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07/07/2015

Folclore Materno


Entre uma mãe e um filho                                                                     
um coração a bater fora do corpo
um novo horto,
os perigos, os medos, os sustos,
a falta de cartilha e solidão nenhuma.
O amor a tender para infinito
e a tentativa de explicar o amor ao mundo,
como se o mundo não soubesse,
quando o mundo está cansado de saber
ou não fosse assim desde que  o mundo é mundo.

Entre uma mãe e um filho,
uma erudição doméstica
feita em segredo, um camaleão invisível,
a roupa lavada, a cama feita, a mesa posta,
beijos nos dedos dos pés,
beijos nas pálpebras,
gestos milenares repetidos, tecidos
ao som de ancestrais sons de embalar.
E embalado o tempo passa,
tudo medra, cresce, envelhece,
o tempo sem ciência nem mistério,
e apesar da transparência tudo etéreo.


Entre uma mãe e um filho
a insolência da adolescência,
os dois sócios de uma empresa em aparente falência.
Sem cordão umbilical, o novo corpo quase do tamanho do original,
mais iguais os gestos, o nariz, a teimosia,
os afectos do avesso e saudades do menino travesso.
A mãe uma harpia, um novo léxico agora sem poesia,
palavras-pedra-granada-explosão,
contra um caduco vocabulário íntimo,
contra um sempre para teu bem
em todas as bocas de mãe.
Depois, porque as mães todas iguais
ou porque mãe há só uma,
nove luas e repete-se a aventura,
as palavras, como aves de migração, regressam às bocas
apesar da prévia promessa imprudente de que seria diferente.

(The Pugilist, Foto: Tracie Taylor)



Poema da escritora e maruja RAQUEL SEREJO MARTINS que fermentou e passou para o papel na sequência da leitura do livro Quando Fores Mãe Vais Ver da escritora e timoneira deste Abril ANA SARAGOÇA.

21/04/2015

Ai ai minha mãe

[A leitura de Quando Fores Mãe, Vais Ver por Carla M. Soares]

Todos temos uma, e salvo os irmãos, cada um a sua, e cada qual  parece que com as suas especificidades. A minha, Deus sabe, tem uma imensidade delas, e são umas para cima, outras para baixo, umas que não trocava por nada, outras que me levam ao desespero.

Ao ler este livro, porém, juraria a pés juntos que, pelo menos nalgumas coisas, temos todos a mesma. Assim uma gigante mãe comum com um glossário acumulado de mezinhas, frases e dizeres para todas as ocasiões. Não foram poucas as vezes que dei por mim a lembrar-me de situações em que ouvi expressões dessas que, com uma ironia tão terna, a Ana Saragoça compila, explica e ilustra. A maior parte delas, como filha rebelde que fui, não me agradaram nem um bocadinho - mas agora, à distância de uma vida, o reconhecimento fez-me rir com vontade. Isso e a boa disposição com que se contam certos episódios, alguns quase familiares - pois é, Ana, eu também não tinha autorização para brincar na rua e, se calhar, também eu tenho a agradecer a isso os livros que li e... pois, se calhar até os que escrevo!

E porque eu também sou mãe, dessas modernas que fogem a sete pés de repetir o que ouviram da sua, dei por mim a fazer caretas. Pois é, eu também já disse aos meus filhos (e alunos...)  "e se os outros se atirarem a um poço, também vais?" O certo é que quem não é mãe foi filha e, para mãe ou filhas, este livro é uma pérola. É preciso ler.. E depois não digam que não vos avisei!


Nem todos os realizadores de cinema-catástrofe do mundo, com orçamento ilimitado para todos os evfeitos especiais, conseguiriam apresentar obra que chegasse aos calcanhares dos filmes que a minha mãe faz na cabeça. E atenção: ela realiza varios por dia, reunindo água, terra, fogo, ar, sexo, droga, violência, espectaculares acidentes rodoviários, aéreos, ferroviários, marítimos, animais selvagens fugidos de circos ou de jardins zoológicos, e ainda duas personagens sinistras que têm lugar cativo no elenco e a que gosto de chamar os GG - o Gandulo e o Galfarro." (pág.81)

05/04/2015

O MAR DAS MÃES

Já se sabe que o mês das mães é em Maio, mas no Colectivo NAU é quando nós quisermos, portanto será em Abril, com o livro Quando Fores Mãe Vais Ver e Outras Pérolas do Folclore Materno, de Ana Saragoça.  

Trata-se de uma compilação nada científica e em grande parte autobiográfica de frases que a autora verificou serem grandes clássicos universais do léxico materno, desde o apocalíptico ‘Se engolires a pastilha morres’ ao profético ‘Um dia vais agradecer-me’, passando pelo dramático ‘Mas que mal fiz eu a Deus?’. O cunho mais pessoal chega-nos pela via das mui específicas Alentejanices, um misto de frases regionais com outras inventadas pelas mulheres da família da autora.

Confessamos: o objectivo da NAU é passar o mês de Abril a injectar subliminarmente doses de culpa filial nos leitores. Se o nosso plano maquiavélico resultar, as mães terão em Maio um Dia inesquecível recheado de flores, mimos e – claro – livros.