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19/03/2015

Clic

[a leitura de Dizem que Sebastião por Sónia Alcaso]

“A cada mês que passava do previsto ano sabático, a casa de Sebastião ganhava novos contornos. Agora, havia livros espalhados pelo chão, mapas da cidade, horários de teatros, desdobráveis de exposições, anúncios de espectáculos. A ironia de ter desperdiçado grande parte da vida amealhando sem sentido dava lugar à certeza de que alguém escrevia direito por linhas tortas”.
(página 141,  “dizem que sebastião”)


Um clic num momento de vulnerabilidade e um homem, que antes não passava de um monte de ossos a viver da secura de meia dúzia de pílulas vitaminadas, ganhou uma nova engrenagem. Um desaire amoroso e um susto de saúde (podia ser qualquer outra coisa) e Sebastião rendeu-se à evidência... Rendamo-nos também nós!

Por solidariedade com a personagem, ou porque não passamos de comuns mortais, ao lermos este livro, muitas coisas acontecem e, por dentro, passamos a estar inteiramente com Sebastião. Espreitamos-lhes os gestos, acompanhamo-lo nos seus encontros com as estátuas dos escritores, bebemos-lhe os diálogos, solidários com a procura da verdade que ele não sabe onde está, mas que nós percebemos que está ali, espelhada pelas ruas de Lisboa. E, no fim de tantos percursos culturais, ficamos todos – nós e ele -, perante uma melhor compreensão de quem somos.

Quem tem a sorte de conhecer pessoalmente João Rebocho Pais, reconhê-lo-á, decerto, nestas páginas, na paixão pela literatura, no humor com que envolve as palavras e, sobretudo, na atenção que dedica à poesia que existe fora dos poemas.


22/01/2015

Aconteceu ou não

[a leitura de Esta Noite Não Aconteceu por Cristina Drios]

“Se eu não fosse escritora e não pusesse no papel os seus sentimentos, tornar-me-ia, provavelmente, uma criminosa. (...) Mas é só nos livros que cometo crimes, juro; contar histórias foi o refúgio que descobri para escapar às ideias horríveis que tantas vezes me passam pela cabeça.”
in “Esta Noite Não Aconteceu”, pág. 157.

Aconteceu ou não, pergunta-se o leitor, ao fechar a última página deste romance que se lê de um só fôlego, ao ritmo quase frenético dos acontecimentos que enredam quatro personagens: uma escritora de romances cor-de-rosa que almeja mudar, um jornalista que afinal não é só o que disse ser, um criminoso violento que se releva um bom pai e um  polícia reformado apanhado num vórtice a que é alheio...

Acontecer ou não acontecer, eis a questão. Qual é a fronteira entre realidade e ficção? Que linha separa a escritora inventada da escritora real? A ficção será apenas um refúgio para a escritora inventada? E para a escritora real, será uma realidade paralela em que, de facto, existe tanto quanto as suas personagens? É que, afinal, no caso da escritora inventada, descobrimos que a realidade é apenas ficção... Confusos? Nem tanto! A contracapa fala-nos de “um romance empolgante e carregado de acção” mas “Esta Noite Não Aconteceu” é muito mais, é um livro com camadas de  profundidade que, tal como cada hora da noite em que se desenrola, trazem um matiz diferente que se sobrepõe ao anterior. Cabe-nos a nós, leitores, fazer acontecer ou não...










18/01/2015

Enred(ad)o

[a leitura de Esta noite Não Aconteceu por Carla M. Soares]


Há pessoas que vivem toda a vida como jogadores a quem a sorte sorri continuamente. Rosário Toledo sentia-se assim e, mais uma vez, o acaso pusera-lhe na mão a peça que lhe permitiria completar o seu puzzle...
pág 95




E nós, leitores, somos jogadores neste jogo? Que linhas seguimos neste labirinto de palavras e intenções? Que que peças nos são oferecidas?

Muitas, e soltas, com esquinas que não encaixam. Colidem asperamente e causam estranheza. Até que uma se move dentro da intriga e as outras vão caindo nos seus lugares, as arestas cortantes mas afinal coincidentes, no espaço curto de uma noite que não aconteceu. Ou aconteceu. Ou ambas as coisas. 

E se, no espaço de uma noite, todas as linhas cortadas abruptamente no nosso percurso viessem enredar-nos? Todas as nossas insuficiências? As nossas culpas, os nossos fantasmas, as consequências das nossas escolhas, as nossas perdas? E se nessa noite os outros da nossa vida, os que são da nossa vida mas não estão na nossa vida, nos batessem à porta a lembrar o que muito fizemos por esquecer? E se fosse negro o esquecimento? Se fosse assim, quando duraria cada hora? E se nada disto fosse senão ficção? 


É por isso que são muitas e longas as horas em Esta Noite Não Aconteceu, como são muitas e obscuras as peças do quebra-cabeças de uma realidade que não o é. Ou é. Nem a história de cada um, nem cada um são reais ou irreais: nem a escritora elegante de literatura light que já não deseja sê-lo, nem o jovem jornalista de intenções ocultas, nem o assassino ou a vítima que o serão ou não.  

Como sempre é na escrita, neste livro, tão pequenino, tão enredado e escondido como a jovem da capa, tão bom de ler, as palavras criam uma realidade completa dentro de si mesma. Nem verdade, nem ficção. 

15/01/2015

Sónia Alcaso: furacão dos sentidos

[Paulo M. Morais traça o perfil de Sónia Alcaso]

Devo conhecer a Sónia Alcaso talvez há uns 15 anos. Muito antes, portanto, de termos escrito livros. Então quem poderei eu perfilar: a pessoa que se tornou uma amiga ou a pessoa que se tornou uma escritora? E o que interessará mais a quem ler estas linhas?

Tento encontrar um terreno comum para traçar este perfil e encontro as palavras. A nossa amizade criou-se, inicialmente, por causa das palavras. É que os primeiros olhares que trocámos, num local de trabalho, foram de desconfiança: eu já lá estava, ela aparecia como a intrusa. Depois, algures, sem saber precisar bem quando ou como, descobri que aquela Sónia, a Alcaso, escrevia. Sim, ela escrevia frases, parágrafos, textos muito belos. E também lia. Lia muito. E fez-me ler. Já com a amizade a ser instaurada através de palavras escritas e faladas, lembro-me de que ela me ofereceu “A Náusea”, do Jean-Paul Sartre. Com dedicatória, claro está, que a escrita tinha de estar colada à leitura.

Perguntei-lhe para este perfil o que ela encontra na leitura que não existe noutra coisa. Ela respondeu-me: «A imaginação, os sonhos, essas outras vidas ocultas que todos temos e nem sempre se vêem. Os livros mostram.» E depois perguntei-lhe ainda o porquê de escrever. «Porque, citando Faulkner, ‘é a minha vida secreta’». E acrescentou que para escrever mais lhe falta «conseguir mais solidão».

E aqui entro eu, o amigo, a saltar 15 anos até ao presente, para dizer que a Sónia Alcaso é muito mais do que palavras lidas e escritas em solidão. Quero chamar-lhe um furacão de vida, mesmo que soe a lugar-comum, por saber que ela já suportou e superou momentos complicados, sustentando-se numa força interior enorme. Porque lhe reconheço uma paixão e pulsão por viver, viver a sério, que é rara. E também porque a nossa relação não se limita ao politicamente correcto, às palmadinhas nas costas, aos silêncios para não melindrar. Entre nós dizemos o que precisa ser dito. Divergimos, contrariamos, criticamos, a maior parte das vezes por palavras faladas, face a face, apesar de gostarmos tanto das palavras escritas.

Esse é o outro lado da Sónia Alcaso. O da mulher que quer estar na vida com todos os sentidos. Que quer sair do seu refúgio, da sua “solidão” de escritora, para ver pessoas, para sentir o cheiro das ruas, para comer bolos numa pastelaria. Neste perfil não podiam faltar os nossos cafés. Mesmo espaçados, são esses encontros que delimitam a nossa amizade. E essa foi a minha terceira e última pergunta para este texto: o porquê de ela ter uma certa aversão à interacção através das redes sociais? E ela, por palavras escritas, assegura-me que não tem qualquer resistência à tecnologia que, sem margem para dúvidas, «fez o mundo avançar, a passos gigantes». Então? «Só me chateia que a comunicação entre as pessoas se esteja a transformar. As pessoas refugiam-se, cada uma em sua casa, e comunicam. Parece que já não precisam de se tocarem (comerem bolos juntas), de se ouvirem... vozes, um timbre de humanismo. A mesma tecnologia que facilita a vida, dilui a humanidade.»


Leram? O sabor do bolos. O contacto de peles. O timbre das vozes. E tudo isso formulado com palavras tão belas. Eis o que, para mim, se tem nos melhores momentos da escritora Sónia Alcaso: a descrição certeira das sensações da vida, quer seja uma mulher a ter um orgasmo ou um homem a saborear um pastel de nata.

Estou convicto que os homens que guardem cartas de amor escritas pela Sónia, volta e meia pegam nelas para sentir o perfume da vida vivida. Eu, admirador confesso deste furacão (diferente de mim em tantos aspectos), gosto especialmente desta amizade prolongada, marcada pelos abraços à porta duma pastelaria, já de olhos postos nos bolos que vamos comer entre as conversas onde partilhamos as nossas vidas. E, nos hiatos desses encontros (onde tanto nos instigamos a continuar a escrever, apesar de todas as dificuldades), lá fico numa ânsia de que ela me dê, a mim e aos outros leitores, mais palavras em livro.

13/01/2015

A Flor do Meu Segredo

[a leitura de Esta Noite Não Aconteceu por Ana Saragoça]


Eu escrevi durante anos o que achei que as pessoas queriam ler, mas sinto-me cansada. Sei que posso ir mais longe. E para isso vou usar as minhas próprias memórias como ficção. E a minha própria vida como tema.

Esta Noite Não Aconteceu, página 73


Palavras de Rosário Toledo, cujo nome e ofício se associaram de imediato na minha mente à protagonista de um longínquo filme de Almodóvar. A memória do filme já está muito esbatida, mas ambas, Leo e Rosário, são prisioneiras do próprio sucesso como autoras de romance cor-de-rosa, ambas são frias e impiedosas, ambas têm um segredo monstruoso, ambas são cegas à realidade mais próxima, ambas são infelizes, e ambas são inventadas. Se são inventadas por si próprias ou por um realizador espanhol e uma escritora portuguesa, isso é secundário, até porque, tendo tanto em comum, são totalmente diferentes. O principal é que por trás do rosa mais vivo se esconde muitas vezes uma alma mergulhada na mais negra escuridão.

Tal como os passageiros frequentes passam por cima das instruções de segurança do pessoal de cabina dos aviões, assim os leitores batidos saltam enfastiados a tal ladainha de abertura nos livros: ‘Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com factos ou pessoas reais é mera coincidência.’ E fazem bem, porque é uma das mais cabeludas mentiras da literatura de todas as cores. Quantos de nós não se encontraram já retratados nas letras de um autor que nem sequer nos conhecia, que era mesmo pessoa para ter morrido umas valentes décadas antes da nossa vida ao mundo? Mera coincidência? Não. Acontece apenas que muitos dos nossos segredos mais íntimos já existiram em outros seres, que a seu tempo foram detectados por algum escritor.


Quanto ao que esta noite aconteceu, ou não aconteceu… isso é a flor do segredo da Sónia Alcaso. 

11/01/2015

12 horas nocturnas


- Sim, eu sei, mas o que quero que me diga é se há alguma distinção entre a Rosário Toledo escritora e a pessoa. Podemos falar numa existência real e numa existência literária?
- Sim, claro. Quando estou a escrever um livro, vivo a meias entre a minha “existência real”, como disse, e a imaginária - o romance. Mas, às tantas, é inevitável acabar por fundir as duas.
- Isso quer dizer que não tem um quotidiano independente da sua actividade como escritora?
in Esta noite não aconteceu, de Sónia Alcaso (pág. 32)




Sei qual a resposta da personagem, não sei qual a resposta da autora, porém desconfio, provavelmente por sentir na pele as mesmas contingências, por ser a autora jornalista e escritora, os dias com dois trabalhos, o compromisso da escrita, a falta de tempo, a urgência dos afazeres, a pausa imaginária para café com as personagens, as conversas no metro, enquanto se estende a roupa, debaixo do chuveiro.
E Esta Noite Não Aconteceu, é um livro que nos enfia por 12 horas, se 8 horas de sono um dia inteiro, na vida de 4 personagens, uma escritora, um jornalista, um assassino, um polícia, dois pares perfeitos para dançar no salão.
O leitor dança?
12 horas nocturnas, sendo de incluir no adjectivo mentiras, encontros e desencontros, recordações, recriminações, abusos, máscaras, violência e sexo.
12 horas nocturnas até que a luz do dia nos mostra que nada é o que parece, ou ao contrário, pois no fim a sensação de desconforto por não saber o que foi real e o que foi ficção.

07/01/2015

Livro do mês - Esta Noite Não Aconteceu,

Aconteceu ou não aconteceu?

Aconteceu, e bem! A prová-lo está o misterioso livro deste mês, da timoneira Sónia Alcaso. 

Que poderá acontecer a quem anseia desesperadamente ser rico e famoso e se dispõe a vender a alma para o conseguir? Ao início de uma noite de temporal, Rosário Toledo, uma famosa autora de romances, encontra-se num bar de hotel com um jornalista perverso e calculista, disposto a acertar contas com o seu passado. Na outra ponta da cidade, um assassino chamado Vicente Pedras poupa inesperadamente a vida a um polícia atormentado, criando-se entre ambos uma estranha empatia que os levará a eleger essa noite como a de todas as vinganças - vinganças que incluem, entre outras, o castigo exemplar de uma mulher que abandonou o mercenário há muitos anos. esta noite não aconteceu é uma viagem ao interior sombrio de quatro personagens ao longo de doze horas, durante as quais assistiremos a uma espiral alucinante de encontros e desencontros, recordações e mentiras, abusos, recriminações, violência e sexo desenfreado; mas, à medida que a noite dá lugar à manhã, as máscaras cairão, uma por uma, mostrando que, afinal, nada é o que parece. Um romance empolgante e carregado de acção que nos surpreende da primeira à última página.

30/12/2014

Futuro a prazo?

[A leitura de Pretérito Perfeito por Sónia Alcaso] 

"Passei o dia sem dores, atento ao meu corpo, desconfiado, aliviado, feliz mesmo, a felicidade de ter um corpo sem dor a funcionar sem auxílio, nem fármacos, nem próteses, nem cães-guias, nem canadianas, nem muletas, nem cadeiras de rodas."
(página 56 in "Pretérito Perfeito")




Custa a crer-lhe que o mundo continue a existir depois. Custa a crer-nos também a nós. E, no entanto, é o fim que paira logo no início deste livro e que nos lança em modo de semi-penumbra. Ficamos ínfimos, frágeis e demasiado materiais (ou diria imateriais?).

Aqui domina a morte, mas parece vencer a vida (e vidas) que se desenrolam a uma velocidade assustadoramente rápida. O tempo é sempre insuficiente e só se dá por isso quando o final se anuncia. Sem hipótese de fuga, confrontamo-nos, neste livro de Raquel Serejo Martins, com a morte -  a de Vasco, a nossa - e a ela voltamos, mesmo que, em muitos momentos (nas memórias), nos ausentemos dela. É esta a consequência de se andar pelo mundo.

Um livro poético e tragicómico porque, apesar do peso, há humor nesta escrita. E digo-o consciente de que é não é fácil fugir ao dramatismo das palavras quando tudo o que está em jogo é o milagre da vida e a ausência dela. Raquel consegue-o, como se não desconfiasse no fundo da verdade, mas preferisse eleger uma outra, suspensa. Como uma textura musical, "uma áspera, quase agressiva, mas inquestionavelmente romântica sonata de Brahms".

14/12/2014

O olhar de Raquel

[Sónia Alcaso traça o perfil de Raquel Serejo Martins]


Os olhos chegam-nos antes de tudo o resto. Raquel Serejo Martins tem uns olhos imensos, enigmáticos, que nos remetem para a ideia de pintura. Fixam-nos com gravidade e retenção semelhantes. Fazem jus à ligação que Raquel tem com a arte (as diversas artes fundidas) e que transporta para a vida num constante desafio à morte, como a história que se pode conhecer em “Pretérito Perfeito”, cheia de palavras vindas de dentro, que nos lançam num constante desassossego, num outro tempo talvez, mais lento, mais próximo do silêncio, da sombra, da solidão, da beleza e da impossibilidade da beleza. Mas não é para aí que vamos agora...

Vamos para Trás-os-Montes, onde Raquel nasceu e de onde herdou a garra das montanhas pardas que se viam da janela do seu quarto. É delas que, por vezes, sente falta em Lisboa e, sobretudo, da lareira, das frutas, do chão, do calor do Verão e do seu cheiro singular. Mas também falta nenhuma, porque, para onde quer que vá, basta fechar os olhos para Raquel reencontrar tudo isso dentro de si. Assim como muitas outras terras, porque são as paisagens que fazem os homens e Raquel alimenta-se delas; viagens pequenas ou grandes, a Costa da Caparica ou Pequim, sempre com amigos que a acompanham nestas itinerâncias.

Raquel tem a peculiaridade de estar na vida com uma atenção e curiosidade quase infinitas. Não nos surpreende, portanto, que se mude de universo e se fique a saber que mesmo sendo feita de palavras, que tantas vezes a consomem, lidas e escritas (autora dos livros "A Solidão dos Inconstantes" e "Pretérito Perfeito", Editorial Estampa), também lide com números e leis (economista, pós-graduada em Direito Penal Económico e Direito Administrativo; Inspectora Tributária a trabalhar na área criminal).

Importante mesmo (para ela e para nós que a lemos) é poder continuar a roubar tempo aos dias para escrever, mesmo que seja com uma disciplina completamente indisciplinada, a alinhavar frases sem obedecer a regras, durante três horas, duas horas, meia hora e, como ela mesma diz, com mãos de oleiro cego. No final, a obra faz-se e compensa; é ela que fica quando tudo o resto desaparece - as histórias, os livros, a desafiarem o tempo e os vendavais. 

28/11/2014

Ventos e valores

[Sónia Alcaso e a leitura de «Alma Rebelde»]

“A janela, mais alta do que um homem, abria-se para a escuridão. As cortinas pesadas não denunciavam a agitação, mas o vento incessante sacudia as ramadas das árvores contra as vidraças. Eram um muro contra a tempestade e o sopro ameaçador do vento, mas não podiam reter os sons, nem o calor. Há dias que não havia silêncio. O rugir implacável do vento na planície e o fustigar regular dos ramos contra os vidros, contra as telhas, contra as paredes, por dentro delas, magoavam os ouvidos. O vento uivava constantemente, soprando cinzas frias de dentro das chaminés, pelas lareiras abertas, para dentro das salas. Penetrava em todas as frestas da velha casa. Por vezes, levantava as toalhas e os tapetes, virava papéis e derrubava molduras. Era como se fantasmas gritassem, de dentro das paredes, o seu desagrado ululante.”
in Alma Rebelde (pág. 9)

No primeiro parágrafo é ele que reina: o vento (no casarão de Roussada). E começo por aqui, porque não posso deixar de mencionar o quão interessante me pareceu logo este elemento inserido nesta narrativa ficcional, talvez não por acaso: o tempo. Não só um tempo histórico, mas um também um tempo subjectivo, vivido ou sentido pela personagem principal, que flui em consonância com o seu estado de espírito. É com ele que a história começa e, na minha cabeça, durante toda a leitura, permaneceu este “rugir implacável do vento”, mesmo com o sol, a luz e as cores da nova casa.
Joana é-nos apresentada como uma mulher amargurada com o desconforto de viver numa época à qual não pertence, mas se submete – educada, como foi, para cumprir as suas funções de esposa. Estamos em pleno século XIX, em Lisboa, e temos como companhia personagens dentro de um certo contexto e situação social que gritam o tempo todo pelo limite psicológico onde transitam.
Carla M. Soares escreve de uma maneira deslizante e límpida, disposta a ir aos extremos das questões pessoais, dissecando valores e desejos.
Gosto do seu olhar atento à condição feminina - a mulher surge, aqui, como o protótipo do qual recairá sobre ela o pesado fardo de representar a ponta de um iceberg. Hoje em dia, uma parte do gelo já derreteu. Infelizmente, não todo.


30/10/2014

Outra forma de sonhar

[Sónia Alcaso e a leitura de «Capítulo 41»]

«(...) Rodeados de espanto, dobraram novamente os mapas. Além, de todos os Atlas que já mostravam os Açores, desenhados em datas anteriores às dos Descobrimentos, outros documentos foram encontrados dentro da pasta de Paolo Benevoli: no separador “Corvo” encontraram extensos tectos acerca da Lenda do Cabaleiro, mas também fotografias de estranhas escavações na rocha; a etiqueta relativa a “Terceira” escondia artigos científicos acerca de arte rupestre e outros achados, recheados de fotografias de mais estruturas legendadas como templos; na separata “São Miguel” desvendaram mais fotos de abrigos escavados num cenário claramente costeiro (...)»
in Capítulo 41 - A Redescoberta da Atlântida (pág.227)


Para os amantes dos segredos e mistérios da arqueologia, para quem se deixa fascinar por emoções, pelo incerteza dos desfechos, para quem gosta de se sentir perdido naquelas pistas que se deixam, sadicamente, pela narrativa, para encorajar ou desnortear, para quem se sente fascinado por essas verdejantes nove ilhas no meio do Atlântico, para quem gosta de aventuras estonteantes, de universos inteiros para explorar, para quem simplesmente gosta de ler... chegou a hora da verdade: o «Capítulo 41» é o livro!
E o que se pode desvendar do escritor, do homem? Para aguçar curiosidades, levanta-se apenas a ponta do véu... Pedro Almeida Maia, o escritor, é uma voz viva, enérgica, que manobra, com mestria, a imaginação de quem o lê. Pedro Almeida Maia, o homem, tem o sorriso solto de quem se dá e entrega, com afinco, ao que gosta de fazer – escrever, comunicar, criar mundos que nos abrem, a nós, outras visões do mundo e formas diferentes de sonhar. E tão bom que isso é!  


30/09/2014

Uma viagem pela incerteza

[Sónia Alcaso e a leitura de «Revolução Paraíso»]


"E, pelas oito da manhã, ouviram a Grândola Vila Morena entoar na frequência radiofónica. Teopisto e Precatado pausaram a mastigação das torradas com manteiga preparadas por Deodete e cantaram os versos daquela terra de fraternidade, onde o povo é quem mais ordena. A canção da terra onde há um amigo em cada esquina pôs-lhes as lágrimas a rolar pelos rostos pálidos. Escutaram o comunicado do MFA a anunciar o falhanço do golpe fascista e, lembrados de que aquelas rimas de Zeca Afonso haviam sinalizado o início da Revolução dos Cravos, abraçaram-se emocionados.
                                                                                      In Revolução Paraíso, Pág. 165


Este livro é uma viagem. Uma viagem a 1974 e 1975: pela certeza do já conhecido, pela incerteza do ainda desconhecido. E embarcamos nessa viagem, sabendo desde logo (porque este livro nos ensina) que a glória na chegada só depende da fé na partida, e lá vamos nós, com a Santíssima Trindade, com Adamantino Teopisto e César Precatado, com Deodete e Pandora, com Adão e Eva, com muitas outras personagens ficcionais e históricas e, acima de tudo, com a revolução. Em marcha voraz, pelas ruas do Cais do Sodré, pelas tascas, pensões e esquinas, pelas letras de um jornal refundado, para, também nós, escrevermos, revermos, compormos uma nova história para o país.

Paulo Morais sempre foi um homem de viagens. Dessas que nos fazem dar a volta ao mundo e das outras que se dão dentro de nós mesmos. Sempre soube reunir vontades tanto para ultrapassar ares e mares, como para vencer adversidades e barreiras. Um bom guerreiro, é o que Paulo Morais sempre foi! Um guerreiro faminto de lugares, vidas e acontecimentos. Desta vez foi graças à avó que nos levou a este período tão rico da nossa história. A próxima viagem esperemos que não tarde...





15/07/2014

Indisponível para morrer

[Sónia Alcaso e a leitura de «Todos os Dias são Meus»]

Sempre acreditei que o universo de um bom livro nos persegue por muito tempo. Ora eu li o livro da Ana Saragoça há cerca de dois meses e sempre que passo nas minhas escadas, pela porta dos meus vizinhos (têm qualquer coisa de estranho...) lá volta ele - o  mundo que a Ana tão bem criou. Um mundo que envolve tudo o que no comportamento dos seres humanos parece absurdo, injusto, grandioso, cheio de coragem ou cobardia; uma história que acontece acima e abaixo da aparência do acontecer, como se a vítima, afinal, se tenha declarado indisponível para morrer. À volta dela, gravitam personagens que nos deixam adivinhar as vidas, que escutamos mesmo sem querer, que vamos entendendo com o adensar do mistério. Como num filme. Por vezes cómico, por vezes trágico.
Um livro que, mais do que se lê, se vive sofregamente.


«Suponho que há sempre uma altura na vida em que tentamos fazer parte de um grupo, ser “normais”. Os únicos modelos de comportamento que eu respeitava eram os que me tinham sido transmitidos pelos livros. Eu lia tudo o que me vinha parar à mão, portanto tinha muitos modelos à escolha, e tentei seguir alguns. E foi aí que se deu o meu grande choque com a realidade. Nos livros, mesmo nos mais “experimentais”, as personagens têm sempre alguma coerência. Uma personagem que faz “isto” não pode fazer “aquilo”, e se faz “aqueloutro”, naturalmente fará “algoutro”. Na vida as pessoas são tudo menos coerentes e conseguiram surpreender-me sempre – pela negativa. Os livros existem porque alguém concebeu uma intriga com princípio, meio e fim, com peripécias e um desenlace. A vida real pode arrastar-se indefinidamente por intrigas mesquinhas, completamente desprovidas de interesse, e sem outro fim à vista que não a morte.»
Todos os Dias são Meus (pág.59/60)

08/06/2014

perfil de João Rebocho Pais

[texto de Sónia Alcaso; imagens 'gloriosas' cedidas pelo João Rebocho Pais]

João Rebocho Pais é um homem inteiro, cheio de jogos (e) de palavras. Desses, com força para sondar as palavras, as dominar e chutar, certeiramente. Sim, falo da escrita e também desse desporto que move paixões, porque a literatura também pode ser comparada com a seriedade imensa de um jogo de futebol. Um jogo onde cada vitória e derrota do Benfica é vivida de uma maneira intrínseca por João, mas também por cada um dos benfiquistas. Não apenas aquilo que se passa dentro das quatro linhas; mas também a partilha. Parte de um povo em uníssono, a deixar-se unir pelo mesmo sentimento, a mesma crença, a mesma cor, as mesmas alegrias, as mesmas tristezas. Como na literatura. Dois olhos a mais ou a menos fazem toda a diferença. Escreve-se para os outros. Quem sabe, um dia, com os outros?


Duas paixões na vida de João - os livros e o Benfica -, somadas a outras tantas, com as maiores nos filhos, Francisco e Miguel, e as restantes nos prazeres à volta, como a simples contemplação de uma árvore ou uma estátua. É assim, João Rebocho Pais: feito de sorrisos desarmantes e olhos divertidos de quem acabou de pregar uma partida ao mundo. Ou foi o mundo que te pregou uma partida a ti?

O escritor surgiu por acaso; o comissário de bordo também. Mas tanto pega nas malas (mesmo que se tornem pesadas), como nas canetas, que, nos dias que correm, também já não são penas.

Hoje é um escritor com dois livros publicados. O primeiro, "O intrínseco de Manolo", surgiu inesperadamente, por um decisivo e milagroso acaso. O segundo, "Dizem que Sebastião", foi natural, o esperado de uma voz original, cheia de humor, que disfarça a crueza da vida e que se quer ouvir. O caminho é bonito e apetece.

João é um escritor obstinado, leal às amizades e, sobretudo, a si próprio. Um escritor que não cruza os braços, antes pelo contrário, transforma-os rapidamente em asas e leva os seus livros às nuvens. Essas, que estão mesmo a seguir às janelas dos aviões.

Escreve histórias de amor, mas também de solidão, de personagens que redescobrem a essência da vida. Mesmo que seja no seu ocaso. O importante é deixar a alma, serena, voar feliz como os pássaros que se interrogam sobre os humanos. Como é que se consegue essa leveza, João? Relativizando o que pouco ou nada interessa. Ter a consciência de que viver é uma graça da natureza. Parece fácil, mas não é. Lendo João Rebocho Pais, talvez o consigamos aprender. Pelo menos o suficiente para que neles, nos seus livros, fiquemos. Ou para que eles fiquem dentro de nós.



"Cousa Vã guardara lugar em sua vida, habitava um espaço importante como o são todos os que nos ocupam a mente, que nos trazem tesouros que sabemos guardar, isso confessava Manolo à árvore, com ela dividindo a vez de regressar a esse tempo, trazendo histórias de tantos dias passados, partilhados, onde haviam aprendido a cumplicidade que os unia. Manolo envelhecia, e isso a árvore ia percebendo, aumentando-lhe a sombra, para que assim com ela descansasse sossegado. E, ainda que vivendo mil anos, era árvore velha também." 
O Intrínseco de Manolo (pág.170) 

22/05/2014

o medo e a solidão da guerra

[citações de «Os Olhos de Tirésias» escolhidas por Sónia Alcaso]

Infantaria australiana em Ypres
fonte: Wikipedia / Australian War Memorial 
"Alvin Martin parou, sempre colado à lama como um réptil, para retomar fôlego. Ficou imóvel durante minutos infindáveis. Depois, com vagar, acocorou-se e, passado um longo momento, ergueu-se na escuridão, meio corpo primeiro, todo junto depois. Ir e voltar. Voltar vivo. Voltar inteiro. Avançou, a lama a engolir-lhe cada passo. Temia a própria temeridade, não pelo desfecho do momento que para ele era de antemão sabido, mas porque o medo criara dentro de si raízes tão fundas como aquelas à sua volta, enterradas no lamaçal, mantendo de pé as árvores mortas. Um homem está sempre só, pensou, que diferença faz?" (pág. 78-79)

Alvin Martin é uma das personagens de Cristina Drios que nos entram pela alma dentro. E entram, enquanto grito, enquanto superação de um corpo a falhar, replicado várias vezes noutros corpos que igualmente foram devastados pela guerra.

Com Alvin Martin voltamos, também nós quase-mortos, a esse cenário de luta e medo e solidão. Não há como ficarmos inteiro. Perdemos o estômago e o coração. E, no entanto, são passagens como esta (imensas ao longo d'Os Olhos de Tirésias) que nos fazem valorizar a vida. E este tempo que vivemos que, bem vistas as coisas, é menos mau do que o tempo de Alvin. Ao dele regressamos, vezes sem fim, nas palavras deste livro e dele saímos para respirar, mas carregados de uma aprendizagem quase sem pausas. Obrigada, Cristina!

"Os vultos moviam-se na noite como sombras chinesas, deixando Alvin Martin sozinho a vinte metros da trincheira inimiga, na mira do atirador, sem qualquer cobertura, só ele sabendo que um homem condenado à solidão dentro da sua pele nunca pode ser abandonado, porque não há partilha, não há forma de tocar em ninguém, nem com todas as palavras certas, aquilo que sente." (pág. 47)