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10/06/2014

Intrínseco João

[poema de Raquel Serejo Martins, inspirado em «O Intrínseco de Manolo»]

João Rebocho Pais
é dos Olivais,
e parece-me que estou a vê-lo
de fisga na infância atrás de pardais.
Atrás de pardais, atrás de uma bola,
o golo na baliza,
no recreio da escola.

E ser dos Olivais é ser do mundo,
o prédio, a rua, o bairro, a lua ao fundo,
talvez por isso seja o Manolo do seu livro
tão meditabundo,
quando à sombra da sua azinheira,
raízes em lugar de Cousa Vã,
folhas ou pensamentos inquietos
e confidências de pássaros no vai e vem das estações.

Do João os dias também de pássaro,
asas de metal, bico afiado em voo contrapicado,
um comissário de bordo, um ser alado.
Leva saudades do chão e um recado,
não sei se gosta de fado!
Sei que prende as lágrimas aos olhos,
não é piegas e não prende,
quando ouve Cat Stevens,
e eu vou arriscar, sem cantar:
I was a child
Who ran full of laughter
My eyes full of sunshine
My heart full of smiles

Sem dúvidas, sei que gosta de futebol,
se Saramago de chuteiras, um Maradona,
digo, por dizer que são dois monstros de bons.
E no coração o seu Benfica,
dois livros,
dois filhos,
duas mulheres,
da Suécia com amor.

Mas do João, sobretudo o sorriso.
Sólido, redondo, brilhante!
Medalha merecida ao peito,
lugar no pódio,
por me lembrar um menino
que aposto era o capitão da rua.


08/06/2014

perfil de João Rebocho Pais

[texto de Sónia Alcaso; imagens 'gloriosas' cedidas pelo João Rebocho Pais]

João Rebocho Pais é um homem inteiro, cheio de jogos (e) de palavras. Desses, com força para sondar as palavras, as dominar e chutar, certeiramente. Sim, falo da escrita e também desse desporto que move paixões, porque a literatura também pode ser comparada com a seriedade imensa de um jogo de futebol. Um jogo onde cada vitória e derrota do Benfica é vivida de uma maneira intrínseca por João, mas também por cada um dos benfiquistas. Não apenas aquilo que se passa dentro das quatro linhas; mas também a partilha. Parte de um povo em uníssono, a deixar-se unir pelo mesmo sentimento, a mesma crença, a mesma cor, as mesmas alegrias, as mesmas tristezas. Como na literatura. Dois olhos a mais ou a menos fazem toda a diferença. Escreve-se para os outros. Quem sabe, um dia, com os outros?


Duas paixões na vida de João - os livros e o Benfica -, somadas a outras tantas, com as maiores nos filhos, Francisco e Miguel, e as restantes nos prazeres à volta, como a simples contemplação de uma árvore ou uma estátua. É assim, João Rebocho Pais: feito de sorrisos desarmantes e olhos divertidos de quem acabou de pregar uma partida ao mundo. Ou foi o mundo que te pregou uma partida a ti?

O escritor surgiu por acaso; o comissário de bordo também. Mas tanto pega nas malas (mesmo que se tornem pesadas), como nas canetas, que, nos dias que correm, também já não são penas.

Hoje é um escritor com dois livros publicados. O primeiro, "O intrínseco de Manolo", surgiu inesperadamente, por um decisivo e milagroso acaso. O segundo, "Dizem que Sebastião", foi natural, o esperado de uma voz original, cheia de humor, que disfarça a crueza da vida e que se quer ouvir. O caminho é bonito e apetece.

João é um escritor obstinado, leal às amizades e, sobretudo, a si próprio. Um escritor que não cruza os braços, antes pelo contrário, transforma-os rapidamente em asas e leva os seus livros às nuvens. Essas, que estão mesmo a seguir às janelas dos aviões.

Escreve histórias de amor, mas também de solidão, de personagens que redescobrem a essência da vida. Mesmo que seja no seu ocaso. O importante é deixar a alma, serena, voar feliz como os pássaros que se interrogam sobre os humanos. Como é que se consegue essa leveza, João? Relativizando o que pouco ou nada interessa. Ter a consciência de que viver é uma graça da natureza. Parece fácil, mas não é. Lendo João Rebocho Pais, talvez o consigamos aprender. Pelo menos o suficiente para que neles, nos seus livros, fiquemos. Ou para que eles fiquem dentro de nós.



"Cousa Vã guardara lugar em sua vida, habitava um espaço importante como o são todos os que nos ocupam a mente, que nos trazem tesouros que sabemos guardar, isso confessava Manolo à árvore, com ela dividindo a vez de regressar a esse tempo, trazendo histórias de tantos dias passados, partilhados, onde haviam aprendido a cumplicidade que os unia. Manolo envelhecia, e isso a árvore ia percebendo, aumentando-lhe a sombra, para que assim com ela descansasse sossegado. E, ainda que vivendo mil anos, era árvore velha também." 
O Intrínseco de Manolo (pág.170)