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28/12/2014

Pequenos Prazeres

[A leitura de Pretérito Perfeito por Cristina Drios

Agarra-nos à felicidade dos pequenos prazeres, das coisas simples, dos gestos singelos e quotidianos: o calor de uma chávena de chocolate, um raio de sol na cara, um romance aberto no regaço, a mão no pêlo do gato, uma gargalhada. Agarra-nos à vida, portanto. Assim é este livro, este “Pretérito Perfeito”. E a sua leitura torna-se em si mesma parte desses deliciosos prazeres, pequenos mas imensos ao mesmo tempo. Ao longo das páginas vamos indo, de mão dada com o Vasco cujo coração falhou e a quem foi dado um novo que promete falhar a qualquer momento. O Vasco, na verdade, somos todos nós, irmanados numa única certeza, a da inevitabilidade da morte. E tal como ao Vasco, a ideia assustadora de que um dia morreremos deixa aos poucos de nos atemorizar porque, como ele, somos também um acumular de prazeres mínimos. “Pretérito Perfeito” fala muito da morte mas é um hino à (im)perfeição da vida.


“Morreu um actor, um escritor, um guionista, um realizador, um encenador, um poeta.
Sim, morreu um poeta, gostava de ser poeta.
Tudo isto, morreu hoje, dentro do mesmo corpo.”
in “Pretérito Perfeito”, pág. 149.



21/12/2014

Prazo de validade


[A leitura de Pretérito Perfeito por Carla M. Soares]

Doce e agressivo, bom de ler, mau de ler, livro para adorar  e detestar, mesmo gostando... Tudo fácil e tudo terrivelmente difícil neste livro. Percebe-se melhor se acrescentar que a temática é a morte? Assim, com limpeza, sem rodeios: a morte. Morte jovem, por concretizar e todavia à partida concretizada, porque inevitável. Nós perante as páginas, naquele momento da peça, mesmo no fim da primeiro acto, quando se adivinha o cair do pano. Devia haver segundo acto, terceiro, mas desengane-se o público ao mesmo tempo que a personagem - logo nas primeiras linhas fica o aviso, é peça de um acto só. Metáfora aparte, como assistir à vida com prazo de validade? Com dor?

Não, nem por isso. O peso da morte está nas páginas, claro, suspendemo-nos dele no receio de vê-la chegar a qualquer momento. Mas não há comiserações nem o facilitismo do drama, não há a constância da lágrima, da repulsa ou da revolta de uma morte jovem - e injusta, são sempre injustas estas falhas do nosso corpo, se o nosso corpo ainda prometia muitos anos de outras falhas. Há pelo contrário memórias em que, com a melancolia de quem já sente a falta, se celebra a vida - é a vida, é a vida! - num deambular pelos avanço dos dias à sombra da inevitabilidade, pelos momentos de outro tempo que se guardam como tesouros... E entre os pedacinhos de vida a morte nunca nos chega, expira a validade e a personagem que aprendemos a estimar permanece. Os mais óptimistas de nós podem fechar as páginas com a esperança de um engano. Não há engano, mas a esperança é coisa boa. 

05/12/2014

Livro do mês - Pretérito Perfeito

Como falar da morte sem o peso terrível da morte? Assim, como fala Raquel Serejo Martins.

Este mês de tantas coisas especiais - o Natal, a viragem do ano - tem como timoneira Raquel Serejo Martins, com o seu livro especialíssimo sobre a morte, que é afinal sobretudo um livro sobre a vida: Pretérito Perfeito.  


(romance, Editorial Estampa, 2013)

Sinopse:

Pudesse toda uma vida caber num livro? Nestas páginas, assombradas pela inevitabilidade da morte, as memórias são o pretérito perfeito do verbo viver. Eu vivi, diz-nos a personagem principal desta autora, hábil na construção da narrativa, na forma como nos leva pela mão até ao fim, a um fim anunciado que reforça apenas essa capacidade ímpar de agarrar o leitor. É o que Raquel Serejo Martins faz neste livro que deve ser lido, como todos os livros que sabem a gente, a vísceras, a medos e alegrias, a histórias contadas e passadas. Um livro com alma, portanto.
Patrícia Reis