ana veria este seu romance levado ao palco. Um monólogo que se tornaria imparável. Consigo facilmente imaginar-lhe um público fascinado. E, porque esse lugar de paixão pela escrita não será certamente este em que vivemos, fico-me pela imaginação e confissão pública.

«Todos os Dias São Meus» deve ser lido, absorvido, repetido.
Sorte a minha que já o fiz, e por isso, apenas por isso, vos aconselho a experimentar.
Procurei o livro nas livrarias, para comprar e oferecer, mas ‘não havia, estava esgotado’. Não esmoreci, falei com a Ana Saragoça e ela tratou de mo pôr ao colo.
Façam-no também.
Não por mim. Não pela Ana. Mas porque é bom.
Muito bom!

28/07/2014

Lembrar-me de mim

[Paulo M. Morais e a leitura de «Todos os Dias São Meus»]

«Este caderno, esta escrita, lembram-me de mim, e estranhamente não me desagrada a lembrança. De súbito parece-me apropriado aproveitar este título que o acaso me deitou ao caminho para pôr em ordem o deve e o haver da minha existência. A razão de me encontrar aqui.»
Todos os Dias São Meus (pág. 16)

Galáxia em espiral Messier 83
imagem: ESA
Eu lembrei-me de mim quando li o livro da Ana Saragoça. Recordo-me até de, na altura, ser outra a citação que mais se refletia no meu momento de vida. Algo que iluminava, em frases curtas e concisas, uma “verdade” que me estava subjacente. Porém, o nosso percurso tem tanto de constante como de irregular. O que era importante perde substância; o que era insignificante ganha peso. Por isso não escolhi a citação que tanto me disse há meses atrás. O que foi então algo quase cosmogónico, é agora um mero detalhe num quadro mais complexo.

Pouco interessa esta mudança. O importante é haver um livro que nos fica no inconsciente como tendo participado no nosso caminho. Livros que nos questionam sobre as nossas razões e atitudes; livros que nos remetem para leituras diferentes dos sentimentos que vivemos. Tenho a certeza de que quando voltar a ler “Todos os Dias São Meus” já será outro excerto a mexer comigo. Essa é a riqueza deste livrinho (que só é “inho” no tamanho): poder-nos acompanhar ao longo dos anos, mantendo a capacidade de nos dizer coisas novas. Sempre com a palavra justa, a frase polida, o parágrafo rematado. Nisso, a perfeição está alcançada. E, por estar impressa em livro, manter-se-á pela espiral do tempo como uma espécie de galáxia literária.


27/07/2014

Pequenino e bailarino

[Carla M. Soares e a leitura de «Todos os Dias São Meus»]

É pequenino, o livro da Ana Saragoça,  pequenino e bailarino. Pegamos nele, baila-nos nas mãos sem detença, como se tivessemos calçados sapatos vermelhos, e quando damos conta dançou-nos para fora da pista. Ficamos a olhar para ele em fúria, mas porque é que este livro não é maior? E com vontade de começar de novo, e se pousasse a agulha outra vez no início do vinil, ouviria a mesma música agora que lhe conheço os acordes finais?

Prima Ballerina, de Degas
Dançamos com vários pares quando nos deixamos tomar nos braços por «Todos os Dias São Meus», cada qual com seu ritmo. O tango da artista e do engenheiro, o vira do engenheiro com os filhos, o hip-hop destes rapazes com a vizinhança, o fadinho malandro da vizinha de cima, uma dança tradicional "craniana" afinal moldava, os acordes de violino cansado do idoso solitário… E, porque o livro é pequeno, é dança sempre só  de um instante, meia canção, a deixar água na boca para mais um pouco. Há um crime, mas o crime pouco importa. Importam as vozes atravessadas das personagens, queria ter ficado com os pés moídos de revoltear com elas até ao pormenor, escada acima escada abaixo, para dentro e para fora dos apartamentos deste prédio onde ninguém-sabe-nada-todos-sabem-tudo-da-vida-dos-vizinhos. Podia valsar com a Razão, a Razão precisa de ser entontecida numa valsa antes do final.

E no fim compreendemos que a inocência deste baile de vizinhos é ilusória. Corrompida por solidões e vícios e manias, minada por sarcasmo em rede fina, no fim uma gargalhada na nossa cara de parvos de leitores. Uma brincadeira séria. E isso é o melhor.  Dançava tudo de novo.

"Ah, isso. Não, disso não sei nada. Eu moro no quinto, ela morava no terceiro, não sei o que é que se passou. Pronto, sei aquilo que toda a genta sabe, que morava sozinha, até diziam que alguém lhe tinha posto casa, mas ela de bonita não tinha nada, e dali não entrava nem saía ninguém senão ela, quero dizer, acho que não saía, eu nunca vi, se lá entrava ou não não sei, nem quero saber, que eu não sou de me meter na vida de ninguém."
Todos os Dias São Meus (pág.10)



24/07/2014

Saragoça algemou-me

[Pedro Almeida Maia e a leitura de «Todos os Dias São Meus»]

Que dizer de um livro que se devora? De uma história que se consuma na mente do leitor sem qualquer esforço? Ainda mal abrira a capa, e já me deixava seduzir pelo misterioso equídeo em tecido colorido, que Ana Saragoça usa como adorno alfaiado deste Todos os dias são Meus. Saragoça não meteu propriamente Alberto Caeiro no papel, mas corre-lhe nas veias a magia do heterónimo pessoano.

São as primeiras páginas que prendem. As primeiras frases, palavras e interpretações colam-se à fantasia como mel nos dedos. Tal como manda a lei — se é que ela existe —, é impossível abandonar o misterioso acontecimento, revelado mal se abre a porta às hostes. Como apreciador de um bom crime literário — sublinhe-se, no papel — sou irrevogavelmente suspeito, mas daquela irrevogabilidade verdadeira. Saragoça algemou-me ao papel e deitou fora a chave.

fonte: Wikimedia Commons / Klaus with K
Para o leitor que deseja emoção com tradição, este livro arrebatará. Vestir a pele de um investigador mudo dará um êxito de bilheteira no cinema. Verbalizará as perguntas do polícia aos moradores do edifício citadino, mesmo sem as ver no texto, e sentir como se se vestisse de Sherlock Holmes e anotasse todos os testemunhos dos suspeitos. E que suspeitos! A destreza de Ana Saragoça inclui uma sugestionabilidade incrível, tão bem conduzida que permite ao leitor atribuir as características das personagens com apenas duas ou três linhas de narração-desprovida-de-narrador.

Neste estilo, puxando a brasa ao meu favorito, se a escrita de Ana Saragoça não vale ouro, não vale nada. Ana provoca e domina, induz expetativa, curiosidade e envolvência, relata o caos e até o erotismo com graça e muita audácia. Preciso de subir neste elevador. Preciso de mais uma dose.

22/07/2014

Uma cura pela literatura

[Cristina Drios e a leitura de «Todos os Dias São Meus»]

A leitura pode proporcionar, já se sabe, conhecimento, entretenimento e terapia. E é desta última qualidade que, por estranho que vos pareça, vos falarei, a propósito da leitura do romance “Todos os Dias São Meus” da Ana Saragoça. De facto, a vertente terapêutica da literatura está comprovada por estudos científicos. Talvez não saibam que, por exemplo, em França, durante a Grande Guerra, a leitura de romances específicos era recomendada aos soldados, nos seus tempos livres. Recentemente, li algures que nos Estados Unidos da América, os psicólogos “receitavam” regularmente livros em vez de comprimidos. Sem consultar nenhum especialista, sempre me dei bem com esta terapêutica. Se estiver mal, não tomo nada, pego num livro. Se o livro for bom, em geral, começa a fazer efeito após meia hora, uma hora de leitura. Se o livro for excelente, como no caso de “Todos os Dias São Meus”, começa a fazer efeito a partir das primeiras linhas. Não existe substância química – que eu saiba – tão eficaz. O problema é, tal como com os medicamentos, não sabermos à partida se o que estamos a tomar é verdadeiramente adequado ao nosso mal. Certos livros são apenas placebos, outros podem ser uma óptima terapêutica mas não ser a indicada para o nosso caso. Ora, nunca me tinha acontecido ler um livro que me curasse. Era, na verdade, uma coisa sem importância, uma ideia parva, de que só nos lembramos de vez em quando, como uma urticária incomodativa, e que guardamos, sem contar a ninguém, até perdermos totalmente o sentido do ridículo. Como já o perdi, vou então contar-vos: toda a vida morei num prédio com elevador e toda a vida sofri de alguma imaginação. E sempre que entrava no átrio do prédio, a penumbra e o fresquinho faziam-me temer que ao chegar o elevador, abrindo-se a porta exterior de rompante, se me deparasse um morto, por detrás das grades. Nenhum morto em particular, um morto qualquer, desconhecido! Cheguei mesmo a escrever um conto sobre isso. Foi, porém, a leitura do romance “Todos os Dias São Meus” da Ana Saragoça que me curou. Sem vos desvendar a intriga, imaginem o meu espanto ao, logo nas primeiras páginas do livro, me deparar com esta cena:

“E estava muito desfigurada? Quando eu lá cheguei já não consegui vê-la, estavam a levá-la toda tapada. Nem me deixaram entrar no elevador, caramba, também que exagero, afinal uma pessoa mora aqui, tem direitos, não é, se calhar até podia encontrar alguma coisa que ajudasse a Polícia. E não está certo obrigarem uma pessoa a subir as escadas a pé. Tiravam o corpo, limpavam, e deixavam as pessoas irem à vida delas.
Mas olhe que foi uma coisa feita com cuidado. À hora do jantar, num elevador, podia ter sido apanhado.”
Todos os Dias São Meus (pág. 12)


O que é certo é que depois de ler o “Todos os Dias São Meus” nunca mais temi encontrar um morto qualquer, desconhecido, sem rosto nem identidade, esvaído dentro do elevador. Nunca mais me assustei e estremeci ao abrir a porta e ao espreitar pelas grades. Agora entro no átrio do prédio, adianto-me na penumbra e no fresquinho, carrego no botão de chamada, oiço o gemer da maquinaria, o resfolegar ao aterrar no rés do chão, a campainha perlimpimpim que retine, abro a porta de rompante e lá está a tua personagem, Ana Saragoça! Está mortinha da silva mas é uma conhecida, uma amiga! Os vizinhos, se espreitarem pelo óculo, desconfiarão do meu sorriso tolo, paciência... E assim em todos os meus dias, sem excepção, por vezes repetidamente, porque moro no sexto, “Todos os Dias São Meus”!

20/07/2014

20 confissões proustianas de Ana Saragoça

Desafiei os meus leitores e amigos no Facebook a escolherem 20 perguntas de entre a lista imensa que é o questionário. Agradeço a todos a boa vontade e o facto de terem escolhido algumas de que eu queria fugir a sete pés…

A minha ideia de perfeita felicidade (sugerida por Linda David)
Amar e ser amada, escrever, ver os meus filhos felizes.

O meu maior medo (sugerida por Rogério Vieira):
A morte dos que mais amo.

A característica que mais me desagrada nos outros (sugerida por Olívia Azevedo-Duncan): 
A desonestidade.

Aung Sang Suu Kyi
A pessoa viva que mais admiro (sugerida por Carlos Pisco, Eugénia Vasques, Cristina Benedita e Gabriela Bruno): 
Aung San Suu Kyi, Malala Yousafzai; e todos os milhões de anónimos que por esse mundo fora arriscam a vida pelos seus direitos e pelos dos outros.

A minha maior extravagância (sugerida por Andreia Macedo e Teresa Sobral):
Ai, já não tenho! Mas, quando ainda tinha, era um bom perfume. Um dia…

A virtude que me parece mais sobrevalorizada (sugerida por Miguel Côrte-Real Matias, Ana Pedrosa, Pedro Mamede e Cristina Benedita): 
A humildade.

As ocasiões em que minto (sugerida por Virgínia Garcia, Pedro Sande, Pedro Mamede): 
Só quando é estritamente necessário, e, francamente, quase nunca é. De resto, se dantes a mentira tinha pernas curtas, agora, com toda a gente em rede, é completamente perneta…

A minha qualidade preferida num homem (sugerida por Rita Lello): 
Inteligência. E sentido de humor!

Quando e onde fui mais feliz (sugerida por Nuno Cardoso Dias): 
Já tive tantas épocas felizes… A mais recente, especialíssima, foi nos Açores, em 2012. Nunca vi tanta beleza junta nem os meus filhos tão felizes.

O talento que mais gostaria de ter (sugerida por Catarina Gonçalves e Rosana Cordovani): 
Peço emprestadas as palavras de Almada Negreiros: ‘Eu admiro toda a gente que saiba fazer qualquer coisa de que eu não seja capaz - toda a gente faz qualquer coisa que eu não sei.’

O que considero o meu maior feito (sugerida por Maria Joana Andrade):
Ter produzido o filho e a filha mais fantásticos e extraordinários e tudo e tudo e tudo do mundo e do estrangeiro.

O meu bem mais precioso (sugerida por Cristina Benedita):
O conteúdo dos livros que li.

O é para mim atingir o fundo (sugerida por Fernanda Neves):
Não sei. Quando penso que bati lá, há sempre um pouco mais de fundo.

A minha característica mais vincada (sugerida por Teresa Pais): 
A sede de saber.

O que valorizo mais nos meus amigos (sugerida por Eugénia Bettencourt): 
Gostarem de mim é muito simpático. Para além disso, lealdade, sentido de humor e todas as pequenas coisas que os tornam únicos.

O meu herói na ficção (sugerida por Maria Emília Macedo):
João sem Medo, Jean Valjean, Jo March.

A figura histórica com que me identifico mais (sugerida por Milay Teles): 
As sufragistas de todo o mundo e principalmente as portuguesas, que foram instrumentais na implantação da República e de imediato descartadas.

Um arrependimento (sugerida por Rui Geada e Luís Latas) : 
Ter deixado que a vida me afastasse da minha melhor amiga de juventude.

Como gostaria de morrer (sugerida por Cristina Benedita e Olívia Azevedo-Duncan): 
Depressa e sem sujar muito.

O meu lema (sugerida por Maria Dulce Martins):
‘O carácter é o destino’, Heraclito de Éfeso